Entrevistas

Com Milei, Mercosul pode travar e Lula teria ainda mais relevância, diz pesquisadora argentina

Gisela Pereyra Doval, pesquisadora do CONICET, detalha a CartaCapital os impactos regionais da eleição na Argentina

Eleições na Agrentina: Javier Milei, representante da extrema-direita; Sergio Massa, peronista; e Patricia Bullrich, da direita macrista. Fotos: AFP
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A definição sobre quem será o próximo presidente argentino tende a repercutir além das fronteiras do país. Terceira maior economia da América Latina – atrás apenas do Brasil e do México -, a Argentina está integrada a outras nações da região por suas relações bilaterais, seus laços culturais e sua presença em blocos como o Mercosul.

Nesse cenário, países como o Brasil acompanham com atenção os rumos da eleição argentina, cujo primeiro turno acontece no próximo domingo 22. Os três principais candidatos a ocupar a Casa Rosada a partir de dezembro já apresentaram, ao longo da campanha, os seus postulantes a chanceler.

Do lado de Javier Milei, o líder da maioria das pesquisas de intenção de voto, a chefe da diplomacia seria Diana Mondino. Já Sergio Massa, atual ministro da Economia e representante do peronismo, escolheria Gustavo Martínez Pandiani. Patricia Bullrich, apoiada pelo ex-presidente neoliberal Mauricio Macri, optaria por Federico Pinedo.

Para compreender as diferenças de abordagem de cada um dos principais candidatos sobre a política externa da Argentina, CartaCapital conversou com a pesquisadora argentina Gisela Pereyra Doval. Doutora em Relações Internacionais pela Universidad Nacional de Rosario, ela é integrante do Consejo Nacional de Investigaciones Científicas y Técnicas. O CONICET, fundado em 1958, é a principal instância dedicada à promoção científica na Argentina.

Para a pesquisadora, os três candidatos possuem visões significativamente distintas, por exemplo, sobre a participação da Argentina no Mercosul. Além disso, uma eventual vitória de Milei poderia representar um sopro para a direita brasileira. 

Confira os destaques da entrevista:

CartaCapital: Como os principais candidatos à Presidência tratam o Mercosul e qual deve ser o impacto do resultado da eleição sobre o bloco?

Gisela Pereyra Doval: Os três principais candidatos e suas equipes enxergam a questão de maneira muito distinta. Caso seja Massa o próximo presidente, o poder de negociação do Mercosul poderá ser fortalecido, especialmente em termos de negociação comercial. Deve-se destacar que a equipe de Massa é a única que aborda especificamente a aliança estratégica com o Brasil.

Não se deve esquecer que Massa, ainda que esteja no Partido Justicialista, tem uma marca neoliberal. Ele trabalhou na OCDE, ou seja, não é um peronista de esquerda clássico.

Bullrich, por sua vez, parece encarar o Mercosul de uma forma apenas comercial. Não há muito interesse no aspecto político do Mercosul.  

Já Milei parece ter uma ideia equivocada sobre o que vem a ser a própria política externa. De partida, o seu plano defende que as relações comerciais sejam feitas sem o acompanhamento do Estado. É um erro conceitual. Do ponto de vista do Mercosul – isso, inclusive, é destacado por Lula -, há inconvenientes importantes, que dizem respeito às condições impostas pela União Europeia.

A pesquisadora Gisela Pereyra Doval. Foto: Arquivo Pessoal

CC: Como a eleição pode afetar as negociações do acordo Mercosul-União Europeia?

GPD: Em caso de vitória de Milei, o Mercosul pode ter problemas na negociação do acordo. Há poucos anos, a UE disse muito claramente que não seguiria negociando um acordo com alguém que negava as crises climáticas [em referência ao ex-presidente Jair Bolsonaro]. Se a Argentina elege alguém que publicamente nega os motivos que levam o mundo à crise ambiental, isso pode ser um problema.

