Educação

Estudantes bolsonaristas incentivam manifestação armada na Universidade Federal de Mato Grosso

A ameaça surgiu após universitários promoverem um ato contra cortes do governo Bolsonaro. A UFMT levou o caso à Polícia Federal

Foto: Assessoria/Divulgação
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Estudantes bolsonaristas da Universidade Federal de Mato Grosso têm incentivado em grupos de mensagens a realização de uma manifestação armada no campus de Cuiabá, após um grupo de universitários e profissionais realizar um ato contra os cortes promovidos pelo governo de Jair Bolsonaro (PL) nas federais.

Em um grupo chamado ‘ACON-Jovem’ ao qual a reportagem de CartaCapital teve acesso, um estudante fez um chamado para a mobilização, que aconteceria na praça do restaurante universitário.

“Galera, precisamos agir como Cristo. Vamos nos mobilizar na UFMT, na praça do RU. Cantar o hino nacional, fazer uma oração e fazer uma caminhada até a avenida Fernando Corrêa, pacificamente. Posso chamar os docentes pela liberdade (tem uns 15 professores na UFMT), os técnicos, a imprensa e a polícia. Tenho contato do Paccola, ele pode dar uma força”, escreveu. “E quem tiver [sic] armado, vá, porque eles podem nos atacar”.

Créditos: Reprodução

O chamado ganhou apoio no grupo e foi respondido com mensagens de ódio ao PT, ao ex-presidente Lula e seus eleitores. “Petralhada tá em peso em cima dos mais pobres”, devolveu um integrante do grupo. “Porque pobre gosta de passar fome”, sugeriu outro.

Na sequência, um estudante criticou a decisão do Supremo Tribunal Federal de autorizar prefeitos a garantirem transporte público gratuito no dia do segundo turno: ‘STF TSE também liberando a porcaria dos ônibus para eles irem votar”.

A reportagem conversou com o coordenador-geral do Diretório Central Estudantil da UFMT Cuiabá, Vinicius Brasilino, para quem a ideia da mobilização armada começou a circular após a terça-feira 18, dia em que estudantes de todo o País se manifestaram contra a redução do orçamento de institutos e universidades federais.

O movimento, avalia Brasilino, foi influenciado pelo deputado federal eleito Abílio Junior (PL), que, na sexta-feira 14, foi até o DCE com o objetivo de “intimidar os estudantes” e o ato que aconteceria dias depois.

“Ele os insultou, arrancou um adesivo que tinha escrito ‘Fora, Bolsonaro’, os acusando de fazer campanha eleitoral e incitando a turma dele a se manifestar contra as manifestações que repudiam os cortes orçamentários feitos pelo governo Bolsonaro”, relatou. A presença do parlamentar foi gravada e o vídeo circula pelas redes sociais.

Abílio Junior foi o segundo deputado federal mais votado em Mato Grosso. O político, que já foi vereador, teve seu mandato cassado em 2020 por quebra de decoro parlamentar, por ter agido de maneira inconveniente em diversos casos, como em uma suposta invasão ao Hospital São Benedito. Segundo a Comissão de Ética, que votou pela punição, Junior seria alvo de 17 boletins de ocorrência. A reportagem tentou contato com a equipe do deputado eleito, mas não obteve resposta.

Os estudantes bolsonaristas também citam como possível apoiador da manifestação armada o ex-vereador de Cuiabá Tenente Coronel Marcos Paccola (Republicanos), que teve o mandato cassado no início de outubro após matar a tiros o agente penitenciário Alexandre Myagawa de Barros, em julho deste ano.

Clima na universidade é de medo

A divulgação das mensagens trouxe um clima de tensão para a universidade. Brasilino narrou à reportagem uma preocupação com a capilaridade do movimento.

“Nós não temos problema nenhum de que esses estudantes se manifestem – muito pelo contrário, defendemos a democracia. O que nos assusta é o tipo de chamado para a mobilização. Nós estamos com medo, sim, não dos estudantes ou dos parlamentares citados, mas do alcance que essas mensagens podem ter, a quais pessoas podem chegar.”

