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No debate argentino, Milei nega aquecimento global e Massa se defende da crise; veja os destaques

Debate na Faculdade de Direito da UBA mostrou intensidade dos presidenciáveis; libertário diz que não vai cumprir agenda 2030, assinada pelo país

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BUENOS AIRES – Embates diretos, acusações mútuas deram o tom do segundo debate entre os cinco candidatos à presidência da Argentina. Faltaram, contudo, propostas concretas. Ainda assim, o que se viu no último domingo 8 na Faculdade de Direito da Universidade de Buenos Aires, na capital portenha, foi um debate mais intenso do que aquele que aconteceu no domingo anterior, em Santiago Del Estero. 

Tema a tema, Javier Milei, Sergio Massa, Patricia Bullrich, Juan Schiaretti e Myriam Bregman confrontaram suas ideias sobre o futuro da Argentina, país que experimenta altos índices de inflação e uma desvalorização aguda do peso. Em contraposição às acusações, a maior parte dos presidenciáveis optou por uma postura defensiva. 

No geral, o debate de ontem teve um Javier Milei mais truncado na exposição de teorias econômicas. Algo desafiador para explicar como conceitos de liberais clássicos podem  ser aplicados na realidade da população argentina. Massa, por sua vez, fez mais alusões ao que deseja fazer como eventual presidente do que ao que fez enquanto ministro da Economia do governo Alberto Fernández. Patricia Bullrich foi mais combativa do que no debate anterior, o que a fez protagonizar, neste, os momentos de maior tensão contra Milei.

O debate também contou com duas expectativas não cumpridas. A primeira delas foi criada pela própria imprensa argentina, que especulava, antes do evento, que Sergio Massa poderia anunciar em rede nacional o nome do seu próximo ministro da Economia. O anúncio, porém, não aconteceu. 

A segunda se deu pela falta de propostas sobre política externa, já que o tema não foi sorteado para o debate de ontem. Ainda assim, os cinco candidatos começaram os seus discursos prestando solidariedade às vítimas do conflito entre Israel e o grupo Hamas, deflagrado no último sábado 7, embora somente Myriam Bregman tenha destacado que, no seu modo de entender, as vítimas resultam de um conflito “que tem como base a política de Israel de ocupação da Palestina”.

Cada presidenciável pôde usar o direito de resposta em cinco oportunidades. Quase todos escolheram exercer o direito logo na primeira parte do debate, o que mostrou o impulso combativo já no início das discussões.

Segurança: imposição de Bullrich e crítica à plataforma de Milei

Os candidatos começaram discutindo o tema Segurança. Como era esperado, a primeira parte do debate foi protagonizada pela macrista Patricia Bullrich, por dois motivos específicos: Bullrich já foi ministra da Segurança na Argentina, durante o governo Mauricio Macri, e ela própria demonstrava, antes do debate, a necessidade de mostrar um bom desempenho de início, uma vez que foi questionada pela performance pouco convincente no debate do dia 01 de outubro.

Bullrich, que defende a redução da maioridade penal para 14 anos na Argentina, criticou Milei pelo fato do libertário defender uma maior flexibilização para o porte de armas no país. A ex-ministra disse que Milei ‘mente’ sobre a sua verdadeira proposta. “Ele quer liberar as armas e isso cai nas mãos dos criminosos”, apontou. 

Sobretudo pelo fato de Bullrich já ter sido chefe da pasta que trata do tema, a candidata não escapou, também, de críticas dos demais presidenciáveis. Bregman acusou Bullrich de ter “fracassado como ministra”. “Estamos em uma eleição onde se elege presidente, não chefe do serviço penitenciário”, disse a candidata de esquerda.

Do ponto de vista propositivo, Massa disse que, caso eleito, irá conduzir a área de segurança por meio de três eixos. O primeiro deverá ser por meio da prevenção. O segundo passará pela criação de uma agência federal com as quatro forças federais, uma espécie de “FBI [a agência norte-americana] instalado no centro de Córdoba”. Em terceiro lugar, o ministro do governo Alberto Fernández indicou que o Judiciário também deve ser responsabilizado a prestar contas à sociedade.