Em última instância, o Mercosul pode travar pelos próximos quatro anos. Essa seria uma situação-limite, apesar de que não se vê um cenário em que a Argentina saia do Mercosul. Parece-me que o Mercosul pode ser um bloco muito importante, com força política e de negociação, mas, se Milei for eleito, o grupo perderia relevância. Com menos intensidade, algo poderia acontecer em caso de vitória de Bullrich.

Agora, diante disso, não é de se descartar a hipótese de que esse quadro amplie a relevância de Lula com sua marca internacional. Menos o Mercosul como bloco, digamos, e mais Lula como liderança.

CC: Até que ponto uma eventual vitória de Milei enfraqueceria as relações com o Brasil?

GPD: A Argentina é muito mais dependente do Brasil do que o Brasil é da Argentina. Nesse sentido, Bolsonaro poderia ter sido muito mais perigoso para o vínculo bilateral e para os vínculos multilaterais dentro do Mercosul, por exemplo, do que Milei poderá ser, caso seja eleito presidente. A Argentina não está em uma posição forte o suficiente, neste momento, para encerrar as relações. 

Agora, o vínculo bilateral com o Brasil poderá ficar em segundo ou terceiro plano, o que, no meu entendimento, seria um erro. Milei não parece que está pensando nos vínculos multilaterais. No seu discurso, ele diz: ‘O Brasil é comunista, a China é comunista, só vamos ter relações com Estados Unidos e Israel’. É preciso lembrar que os EUA, por exemplo, são uma economia competitiva por si só.

CC: Milei e Bolsonaro compartilham ideias, mas parecem diferentes em termos de proposta econômica. É possível comparar os apoiadores dos dois? 

GPD: A direita brasileira é muito diferente da direita argentina. Superficialmente, soam parecidas, mas, se buscamos as raízes, percebemos as diferenças. No Brasil, as Forças Armadas têm muito mais peso. Essa é uma diferença importante. A participação recente das Forças Armadas no desenvolvimento da direita brasileira é muito mais contundente do que na evolução da direita argentina.

Desde o fim da ditadura militar na Argentina, as direitas locais evoluíram sem o apoio dos militares. Apesar de tudo, a Argentina ainda pode ter certa tranquilidade em caso de uma rota autoritária de Milei. Pode-se perguntar: ‘sim, mas com quem? Quem daria apoio a Milei em um golpe, se não há forças?’. Ele não teria condições.

Ainda em comparação, a direita brasileira é mais tradicional do que a da Argentina. Até mesmo mais orgânica, apesar da fragmentação partidária que existe no Brasil. E, evidentemente, há diferenças dentro da própria direita brasileira: existe uma ala mais ligada aos antigos partidos de direita, a exemplo do que foi [o ex-presidente Michel] Temer. Pelo menos no discurso, essa direita é mais respeitosa em relação às instituições. Tanto que, diante do risco de ruptura promovido por Bolsonaro, parte dessa direita se alinha ao Partido dos Trabalhadores para eleger Lula.

CC: E as semelhanças?

GPD: A direita radical brasileira se parece com a de Milei na virulência, nas formas, na estética e na anti-institucionalidade. Compartilham discursos e ideias, mas um ponto precisa ser ressaltado: a direita radical brasileira é muito mais apegada ao tema da segurança do que a direita radical argentina. Isso está presente no discurso de Milei, mas não tão forte como era nas falas e nas ações de Bolsonaro.

Não acho, por exemplo, que a prevalência de Milei no debate público argentino seja capaz de, por ora, criar um movimento orgânico de direita radical no país. Junto a ele está todo tipo de gente, inclusive com ideias contraditórias.

Exemplo: militam pela dolarização, mas, se você pergunta a eles o que isso significa, vão dizer ‘eu apoio a ideia porque quero ganhar meu salário em dólares’. Parecem saber muito pouco sobre o que estão pedindo. O apoio a Milei me parece que acontece mais pelo fato de ele ser uma novidade, de ele ser diferente. Por ser, enfim, disruptivo.

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