O coordenador do DCE defendeu que as divergências poderiam ser tratadas dentro da universidade, em atividades de debate, por exemplo. “Até porque para nós é tranquilo fazer a defesa da universidade contra tudo o que vem acontecendo e o governo Bolsonaro tem feito. Queríamos até entender por que eles apoiam os cortes.”

A reportagem conversou com uma estudante da UFMT que participou do ato contra os cortes. Em condição de anonimato, disse ter sido alvo, com outros colegas, de vários ataques pelas redes sociais após a manifestação. “As mensagens dos jovens de direita querendo se manifestar e ir armados não fazem sentido para mim. Sempre fomos muito pacíficos na universidade, e não tem por que um grupo atacar o outro.”

Em nota, a UFMT afirmou que “preza pelos princípios constitucionais” e que “a liberdade de expressão é o vetor máximo da democracia e deve ser resguardada e defendida”.

“A fim de resguardar a comunidade universitária e de forma preventiva, a instituição informou à Polícia Federal sobre tais fatos veiculados nas redes sociais.”

O caso também foi encaminhado ao Ministério Público Federal de Mato Grosso pelo Conselho Estadual de Direitos Humanos. No despacho, o procurador regional dos direitos do cidadão, Rodrigo Pires de Almeida, assinala “suposto ilícito” e acrescenta que “o direito à reunião é garantido, desde que de forma pacífica e sem armas”.

MP abre representação contra estudantes

Após a repercussão do caso, o Ministério Público Eleitoral ajuizou, nesta sexta-feira 21, uma representação contra dois estudantes universitários do campus Cuiabá da Universidade Federal de Mato Grosso. Em medida liminar, o MPE pede que a manifestação não seja realizada.

O caso foi encaminhado ao Ministério Público Federal pela Procuradoria Regional dos Direitos do Cidadão em Mato Grosso, que reuniu prints de conversas trocadas entre integrantes de um grupo de mensagens.

O MP Eleitoral pediu que a Justiça determine aos estudantes que, no prazo de 24 horas, se abstenham de divulgar, propagar, convocar ou realizar evento com o uso de armas, em espaços públicos. Acrescentou que, em caso de deferimento da medida liminar a impedir a concretização do ato, os estudantes removam os conteúdos e se retratem nos grupos de mensagens instantâneas e demais canais utilizados para divulgar a manifestação armada.

O órgão defende que os envolvidos divulguem uma nota pública se retratando da atividade proposta, sob pena de multa de 100 mil reais na hipótese de descumprimento.

O MPE afirmou também que, caso os organizadores não deixem de realizar o evento, devem ser adotadas providências para impedir a manifestação com o uso de armas, inclusive mediante o emprego de força policial, se necessário.

Na representação, o procurador-regional eleitoral Erich Raphael Masson destacou que “manifestações pacíficas do povo brasileiro são bem-vindas”, mas que não é possível aceitar atos que levem a tumulto e agressão ou causem depredação de patrimônio privado ou público.

“Ainda, como no caso em apreço, realize convocação para os manifestantes estarem armados em local público.”

O que dizem os estudantes citados

CartaCapital procurou os estudantes alvos da representação do Ministério Público Eleitoral.

Os jovens explicaram que o grupo de mensagens reúne cerca de 50 jovens de direita e, por ser aberto, não conta somente com alunos da UFMT.

Um dos envolvidos no caso, estudante de Medicina, manifestou-se por meio de uma carta, na qual pediu desculpas. Ele se definiu como cristão e disse que, diante de “um impulso nervoso” no processo eleitoral, acabou por escrever “um texto de uma forma ruim quando falei de ir armado para a UFMT enfrentar o debate e virar voto dos petistas”.

“Jamais passou pela minha cabeça ameaçar colegas”, acrescentou. Ele alegou ter “consideração” pelas pessoas da universidade, apesar de discordâncias.

Também em conversa com a reportagem, o estudante responsável pela moderação do grupo de mensagens negou um clima de convocação para o ato armado entre os demais integrantes. “O menino saiu do grupo logo na sequência, com remorso”, relatou.

“Nós somos meninos com princípios cristãos conservadores, pregamos a democracia, o livre respeito à manifestação de ideias”, prosseguiu. Questionado se o grupo ainda pretende realizar algum ato na universidade, o jovem disse que, no momento, o intuito é se defender do que considerou uma ‘difamação’.

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