Entrevistas

‘Os europeus temem a superioridade militar dos russos e uma crise energética’

Para o professor José Luís Fiori, reação das potências ocidentais à invasão da Ucrânia não irá além das sanções econômicas

(FOTO: Pedro Garrido)
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É possível saber como uma guerra começa, mas não como ela termina. A despeito do velho adágio popular, José Luís Fiori, professor de Economia Política Internacional da UFRJ e autor do livro A síndrome de Babel e a disputa do poder global (Editora Vozes), não acredita que as potências ocidentais irão além da imposição de sanções econômicas à Rússia. 

Os europeus temem a superioridade militar das tropas de Putin e a interrupção no fornecimento do gás russo, o que poderia provocar racionamento de energia e levar à perda de competitividade de suas empresas, avalia o especialista. Os EUA, por sua vez, “saíram muito divididos e fragilizados de sua recente humilhação militar no Afeganistão”. 

Fiori evita fazer afirmações categóricas sobre o declínio do poder ocidental, mas observa: “A declaração conjunta da Rússia e da China, em 7 de fevereiro passado, anuncia o fim do poder e da ética mundial unipolar imposta pelo ocidente nos últimos 300 anos”.

Confira, a seguir, a íntegra da entrevista.

CartaCapital: O senhor acredita que a invasão da Ucrânia pode, de fato, descambar para uma guerra de maiores proporções?

José Luís Fiori: Depois que uma guerra começa é difícil prever até onde irá e quando terminará, a menos que exista um perdedor claro. Neste caso, dependerá muito do objetivo imediato e da velocidade da operação militar russa. No momento, parece pouco provável um conflito envolvendo as grandes potências, uma espécie de Terceira Guerra Mundial. Os países europeus e a própria Otan não têm capacidade militar suficiente para enfrentar a Rússia neste momento, e os EUA saíram muito divididos e   fragilizados de sua recente humilhação militar no Afeganistão e com os resultados políticos das suas intervenções para mudar os governos ou regimes da Líbia, do Iraque, da Síria e do Iêmen. Sem falar da insuficiência de suas sanções econômicas contra o Irã, a China e a própria Rússia.

CC: O que Putin pretende exatamente? O problema central é a expansão da Otan ou também existe uma ambição expansionista?

JLF: A história da Rússia começa em Kiev por volta de 800 d.C. e nestes longos séculos o território atual da Ucrânia pertenceu à Rússia, depois à Polônia, à Lituânia, à Áustria e, finalmente, de novo à Rússia e à União Soviética no século XX. Na verdade, a Ucrânia só se transforma numa república por obra da Revolução Bolchevique de 1917 e vira um Estado nacional autônomo em 1991, como parte da “punição” imposta à Rússia após a derrota soviética na Guerra Fria. Neste momento, os russos estão questionam a expansão da Otan sobre a Ucrânia, e desejam modificar os termos deste “acordo de paz” que lhe foi imposto na década de 1990. 

Deste ponto de vista, da história de larga duração dos povos, se poderia até dizer que o território ucraniano tem uma relação mais longa e mais estreita com a Rússia de Ivan III e IV, e com o Império dos Romanov, do que a relação de Taiwan com a China continental, que só se estreitou depois do Século XVII. Mesmo assim, não creio que o objetivo atual da Rússia seja o de anexar a Ucrânia, muito menos expandir-se para além do seu território atual. Não há dúvida, porém, que a Rússia busca pela via das armas o que tentou pela via diplomática: neutralizar militarmente a Ucrânia, e rever parte de suas perdas impostas pela sua derrota do final do século passado. 

CC: O que esperar da China em meio a este conflito? Quais pistas podem ser extraídas da “Carta aos povos do mundo”, divulgada no início de fevereiro pelos governos de Moscou e Pequim?

JLF: Creio que a China manterá sua defesa da paz e da soberania dos estados nacionais, mas ao mesmo tempo prestará sua solidariedade e apoio à reivindicação russa de segurança de sua fronteira ocidental e de suspensão do expansionismo bélico e catequético dos EUA e da Otan, que é, na verdade, um braço armado norte-americano. 

