Entrevistas

Provocar o riso com humor opressor é perverso e medíocre, diz Tia Má

Jornalista e influenciadora comenta em entrevista a CartaCapital a nova lei que agrava o crime de injúria racial

Maíra Azevedo, a Tia Má, une o humor à reflexão social no teatro, na televisão e na internet. Foto: João Lins
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O humor é um instrumento de trabalho usual da jornalista e criadora de conteúdo Maíra Azevedo, mais conhecida como Tia Má, que já comandou um stand up comedy no teatro, produz vídeos cômicos nas redes sociais e acaba de fazer uma participação em uma esquete do canal Porta dos Fundos.

No entanto, em um ambiente em que diversos humoristas já tiveram o preconceito como matéria-prima de piadas, Tia Má se compromete em usar a comédia para provocar a reflexão e combater diferentes tipos de opressão, como o racismo, o machismo e a LGBTfobia. Mulher, negra e baiana, a influenciadora ganhou notoriedade ao levar a sua voz antirracista para as discussões matinais do programa Encontro com Fátima Bernardes, na TV Globo.

Em entrevista a CartaCapital, Tia Má, que completará 42 anos em 25 de janeiro, celebrou a lei sancionada pelo presidente Lula (PT) que agrava a pena para a injúria racial. É o chamado “racismo recreativo”, termo trabalhado em um livro do professor de Direito Adilson Moreira, em que apontou a dificuldade de provar a prática de crime quando o racismo aparece em forma de piada.

“Quem precisa do humor opressor é gente cruel, perversa, que não tem capacidade intelectual para fazer outra coisa. Rir de quem já é ridicularizado é coisa de gente mesquinha. Tem que ser muito mais inteligente para provocar o riso através da reflexão”, avaliou ela, durante transmissão ao vivo no Instagram de CartaCapital.

Tia Má diz ainda que foi “adoecida” ao ouvir constantemente ofensas racistas ao seu corpo, como a de ter o “cabelo duro”. Em menção à nova norma, assinada por Lula durante cerimônia do Ministério de Igualdade Racial, a influenciadora afirmou que tem observado pessoas incomodadas com a aprovação da lei, porque entendem ter o direito de praticar opressão em forma de piadas.

“Eu não consigo rir de piada machista, racista, homofóbica, capacitista. Eu não consigo rir daquilo que causa dor em alguém”, contou ela. “Se eu imagino que uma piada pode provocar a morte de alguém, isso não pode ser engraçado. Tem que ser muito medíocre para estar lutando pelo direito de ser racista.”

Durante a entrevista, Tia Má também contou sobre como o racismo contribuiu para que se sentisse tímida na infância. Ao longo de sua trajetória, foi preciso desafiar os seus receios para que seguisse com o sonho de ser jornalista. Para ela, estar à disposição para a sua luta lhe ajudou a superar o retraimento.

Segundo ela, foi o ator e amigo Lázaro Ramos que surgiu como um dos primeiros incentivos para a sua chegada aos palcos. Em uma conversa, o artista teria dado risada quando ela lhe contou uma história de quando era criança. Ele, então, teria dito que o relato deveria ser compartilhado com uma plateia.

“Na minha cabeça, eu estava apenas desabafando. Lázaro começou a rir e disse: ‘Maroca, essa história é maravilhosa, ela precisa ir para os palcos'”, disse Tia Má, que se apresentou pela primeira vez em 2006.

Confira a íntegra da entrevista no Instagram:

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