Entrevistas
Aposta na diversidade
Simone Tebet defende criação de mandatos no Supremo, idade mínima de 50 anos e a indicação de uma mulher negra para a Corte
Após a rejeição de Jorge Messias pelo Senado, o nome Simone Tebet voltou a circular na banca de apostas como uma alternativa para ocupar a vaga aberta no Supremo Tribunal Federal. A ex-ministra do Planejamento afirma que Lula não discutiu essa possibilidade com ela, mas defende que o presidente faça uma nova indicação o quanto antes, desta vez de uma mulher. “Se for negra, será histórico. Dificilmente o Congresso rejeitaria ou empurraria esse processo para depois das eleições”, avalia. Nesta entrevista, ela propõe a criação de mandatos para juízes do STF, defende o fim das emendas impositivas e do orçamento secreto, comenta seu papel nas eleições de São Paulo – o maior colégio eleitoral do País – e descarta, ao menos por ora, a criação de uma estatal para controlar a extração e o processamento de minerais estratégicos. “Se ficarmos discutindo a criação da Terrabras, que precisa de aprovação do Congresso Nacional, vamos perder o ano e desperdiçar a oportunidade de regulamentar a exploração de terras-raras.” A íntegra, em vídeo, está disponível no canal de CartaCapital no YouTube.
CartaCapital: Lula deveria insistir no nome de Jorge Messias ou indicar outro nome para a vaga no STF? A senhora acha que a indicação deve ser imediata ou é melhor esperar?
Simone Tebet: É direito do presidente da República indicar um ministro do Supremo Tribunal Federal. Basta que o escolhido tenha reputação ilibada e notório saber jurídico, algo inquestionável no caso de Messias. Também é direito do Congresso Nacional, após sabatina, avaliar esse perfil e, eventualmente, rejeitá-lo. O problema é que a rejeição não ocorreu por motivos republicanos, ao contrário. Houve um conchavo de parlamentares preocupados com investigações de escândalos, entre eles o caso do Banco Master. Muitos agiram por instinto de autoproteção. A palavra, na política, é essencial. Sem isso, não avançamos. Havia expectativa de 44 ou 45 votos pela aprovação, mas houve traições de toda sorte. Não vejo outra alternativa senão o presidente fazer uma nova indicação. Defendo que, desta vez, seja apresentado o nome de uma mulher. Se for negra, será histórico. Dificilmente o Congresso rejeitaria ou empurraria esse processo para depois das eleições.
CC: Seu nome tem sido lembrado para a vaga aberta no STF. O presidente Lula alguma vez conversou com a senhora a respeito dessa possibilidade? Se ele a convidasse, a senhora aceitaria?
ST: Ele não conversou comigo a respeito. Temos uma missão importante a cumprir na eleição de 2026, com a formação de uma frente ampla em São Paulo, o maior colégio eleitoral do País, com quase um quarto dos eleitores brasileiros. Lula, com o vice Geraldo Alckmin, está construindo um time de gigantes, com Fernando Haddad, Marina Silva, Márcio França e o próprio Alckmin. Entendo meu papel nesse processo. Por isso aceitei vir para ampliar esse espectro, dialogar com mulheres, com a classe média, com o agronegócio e com o interior, que é mais conservador.
“É uma forma de equilibrar forças e resgatar a credibilidade do STF”, avalia a ex-ministra
CC: O que a senhora acha da proposta de estabelecer um mandato para juízes do STF?
ST: A autocontenção deveria partir do próprio Judiciário, mas o Supremo parece ter dificuldade de enxergar isso. Já defendi que, para evitar qualquer tipo de abuso, deveríamos adotar mandato fixo, além de estabelecer uma idade mínima de 50 anos para novos integrantes. É uma forma de equilibrar forças e resgatar a credibilidade do STF, para que conserve legitimidade ao tomar decisões em favor do povo e do País.
CC: O governo pretende recorrer ao STF no caso do PL da Dosimetria. O que a senhora acha?
ST: A dosimetria é uma pauta que não interessa ao Brasil. Precisamos virar essa página, olhar para a frente. Esse PL foi mal elaborado, mal relatado. Permitia, inclusive, a redução de penas para crimes hediondos. Abriu-se um precedente gravíssimo em relação a vetos. A Constituição é clara: ou rejeita integralmente ou mantém a decisão do presidente Lula (o senador Davi Alcolumbre, no comando do Congresso, fatiou a votação para excluir trechos que beneficiariam criminosos comuns na progressão de pena). Não sei qual vai ser a posição do STF, mas, por ele estar fragilizado, temo que deixe passar, o que é muito grave. Quando a extrema-direita tentou aprovar a anistia e viu que não tinha apelo social, vieram com esse PL da Dosimetria. Agora que aprovaram, não tenho dúvida de que o primeiro ato da próxima legislatura será uma tentativa de anistiar Jair Bolsonaro.
CC: Não é necessário acabar com as emendas impositivas e o orçamento secreto para o Brasil recuperar a governabilidade?
ST: Sem dúvida. A reforma do Judiciário é filha de uma mãe maior, que é a reforma política. Está na hora de discutir, por exemplo, o fim da reeleição a partir de 2030, com mandato de cinco anos. O orçamento secreto é absolutamente inconstitucional, imoral e permite toda sorte de desvios. Mais que isso, há muito dinheiro nas mãos do Congresso, o que impede qualquer governante de fazer política pública e construir este país na velocidade de que precisamos. Hoje, de tudo o que sobra do orçamento depois de se pagar a folha, os aposentados e de garantir o porcentual mínimo de saúde e educação, quase 40% está nas mãos do Congresso. O Legislativo distribui esses recursos sem planejamento estratégico, sem saber se há sobreposição, se o recurso alocado é realmente aquilo que interessa ao município.
