Escolas Abertas, o movimento ‘social’ que quer reabrir escolas públicas

Aliado do governo Doria, um grupo de mães da elite paulistana reivindica autoridade científica para falar pela escola pública

Créditos: EBC

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Educação,Opinião

Por Fernando Cássio, Ingrid Ribeiro e Ana Paula Corti

 

Em dezembro do ano passado, um movimento “social” até então desconhecido entrou com uma Ação Popular exigindo que a Prefeitura da Cidade de São Paulo e o Governo de São Paulo tomassem “todas as medidas necessárias para que o ano letivo de 2021 comece com as escolas abertas e em perfeito funcionamento, com aulas presenciais e com conteúdo pedagógico, respeitadas as regras estabelecidas”.

O grupo também solicitou que fosse apresentado “relatório das atividades desenvolvidas para a preparação das escolas, funcionários e professores para a retomada das aulas presenciais”. Algumas semanas depois – em janeiro de 2021, em meio a controvérsias entre governadores e prefeitos, o movimento voltou a fazer barulho na imprensa, tornando mais conhecido o seu sugestivo nome: “Escolas Abertas”.

 

 

As controvérsias públicas em que o grupo tem tomado parte se relacionam ao anúncio do governo do Estado de São Paulo – em tom de ultimato – de que as escolas públicas e privadas serão reabertas para atividades letivas presenciais a partir de 1º de fevereiro. Não é a primeira vez que a Secretaria da Educação do Estado São Paulo  convoca o retorno das aulas: em 2020, foram vários os anúncios, adiamentos e mudanças de planos.

As escolas estaduais foram autorizadas a reabrirem em outubro para atividades de reforço. Na ocasião, prefeitos que não apoiaram a medida foram chamados de demagogos. Passada a eleição municipal, algumas prefeituras autorizaram o retorno das aulas regulares para estudantes do ensino médio. A adesão da população, no entanto, foi baixa, inclusive nas escolas privadas.

O medo e a desconfiança com relação à segurança nas escolas têm fundamento. Se, após dez meses de escolas fechadas, a população sente que ainda não há condições que possibilitem o retorno, isso ocorre justamente pela falta de transparência acerca das reais condições das escolas. Entre as comunidades escolares, essas informações nunca circularam como deveriam.

 

Ativistas da escola pública

O movimento Escolas Abertas surgiu em um grupo de WhatsApp de pais da Saint Paul’s School, escola de elite com mensalidades entre 7 e 8 mil reais. É nela que estudam, por exemplo, os filhos do governador paulista João Doria. Também se divulgou que, entre as cerca de 20 autoras da ação, havia mães de alunos das escolas (igualmente voltadas à elite) Miguel de Cervantes, Porto Seguro, Chapel School, Avenues, Santa Cruz, Viva, Gracinha, Pentágono, Móbile, Dante Alighieri, entre outras.

O perfil do grupo, porém, é mais – se assim podemos dizer – inclusivo. Constam como coautoras da ação popular 22 pessoas, sendo 15 mulheres e sete homens. Entre as mulheres, estão mães com filhos matriculados nas escolas privadas mais caras da cidade de São Paulo – em sua maioria empresárias – acompanhadas por cinco trabalhadoras cujos salários provavelmente correspondem a uma fração do valor dessas matrículas: uma cozinheira, uma empregada doméstica, uma secretária, uma podóloga e uma cabeleireira. Não deixa de ser inusitada a união entre essas cinco mulheres e pessoas como Tide Setubal Souza e Silva Nogueira, uma das herdeiras do Banco Itaú; Carlos André Gava Rotta, ex-dono do Banco Cruzeiro do Sul, e Ilona Becskeházy, ex-diretora executiva da Fundação Lemann que atuou como secretária de educação básica no MEC do governo Bolsonaro (ministro Abraham Weintraub).

Como base para a ação (“popular” apenas no jargão jurídico), o grupo apresentou uma série de documentos e artigos com evidências de que crianças e adolescentes não transmitem a Covid-19 da mesma forma que os adultos. A segunda linha argumentativa é que as crianças e adolescentes vêm adoecendo pela falta da escola e, assim, os custos sociais de manter escolas fechadas seriam maiores do que abri-las massivamente.

Os relatos de sofrimento psíquico de crianças e adolescentes privados da frequência à escola durante a pandemia são, sem dúvida, inumeráveis. Apesar disso, não podem ser utilizados para atribuir o fechamento prolongado das escolas a um excesso injustificável de precaução.

Por mais desconfortável que seja, a dimensão individual do problema das escolas, como temos sustentado, não pode se sobrepor às suas dimensões coletivas. Manter dezenas de milhões de estudantes e mais alguns milhões de profissionais da educação fora das escolas – mais de 25% da população – ajudou e ajuda a diminuir o número global de casos de Covid-19. Há, porém, quem fervorosamente defenda que o efeito protetor do fechamento das escolas não se sobrepõe aos possíveis efeitos benéficos da reabertura.