CC: Enquanto Biden encampa um discurso agressivo contra a Rússia, as potências europeias – à exceção do Reino Unido, um tanto submisso aos desígnios de Washington – demonstram certa cautela em relação ao conflito na Ucrânia. Qual é o principal temor dos europeus?

JLF: Em primeiro lugar, os europeus temem a superioridade militar dos russos com relação a todos seus exércitos nacionais. De um ponto de vista estritamente realista, os europeus sabem que são hoje um protetorado atômico dos Estados Unidos. A Alemanha, por sinal, ainda está ocupada por tropas e armamentos americanos. 

Em segundo lugar, os europeus têm uma dependência energética muito grande do petróleo e do gás russos, mais de 40% do gás consumido pelos europeus vem da Rússia. Apesar das declarações rimbombantes de alguns líderes europeus, em particular os alemães, a Europa não tem como substituir a energia russa no curto nem no médio prazo. Se forem obrigados pelos norte-americanos a cortar seus “laços energéticos” com a Rússia, terão que enfrentar de imediato racionamento, inflação, perda de competitividade e, muito provavelmente, revoltas sociais de uma população que já foi atingida pesadamente pelos efeitos da pandemia do coronavírus.   

CC: Estamos assistindo ao declínio do poder ocidental? As sanções e ameaças feitas pelos EUA e pelas nações europeias têm sido solenemente ignoradas pelo governo russo, enquanto os chineses observam tudo à distância…

JLF: O historiador e filósofo alemão, Oswald Spengler (1880-1936) anunciou o “declínio do Ocidente” logo depois do fim da Primeira Guerra Mundial, e vários outros autores bateram nesta mesma tecla através do século XX, incluindo os autores que discutiram a “crise da hegemonia americana’ nas décadas de 1970 e 1980 do século passado. Repito, aqui, o que disse em outra entrevista na semana passada. Estes processos históricos são lentos e passam por caminhos muito sinuosos. Às vezes avançam, às vezes recuam. Houve uma aceleração do tempo histórico nas duas últimas décadas, sobretudo no momento em que a Rússia voltou à condição de segunda maior potência militar do mundo, enquanto a China decidiu acelerar a modernização de sua Marinha e de sua capacidade balística, além de começar o seu grande projeto de construção e incorporação de mais de 60 países ao redor do mundo, com o seu Belt and Road.

Na verdade, se você quiser simplificar este processo mais recente, poderíamos dizer que a grande inflexão aconteceu no momento em que a Rússia interveio na Guerra da Geórgia, em 2008, dizendo um “basta” à expansão da Otan, e depois interveio na Guerra da Síria, em 2015, por sua própria conta e obedecendo seu próprio comando. Com pleno sucesso militar, vale ressaltar, deixando claro que existia no mundo uma potência com capacidade de arbitrar, sancionar e punir por sua própria conta, mesmo que fosse em nome de valores e objetivos buscados também pelas “potencias ocidentais’, como era derrotar o chamado Estado Islâmico.

Mas não há dúvida que esta inflexão acelerou ainda mais no momento em que a China de Xi Jinping colocou sobre a mesa seus objetivos estratégicos para as próximos décadas, e ao mesmo tempo chamou o Ocidente a respeitar o fato de que, agora, existem múltiplas culturas e civilizações dentro do mesmo sistema interestatal em que todos estão. A declaração conjunta da Rússia e da China, em 7 de fevereiro passado, consagra esta convergência e anuncia o fim do poder e da ética mundial unipolar imposta pelo ocidente nos últimos 300 anos.  Assim mesmo, uma coisa que chama a atenção nesta “Carta aos Povos do Mundo” da Rússia e da China, é a sua defesa do que eles chamam de valores da liberdade, da igualdade, da paz e da democracia, respeitando-se a visão de cada povo com relação a cada uma destes “valores” que eles também chamam de “universais”.

Rodrigo Martins

Rodrigo Martins
Editor de CartaCapital

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