Trabalho e renda

Apesar do grau da crise econômica, a Argentina não enfrenta exatamente um problema de desemprego massivo. No segundo semestre deste ano, por exemplo, o desemprego no país ficou em 6,2%. O problema se revela quando dados mais detalhados sobre os empregos são revelados: a precarização e a informalidade no país aumentaram, bem como os baixos salários que não cobrem os efeitos corrosivos da inflação.

Seria inevitável, portanto, que Sergio Massa fosse o principal alvo no tema “Trabalho e Produção”, e foi o que aconteceu. O candidato do oficialismo começou dizendo que o eixo central do seu eventual governo será a melhoria dos ingressos e a redução dos impostos a quem recebe menos. Ele se defendeu das críticas sobre a crise econômica, dizendo que o governo Maurício Macri levou à “pior dívida da História”, “se esquecendo que a Argentina está passando pela pior seca da História”. 

Apegando-se ao seu projeto de liberalização do país, Javier Milei dedicou o seu tempo a defender melhores condições para a produtividade na esfera laboral da Argentina. Nesse ponto, o libertário recebeu críticas por ter dedicado o tempo que lhe cabia a expor teses econômicas, sem explicar como as suas ideias poderiam ser colocadas em prática no país. Destaque, também, para o fato de que Massa acusou Milei de ter ideias “cem anos atrasadas” sobre o tema.

“A única forma de progredir é através do crescimento económico. Ninguém vai investir dinheiro se não puder ganhar dinheiro e os direitos de propriedade devem ser respeitados. A única coisa que a casta [a expressão usada por Milei para definir a elite política do país ] faz é consumir capital com o seu modelo de gastos”, disse Milei.

No tema, todos os candidatos de oposição teceram críticas às condições socioeconômicas atuais da Argentina, fazendo referência à histórica de 2001.

Meio ambiente: a face negacionista de Milei

Poucas são as dúvidas sobre a negação explícita de Javier Milei ao aquecimento global. Foi nesse ponto do debate que o libertário – que já expôs a sua admiração por Donald Trump e Jair Bolsonaro – deixou explícita a ideia de que o aquecimento global deve ser relativizado. Milei disse que, caso seja eleito, não vai aderir à Agenda 2030 (que foi aprovada em 2015 e traça objetivos sustentáveis para frear a crise climática no mundo).

“Nós não vamos aderir à agenda 2030. Nós não aderimos ao marxismo cultural. Nós não aderimos à decadência”, disse Milei, quando questionado sobre o tema. A Argentina, aliás, assinou o compromisso em 2015. Milei alegou ser o único candidato “que apresentou uma agenda energética com todas as restrições aplicáveis na Europa, superando as metas”. 

Como dito, apesar da política internacional não ter estado na pauta do debate de ontem, a fala de Milei pode ser um indicativo sobre como a Argentina deverá se portar frente ao mundo no âmbito dos debates sobre a crise climática, caso o ultraliberal seja eleito.

Sem apresentar dados, Milei negou o aquecimento global com base em uma teoria sobre o “comportamento cíclico de temperaturas”. “O que digo é que existe na história da Terra um comportamento cíclico de temperaturas […] Portanto, todas essas políticas que culpam os seres humanos pela mudança climática são falsas, e só servem para arrecadar fundos para financiar socialistas preguiçosos que escrevem documentos de quinta categoria”, afirmou.

Milei foi lembrado sobre as suas falas a respeito da possibilidade de venda de órgãos na Argentina. Ele negou que defenda esse tipo de comércio, mas destacou o que entende como uma distorção do sistema. “O que estamos dizendo é que existem sete mil pessoas aguardando por um transplante e trezentos mil potenciais doadores. E que algo não está funcionando no meio disso”, afirmou.

O debate terminou com os candidatos fazendo os habituais pedidos de votos aos eleitores. Massa, no seu último minuto, destacou que aquele seria um dos momentos mais importantes da sua vida, comparando com à importância que, segundo ele, os argentinos terão na hora de votar. Segundo as pesquisas mais recentes, ele e Milei deverão se enfrentar no segundo turno.

O libertário, por seu turno, ironizou as discussões da noite de ontem. “Este debate acaba sendo uma pantomima irritante”, alegou. Ele terminou dizendo que “uma Argentina diferente não é possível com as mesmas pessoas de sempre”.

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