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A revolta do hijab

O assassinato de uma jovem que se recusou a cobrir os cabelos deflagra onda de protestos no Irã

Os manifestantes, desta vez, enfrentam as forças de segurança - Imagem: AFP
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O presidente do Irã, Ebrahim Raisi, prometeu “tratar de forma decisiva” os protestos que ganharam força em grande parte do país uma semana após a morte de uma mulher detida pela polícia moral. As manifestações espalharam-se pela maioria das 31 províncias e quase todos os centros urbanos e colocam manifestantes antigoverno contra as forças do regime, incluídos militares. É o teste mais sério para a autoridade do Estado linha-dura em mais de 13 anos.

Raisi culpou os conspiradores por incitar a agitação e prometeu reprimir “aqueles que se opõem à segurança e tranquilidade do país”. Cerca de 35 civis foram mortos durante confrontos com as forças de segurança, segundo o Irã. Autoridades dizem que cinco agentes também morreram na tentativa de conter a revolta pela morte de Mahsa Amini, de 22 anos. Ativistas afirmam, no entanto, que o número de mortos é de ao menos 50, e provavelmente ainda maior.

Promotor de opiniões fundamentalistas durante toda a carreira, Raisi tem sido considerado figura improvável para reprimir a inquietação nas ruas ou atender às demandas por liberdades civis. Seu desafio possivelmente aumentará a probabilidade de uma nova escalada em vilas e cidades onde os manifestantes têm enfrentado cada vez mais as forças de segurança, em cenas raramente vistas no Irã.

As manifestações evocaram imagens de um protesto em 2009, conhecido como revolução verde, que se seguiu a eleições presidenciais polêmicas e marcou a última vez na qual cidadãos enfrentaram as forças de segurança em larga escala. “A principal diferença entre o protesto atual e o movimento verde de 2009 é que agora os manifestantes reagem. Eles não têm medo do regime”, compara Sima Sabet, jornalista iraniana e apresentadora da estação de tevê Iran International. “Agora queimam ambulâncias porque o governo as usa para movimentar as forças de segurança, e não para resgatar quem protesta. São táticas diferentes: eles se movem entre todas as cidades e dificultam o controle.”

Segundo Firuzeh Mahmoudi, diretora-executiva da ONG de direitos humanos United for Iran, a recente agitação ocorreu após meses de preparação pelos iranianos para realizar protestos menores sobre várias questões. “Milhões protestaram em algumas cidades durante o principal dia. Foi a maior coisa desde a revolução de 1979. O governo não viu a onda e ficou muito surpreso. Agora vemos não apenas as grandes cidades, mas municípios menores que nunca notamos antes. Agora também observamos maneiras sem precedentes de protesto, nas mensagens e na ousadia. As coisas estão muito mais unificadas.” Os slogans usados em manifestos, como “Vamos apoiar nossas irmãs e mulheres, vida, liberdade”, foram ouvidos em todo o país, diz Mahmoudi. “Isso é inédito para nós. Nunca vimos mulheres tirarem o hijab em massa desse jeito”.

As manifestações espalham-se pelas províncias e cidades pequenas, na maior crise política desde 2009

Algumas manifestações parecem ter sido organizadas, ao menos em parte, por uma juventude urbana inquieta e outros que se opõem às regras sociais rígidas, inclusive sobre como as mulheres se comportam e o que vestem. Reuniram-se em torno da morte de Amini, detida pela polícia moral em Teerã por se recusar a usar hijab, o lenço de cabeça. Na linha das lições aprendidas na última década em revoltas contra governos de outras partes do Oriente Médio, os ­smartphones têm sido usados como ferramentas de organização, com ampla divulgação de mensagens e locais de manifestações, apesar dos cortes generalizados da internet no país. “Eles têm táticas para enviar vídeos para fora do Irã, apesar do corte da internet”, conta Sabet. “Pela primeira vez, no Irã, as mulheres queimam os hijabs com apoio dos homens.”

Um número substancial de iranianos há muito se opõe às regras sociais inflexíveis e ao alcance das forças de segurança do Estado, que impuseram um dos regimes teocráticos mais radicais da região durante mais de quatro décadas. Ramin, 29 anos, manifestante de Urmia, no noroeste do Irã, disse: “Mesmo o corte da internet ou ameaças significativas do regime não impediram o povo de protestar. Além disso, várias celebridades iranianas, dentro e fora do país, anunciaram seu apoio aos manifestantes, incluídos atores, atrizes e atletas. Algumas celebridades femininas tiraram o hijab”.

Enquanto os manifestantes continuarem a protestar nas ruas e desgastar as forças de segurança, vão sustentar e talvez expandir o impulso. Em ao menos uma pequena cidade, Oshnavih, no noroeste, o regime perdeu o controle efetivo e recuou para a periferia. O provedor de internet Starlink anunciou que ativará seu satélite para permitir o acesso no Irã. Outro manifestante, Haval, de 29 anos, afirmou que a repressão estatal começa a ser sentida nas ruas: “As coisas não estão indo bem, há violência, hoje há um exército na cidade com trajes civis. Eles atiram e isso dificulta para os manifestantes. Você não pode sair à noite porque é perigoso. O Irã não tem forças militares suficientes para parar todos. A polícia diz que, se essa situação continuar por mais de dois ou três dias, não será mais capaz de lidar com ela”.

Centenas de iranianos expatriados se reuniram em Paris e outras cidades europeias para denunciar a repressão aos protestos pela morte de Amini depois de sua prisão pela polícia moral. Manifestantes se reuniram no centro da capital francesa a gritar slogans contra Ali ­Khamenei e também pediram ao presidente francês, Emmanuel Macron, que suspenda as negociações com o Irã. ­“Khamenei, saia do Irã!”, “Chega de silêncio, Macron!” e “Morte à república islâmica” estavam entre as palavras de ordem gritadas pelos manifestantes em francês e persa, relata a AFP. Os expatriados expressaram fúria por Macron ter se encontrado e apertado a mão do presidente iraniano, Ebrahim Raisi, à margem da Assembleia-Geral da ONU, em Nova York, enquanto Paris busca manter vivo o acordo de 2015 sobre o programa nuclear de Teerã.  Em outros protestos, mulheres iranianas em Atenas cortaram seus cabelos num gesto de solidariedade a Amini, além de brandir cartazes com os dizeres: “Diga o nome dela”. No centro de Estocolmo, houve quem cortasse os cabelos, enquanto outro grupo do lado de fora do Parlamento sueco exibia fotos dos mortos. •


*Reportagem adicional de Nechirvan Mando e AFP.
Tradução de Luiz Roberto M. Gonçalves.

PUBLICADO NA EDIÇÃO Nº 1228 DE CARTACAPITAL, EM 5 DE OUTUBRO DE 2022.

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