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Desbrancalizar o pensamento para não soltar a mão de ninguém

Justiça

“Ninguém solta a mão de ninguém”. Com essa expressão, o campo progressista se posicionava ao final do processo eleitoral. Uma sinalização de forte simbolismo, relembrando os dizeres de estudantes quando eram perseguidos e aterrorizados pela ditadura civil-militar brasileira.

O ano de 2018 nem havia terminado, e eu já me incomodava com as concretudes que este processo estava tomando. Muitas podem ser as análises realizadas sobre o resultado eleitoral. Mas focarei nas questões envolvendo os ativismos e o faço pelo simples fato de que esta questão, especialmente, envolve vidas. Um dos principais recados deixados pelo novo Presidente foi de que os ativismos teriam fim. Inclusive, acho que a expressão foi pensada a partir deste enfoque presidencial. Mas, talvez, os progressismos possam ter noções diferentes sobre o que significam estes ativismos.

O que vi nos primeiros meses foi uma discussão sobre solidariedade e construção de resistências em nível global, algo que concordo. Os conservadores e autoritários agem e atuam de modo mais orgânico há algum tempo. Esta ofensiva contemporânea, por exemplo, pode ser diagnosticada desde as chamadas “primaveras” nos países árabes, ganhando força no Brasil a partir de 2013. Portanto, já não era hora para que os progressistas aprofundassem e até mesmo repactuassem uma atuação também em nível global.

O Brasil, pela sua influência e importância na geopolítica regional, tem, portanto, um papel chave. Mas para a minha surpresa, aguardamos que lideranças do chamado Norte global tomassem a iniciativa desta construção. O mundo olhou com atenção para as eleições brasileiras. O mundo segue olhando para o Brasil, pelo avanço autoritário, por mudanças econômicas, pela atuação, e falta de atuação futura, internacional. Mas, também, olha porque a mira que se iniciou em países árabes, passou por eleições norte-americanas e latinas, está focada, também, na Europa – vamos lembrar que Steve Bannon apresenta planos e ações para a direita europeia. Por isso que, para mim, a inércia da esquerda brasileira partidária em compreender o protagonismo que deveria ter neste momento foi inacreditável. Não é possível que a esquerda partidária contemporânea entenda a relação internacional apenas para campanhas, assinaturas de manifestos e pouca articulação mais orgânica.

Os movimentos de mulheres são um bom exemplo. Desde antes da eleição de Donald Trump, os movimentos de mulheres têm apontado uma necessária organização internacional do progressismo que saia apenas de intenções. Não à toa, Angela Davis, afro-americana, veio ao Brasil e foi explícita quando disse que era aqui, e na América Latina, que florescia a fonte para as resistências e construções de movimentos internacionais de luta radical contra o autoritarismo. O manifesto da Womens March, tão divulgado e aplaudido pela esquerda brasileira à época, é cristalino sobre como os movimentos feministas e contra o racismo nos países árabes e latinos são as fontes de inspiração para o Norte Global. Ou seja, o Sul Global é o foco e centro da resistência. Se formos para a questão racial, antes mesmo, ativistas contra o encarceramento em massa já apontavam a América latina como espaço importante de “afrontamento”, quando lideranças do Black Lives Matter vieram trocar e aprender estratégias e resistências negras.

Nesse sentido, era de se esperar que uma construção de resistência, o “ninguém solta a mão de ninguém”, se expressasse pela busca de alianças e laços com ativismos negros, feministas, indígenas e de povos originários como o “sul-norte” deste processo, ampliando para palestinos, árabes, africanos, asiáticos que tem enfrentando a Exceção e o Autoritarismo desde que existem. Estes são os povos sobreviventes e que, portanto, têm conhecimentos centrais para o porvir.

Nada contra Bernie Sanders e Yanis Varoufakis. Mas me espanta que, mesmo em uma relação que se coloca a partir dos Estados Unidos, lideranças estadunidenses que rompem com a lógica de um quadro todo branco não tenham sido procuradas. E eu posso apontar algumas, já que o contra-argumento sempre é de que estes nomes são difíceis ou que não teriam impacto e relevância. Começo com os principais nomes da Women’s Wave: Alexandra Ocasio-Cortez, Ilham Omar, Kamala Harris são nomes potentes na construção democrata no período. Aliás, este é um bom case para atenção. Ao invés de se perderem em reflexões que só buscam manter privilégios, os Democratas fizeram uma importante inflexão ao compreender a potência de movimentos como a Women’s March. O resultado está em um Congresso mais diverso da história norte-americana. Mais nomes não faltam, como as lideranças do Black Lives Matter já citado: Patrisse Cullors, Alicia Garza, por exemplo, ou a Professora da Universidade de Princeton, Keeanga-Yamahtta Taylor, uma das articuladoras e assinante do manifesto de convocação da Women’s March.

Mas e do ponto de vista regional? Como se estabelecerá a relação e construção na América Latina? E as lideranças que despontam no cenário africano, continente com diversos regimes autoritários? E a relação com ativistas que denunciam incansavelmente o regime de Duterte nas Filipinas? Não aprofundaremos a aliança com o povo palestino, principalmente em um cenário de aproximação das relações entre Estados brasileiro e israelense, com forte componente na agenda de Segurança Pública e da indústria das armas? A construção de alianças na Europa termina na França? E, mesmo lá, sem nenhuma discussão sobre os mais potentes aliados que são ativistas sobre a questão migratória e da geração de filhos de imigrantes que são europeus e convivem com conflitos raciais todos os dias?

Quando apontamos que a esquerda branca brasileira precisa romper com a Casa Grande, não se trata apenas de uma discussão nacional. A cabeça que mira o Norte Global e ocidental como centro é que precisa ser transformada também no campo progressista. As principais trincheiras de resistência estão no Sul com seus ativismos pulsantes e que desenvolveram tecnologias de resistência e luta que são sim bem sucedidas ou já teriam sido exterminados.

Ao invés da disputa sem sentido sobre quem liderará a oposição e o progressismo, ao invés do deboche, está na hora de termos a responsabilidade histórica que está colocada.

Ao mesmo tempo, cabe aos ativismos a reflexão de que pouco resultado teremos se apenas ficarmos chamando a atenção destes quadros políticos, já que a responsabilidade pela nossa sobrevivência tem se mostrado tão somente nossa. No primeiro momento de discussão sobre atuação como oposições partidárias, algumas mãos já foram soltas. Seguiremos repetindo mantras que não se materializam e depositando esperanças em modus operandi falidos ou construiremos no real nossas redes, com metodologias desbrancalizadas e radicais?

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