O estado do Amazonas, laboratório da volta às aulas presenciais no Brasil, autorizou a retomada das aulas na rede privada no início de julho de 2020; e fez o mesmo na rede pública depois de um mês. No final de agosto, a Fundação de Vigilância em Saúde do Amazonas testou 1.064 professores para Covid-19, resultando em 342 testes positivos. Destes, 104 (10% da amostra) eram de pessoas que se encontravam na fase ativa da infecção, ou seja, de profissionais da educação que se infectaram após o retorno às atividades escolares presenciais.

Na Suécia, país com escolas totalmente abertas desde junho de 2020, o número de casos severos de Covid-19 entre estudantes e professores é extremamente baixo. É a esse tipo de dado que alguns preferem se agarrar, ignorando outros: um segundo conjunto de dados sugere que os riscos de infecção para professores de determinadas etapas da escolarização básica sueca não são assim tão pequenos. Seja como for, evidências desse tipo, como ponderam os pesquisadores, são sempre impactadas pelas condições e formas de organização das escolas e pelo nível de engajamento da comunidade escolar nos protocolos de biossegurança. Não podem, portanto, ser transpostas de um lugar a outro sem uma análise rigorosa dos contextos das escolas e redes de ensino que se pretende comparar.

Nessa mesma linha, a Unesco, o Unicef e o Programa Mundial de Alimentos (WFP) da ONU divulgaram um documento orientador aos ministérios da educação na América Latina e no Caribe sobre a reabertura das escolas no contexto da Covid-19. Ele ressalta que aquelas orientações “proporcionam um marco regional e oferecem orientações de ações práticas que devem ser contextualizadas e adaptadas para responder às condições locais e atender às necessidades de aprendizagem, saúde, nutrição e segurança de cada criança e adolescente”. Essas organizações são muito claras naquilo que defendem, mas seu discurso cauteloso em prol da implementação de políticas públicas – focalizado na dimensão coletiva dos problemas – é bafejado pelo movimento Escolas Abertas como um panfleto pró-reabertura. Às elites brasileiras, afinal, só interessa reter os ares da autoridade internacional.

 

Abertura incondicional

À primeira vista, uma das reivindicações da ação popular movida pelo Escolas Abertas é que o Estado providencie as adaptações, compras e medidas necessárias para que as escolas cumpram os protocolos de segurança na reabertura “em fevereiro de 2021”. No entanto, sua alegada preocupação com as condições das escolas públicas não parece ser tão grande assim.

O Grupo de Atuação Especial de Educação (núcleo da Capital) do Ministério Público de São Paulo (MP-SP), que analisou os autos do processo, emitiu parecer enfatizando que as secretarias de educação precisam comprovar “a adoção de todas as medidas necessárias para a pronta retomada das atividades presenciais, assim que dadas as condições razoáveis de controle da pandemia”.

Entendendo que o retorno às aulas presenciais nas escolas não pode ser incondicional, “pois o momento de reabertura há que ser avaliado e reavaliado em razão dos mais recentes dados epidemiológicos”, o MP-SP elencou uma série de informações que o governo paulista e o município de São Paulo deveriam apresentar à Justiça:

1) a lista das escolas dos respectivos sistemas de ensino situadas na Capital;
2) as ações realizadas em cada uma das escolas públicas para cumprimento dos protocolos sanitários estabelecidos pelas próprias Secretarias de Educação, detalhando reformas realizadas, melhorias nos ambientes escolares, disponibilização de equipamento de proteção individual e materiais de higiene e sanitização;
3) as atividades de capacitação dos trabalhadores da educação, especificando se todas as escolas contam com quadro completo de professores e demais servidores e se foram contratados trabalhadores adicionais – inclusive para as atividades de limpeza;
4) a relação das escolas que, por problemas estruturais ou de conservação, ainda não contam com condições ambientais adequadas para retomada das atividades presenciais;
5) projeção de data para retomada das aulas presenciais e cronograma de obras, preparação de ambientes escolares e ações de formação de equipes escolares previstas para o mês de janeiro;
6) as medidas já adotadas ou em curso para ações fiscalizadoras da vigilância sanitária e das equipes de supervisão de ensino para atestar condições de cumprimento dos protocolos para retomada das atividades presenciais nas escolas privadas;
7) após o relatório inicial, a cada dez dias, informações sobre o progresso no cumprimento das medidas necessárias para preparação dos ambientes e equipes e sobre eventuais atualizações no cronograma de retomada das atividades presenciais;
8) previsão de inclusão dos trabalhadores da educação como público prioritário nos planos de vacinação que vêm sendo divulgados, notadamente naquele apresentado pelo governo do Estado de São Paulo.

