Justiça
Delação minguada de Daniel Vorcaro mira cálculo maior
A avaliação corrente entre pessoas próximas ao caso é que a defesa do banqueiro aposta na Segunda Turma do STF como uma espécie de última trincheira
Os advogados de Daniel Vorcaro, ex-CEO do Banco Master, parecem jogar uma partida em dois tabuleiros. De um lado, apresentaram à Procuradoria-Geral da República e à Polícia Federal uma proposta de delação considerada superficial. De outro, nos bastidores, alimentam a expectativa de que uma eventual ação penal no Supremo Tribunal Federal possa terminar em absolvição, sem que o banqueiro precise comprometer figurões da política nacional.
Caso a proposta de colaboração entregue na última quarta-feira 6 não seja aceita, como se prevê, o relator do caso no Supremo, ministro André Mendonça, deverá dar andamento à abertura de uma ação penal. Antes disso, o caso passará pela análise da denúncia, a ser apresentada pela PGR com base no inquérito conduzido pela PF.
A estratégia da defesa estaria ancorada na leitura de que a atual composição da Segunda Turma pode ser favorável ao banqueiro.
O colegiado conta com Gilmar Mendes – que reiterou, em declarações públicas, o entendimento de que vazamentos em massa podem resultar em nulidade processual – e Kassio Nunes Marques, cujo filho teve o escritório contratado por um outro escritório contratado pelo Master para prestar consultoria. Além deles, integram a turma Luiz Fux e o próprio relator, André Mendonça.
Dias Toffoli, embora também faça parte do colegiado, já se declarou suspeito para votar em qualquer tema relacionado ao caso no Supremo.
Conforme apurou CartaCapital, o plano inicial previa apresentar esclarecimentos sobre a relação de Vorcaro com autoridades do alto escalão, entre elas os ministros Alexandre de Moraes e Nunes Marques, do STF, e Jhonatan de Jesus, do Tribunal de Contas da União, além de outras figuras centrais da política brasileira. Ao longo das semanas, porém, a proposta foi sendo ajustada para evitar menções explícitas, movimento que teria causado incômodo na cúpula da Procuradoria-Geral da República e da Polícia Federal.
O cálculo atribuído a pessoas próximas à equipe de defesa é simples: se há chance de absolvição por mérito ou por nulidade processual, não valeria a pena “ficar queimado” com antigos aliados. Sem a confiança de quem circulava em seu entorno, avaliam essas fontes, Vorcaro teria mais dificuldade para tentar se reerguer.
A estratégia é arriscada, já que o resultado esperado não é uma garantia. Além disso, há muitas provas que demonstram a atuação de Vorcaro na liderança de uma organização criminosa que tentava intimidar e ameaçar pessoas que pudessem prejudicar as ações ilícitas promovidas no Master. Entidades de direito público, como a Ordem dos Advogados do Brasil, na análise de juristas ouvidos pela reportagem, estariam dispostas a pressionar o Supremo em caso de um desfecho sem culpados e condenados.
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