Esporte

A inédita camisa preta da seleção – marco contra o racismo?

Jogadores entram em campo no sábado vestindo uma camisa negra, em iniciativa anunciada após ataques racistas a Vini Jr. Para ativistas, futebol é linguagem poderosa para enfrentar o tema, mas governos também devem agir

Foto: Joilson Marconne/CBF
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Nem a tradicional amarelinha, nem a camisa azul. Neste sábado, a seleção brasileira de futebol entrará em campo usando uma camisa preta – um gesto inédito na história da equipe, que disputou sua primeira partida em 1914.

As camisas pretas serão vestidas no primeiro tempo de um amistoso contra a Guiné, em Barcelona, e pretende enviar uma mensagem simbólica de combate ao racismo. É também uma ressignificação do potencial político da camisa da seleção, nos últimos anos simbolicamente apropriada por movimentos de extrema-direita e pelo ex-presidente Jair Bolsonaro (PL).

A decisão de usar as camisas pretas foi anunciada após o brasileiro Vini Jr. ter sofrido, em maio, ataques racistas em uma partida da liga espanhola, onde joga pelo Real Madrid. O episódio teve repercussão internacional, forçou a federação espanhola a admitir o problema e levou o governo brasileiro a se manifestar.

O professor e músico Allan de Souza, que assessora o Instituto Vini Jr. no tema de educação antirracista, disse ter ficado “consternado” ao ver as fotos dos ataques na Espanha. A entidade foi criada pelo jogador e apoia escolas públicas no desenvolvimento de novos modelos de ensino e aprendizagem.

Assim como muitos outros negros, Souza, também conhecido como Pevirguladez, teve ver Vini Jr. ser insultado por quase todo um estádio na Espanha, o que comoveu também o Brasil – onde Vini Jr. é visto por muitos “como um deles”, um jovem que saiu de uma favela pelo seu talento e qualidade. Alguém com quem muitos podem se identificar. É por isso que o tema desencadeou uma ampla discussão na comunidade negra brasileira, diz Pevirguladez à DW.

“Uma forma de violência”

“O futebol é uma das principais formas de linguagem no mundo”, diz Bruno Candido Sankofá, advogado e ativista do movimento negro no Rio de Janeiro. Ele apoia vítimas de violência racista ou discriminação, e estava entre os que organizaram um ato de solidariedade a Vini Jr.

Não se tratam apenas de insultos racistas, diz Sankofá. É uma forma de violência que “deixa lesões de difícil reparação, isso quando não causa anomalias nas vítimas, faz com que elas desistam das próprias vidas.” E Vini Jr., diz, representa um grupo de pessoas que são constantemente expostas à violência e ao racismo estrutural, e às vezes são mortos por isso.

Para Sankofá, a decisão da seleção de jogar com a camisa preta é um primeiro passo importante: “Quando falo de prevenção, falo de um país que não conseguiu ainda distribuir direito material para esse povo que ficou em desvantagem histórica, política, econômica e material. E a gente começa a dizer, a partir da principal linguagem que é o futebol e da nossa seleção, que é uma questão importante que deve ser resolvida.”

Plano antirracista do governo

Para ele, isso poderia se tornar um marco – mas, ao mesmo tempo, é apenas o primeiro passo. A CBF deveria envolver a sociedade civil no debate sobre o combate ao racismo no esporte, afirma. “É por isso que a atitude da seleção nacional é muito importante. Porque ela vai conseguir falar, através do futebol, aquilo que as palavras ainda não conseguiram alcançar”, afirma.

A ministra da Igualdade Racial, Anielle Franco, anunciou recentemente um acordo com a Espanha para combater o racismo, sobretudo em atividades esportivas. “Temos acompanhado firmemente o que tem acontecido no caso do Vini Jr., que não foi só esse ano, mas são casos recorrentes “, disse a ministra à DW.

A ação da CBF foi bem-vinda, afirmou ela. “Mas a gente precisa também de políticas públicas eficazes”, diz. Por isso, sua pasta e a articulação nacional e internacional contra o racismo são um passo importante.

Pevirguladez também aponta que a União das Associações Europeias de Futebol (Uefa) também é responsável e deve agir. A liga espanhola não pode ser a única responsável, diz, porque esse é um problema em todo o futebol europeu. “A UEFA tem que sentar tomar as medidas necessárias, parecidas com que o governo brasileiro vem fazendo na situação do Rio de janeiro, a fim de punir os clubes, punir os torcedores”, diz.

No início do mês, a Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro aprovou um projeto de lei, apelidado de Lei Vini Jr., que aguarda sanção do governador Cláudio Castro, que estabelece protocolos para combater o racismo nos estádios. Uma dessas medidas é a interrupção ou o cancelamento de partidas quando houve denúncia ou manifestação racista – mais um passo na luta contra o complexo problema do racismo

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