“Discutir a criação de uma estatal em ano eleitoral é nocivo para campanha de Lula”, avalia Tebet. “Se insistirmos na Terrabras, podemos perder a oportunidade de regular a exploração de terras- raras” – Imagem: Pablo Porciúncula/AFP e Redes Sociais/Mineração Serra Verde
CC: Lula III tem bons resultados econômicos a apresentar: desemprego na mínima histórica, inflação sob controle e aumento da renda do trabalhador. O que explica, então, a baixa aprovação do governo?
ST: A eleição de 2022, lamentavelmente, ainda não acabou. Não é fácil governar sem maioria no Congresso e com uma sociedade dividida. Mas é preciso fazer mea-culpa: a gente achou que trabalhar duro seria suficiente. Os números estão aí, ganhamos na comparação em relação ao governo passado em todos os indicadores. Trabalhamos demais, mas não nos comunicamos como deveríamos. Fizemos muito pela classe média, mas não conseguimos dialogar com ela. É preciso entender quem é o novo trabalhador autônomo, o que se passa na cabeça da juventude. A polarização continuou após as eleições e não conseguimos mostrar o quão eficiente vem sendo o governo Lula III. O processo eleitoral vai servir para revelar isso. O jogo está começando agora. Nós temos entregas para mostrar, e eles não têm. Temos números recordes na economia, que melhoram a vida das pessoas, enquanto eles tinham milhares na fila do osso, sem condições de comprar um ovo.
CC: Qual o maior desafio econômico em um eventual quarto mandato do presidente Lula?
ST: Sem dúvida, é o endividamento das famílias, que o programa Desenrola 2 vai começar a resolver agora. Com a inflação sob controle, o aumento real do salário mínimo e a elevação da renda do trabalhador, por que os brasileiros estão endividados? Não é porque a renda diminuiu, isso é efeito da propaganda e do consumo. Temos de exigir do Banco Central maior rigor na regulação e na fiscalização do crédito. Também sou radicalmente contra as bets. O brasileiro não estava preparado para a liberação da jogatina.
CC: Qual deve ser a estratégia do campo progressista para reverter o favoritismo de Tarcísio de Freitas nas eleições de São Paulo?
ST: Tarcísio não é invencível. Como na política tudo é comparação, vamos compará-lo com ele mesmo, a imagem vendida com os resultados de sua gestão. Precisamos analisar os números de investimentos, da infraestrutura, da segurança pública e de outras áreas para dar racionalidade ao debate. Temos um pré-candidato que conhece São Paulo como poucas pessoas, não só por ter sido prefeito da capital, mas também ministro da Fazenda e da Educação, que é o Fernando Haddad. Será uma eleição difícil, mas não impossível de vencer. Há muitas inverdades e muita propaganda. Quando o véu for retirado durante a campanha e os números aparecerem, o eleitorado fará seu juízo de valor e irá às urnas com consciência para votar.
“Se o STF deixar passar a dosimetria, o primeiro ato da próxima legislatura será uma tentativa de anistiar Bolsonaro”
CC: A senhora e o ex-ministro Márcio França figuram na liderança das intenções de voto para o Senado, segundo a Quaest. Há espaço para uma chapa puro-sangue do PSB ao Senado em São Paulo? Como estão as negociações com outros partidos do campo progressista?
ST: Somos um time, tenho conversado tanto com Márcio França quanto com Marina Silva. Temos ainda uma vaga de vice-governador e a suplência ao Senado. Há espaço para ampliar o nosso campo e, acima de tudo, compromisso com a reeleição do presidente Lula e a eleição de Haddad. É um somatório: ninguém vem para dividir, todos estão dispostos a ocupar os espaços possíveis, não necessariamente aqueles que desejam. Precisamos do voto do centro para ganhar a eleição, e o meu papel seria disputar uma vaga ao Senado, porque contribuo mais ao atuar no interior de São Paulo, dialogar com as mulheres, com o agronegócio e com os setores produtivos.
CC: A senhora é simpática à ideia de criação de uma estatal para controlar a extração e o processamento de minerais estratégicos?
ST: Discutir a criação de uma estatal em ano eleitoral é nocivo para a campanha do presidente Lula, porque boa parte da sociedade, a meu ver de forma equivocada, considera que qualquer empresa pública não presta. Por ser de centro, sempre defendi que não se trata de Estado mínimo nem de Estado máximo, e sim de Estado necessário. Se uma estatal é eficiente, como é o caso da Petrobras, ela deve ser mantida, até porque o controle do petróleo está ligado à soberania. Se ficarmos discutindo a criação da Terrabras, que precisa obter aprovação do Congresso Nacional, vamos perder o ano e desperdiçar a oportunidade de regulamentar a exploração de terras-raras. Temos a segunda maior reserva do mundo, o que desperta o interesse de potências estrangeiras. Vocês querem vir explorar? Então será sob as nossas regras. Vai gerar emprego aqui, o processamento será feito aqui e uma parte pode ser exportada in natura, mas, primeiro, é preciso abastecer o mercado nacional. Acho que já começa a haver avanço nesse sentido. Há orçamento disponível para avançar e estimular uma tecnologia brasileira de exploração com custo-benefício desses minerais, que estão em tudo: computador, celular, fone de ouvido, televisão, geladeira, não é pouca coisa. Temos uma riqueza bruta em mãos e precisamos de inteligência e equilíbrio para buscar os parceiros necessários, dentro das nossas regras. Não tenho dúvida de que eles virão, porque o mundo precisa do que o Brasil tem. •
Publicado na edição n° 1412 de CartaCapital, em 13 de maio de 2026.
Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Aposta na diversidade’
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