Em decisão liminar, o Tribunal de Justiça de São Paulo (TJ-SP) concedeu o pedido da ação popular – observados os oito itens propostos pelo MP-SP –, ressaltando que a “questão da reabertura das escolas no início de fevereiro, ou em data específica será objeto de instrução do feito e julgamento do mérito da ação” (16 dez. 2020). Os autores da ação popular comemoraram a decisão nas redes sociais do Escolas Abertas.

 

 

 

Respondendo ao TJ-SP (05 jan. 2021), o governo enviou informações quantitativas sobre os insumos adquiridos, dados gerais sobre as instalações sanitárias e uma lista de atividades de formação a distância com foco na retomada das atividades presenciais nas escolas. Também respondeu que:

“ao longo de 2020 foram destinados mais de R$ 700 milhões para as escolas da rede estadual a fim de prover-lhes os recursos necessários à adequação de seus espaços. Para 2021, está previsto o envio de mais R$ 700 milhões para continuidade da política de melhoria da infraestrutura das escolas por meio de pequenos reparos e pequenos serviços. Assim, a estrutura das unidades escolares foi devidamente adaptada para garantir um retorno seguro das atividades, conforme se denota das fotos abaixo”. (05 jan. 2021)

Onze fotos incluídas na resposta mostram instalações recém-reformadas em escolas da rede estadual, sustentando que “a estrutura das unidades escolares foi devidamente adaptada para garantir um retorno seguro das atividades”. Onze fotos – em uma rede com mais de 5.000 escolas. Na contestação feita com base nesses dados, a Procuradoria Geral do Estado assegura que “não há omissão por parte do Estado de São Paulo”.

Já a Procuradoria Geral do Município de São Paulo respondeu à demanda judicial com um conjunto de protocolos genéricos que já haviam sido divulgados à sociedade, alegando ser irrazoável apresentar “a cada dez dias, informações sobre os progressos no cumprimento das medidas necessárias para preparação dos ambientes e equipes escolares e sobre eventuais atualizações no cronograma de retomada das atividades presenciais” (13 jan. 2021). Contraditoriamente, a Prefeitura de São Paulo assevera que todas as medidas relacionadas ao objeto da ação são “tomadas com base em critérios TÉCNICOS, previamente avaliadas por especialistas e fruto de debates com representantes QUALIFICADOS da sociedade, de forma transparente, responsável, séria e comprometida com toda a coletividade” [as letras maiúsculas estão no documento].

Em réplica (15 jan. 2021), o MP-SP reconheceu que o governo estadual ao menos detalhou “valores, espécie e quantidade de equipamentos de proteção e material de higiene adquiridos, além de ter informado pesquisas realizadas sobre a situação dos banheiros das escolas e de ter apresentado, em pequena amostra, fotografias de algumas escolas e reformas realizadas”. Mas ressaltou que falta a relação das escolas que, por problemas estruturais ou de conservação, ainda não contam com condições ambientais adequadas para a retomada das atividades presenciais. O MP-SP também expressou preocupação com o fato de apenas 23% das escolas municipais da Capital possuírem um quadro completo de professores da Educação Infantil e, mesmo assim, a Prefeitura ter anunciado a reabertura das escolas em 1º de fevereiro.

O MP-SP ainda aguarda que estado e município ofereçam os elementos que comprovem que todas as medidas necessárias foram efetivamente tomadas. Era isso, afinal, o que o movimento Escolas Abertas estava demandando judicialmente – e eles não poderiam ficar sem respostas.

 

 

Ou, quem sabe, poderia, já que o grupo questionou a incompletude das informações prestadas pelo município de São Paulo (14 jan. 2021), mas não procedeu da mesma forma com o governo estadual, que também não havia respondido a demanda por completo. Somente a prefeitura da Capital – que não ofereceu quaisquer informações sobre as condições das escolas e relutava em seguir as determinações do governo estadual – foi pressionada pelo grupo nas redes sociais, em carreatas e em um protesto em frente à casa do prefeito.

No dia seguinte, o humilhado foi (parcialmente) exaltado: Bruno Covas anunciou a reabertura das escolas em 1º de fevereiro e o movimento comemorou o feito, mas considerando-o tão somente um “começo importante”: não aceitou que a volta às aulas na cidade de São Paulo ocorresse com insuficientes 35% de estudantes, em esquema de revezamento.

 

 

O Escolas Abertas considera o fechamento prolongado das escolas um “crime contra a infância”. E foi em nome disso que acionou judicialmente o governo paulista e a prefeitura da Capital, que ainda não comprovaram à Justiça que as escolas públicas de suas respectivas redes de ensino oferecem as mínimas condições de segurança para o retorno. Mas, no fim das contas, esses aspectos parecem não importar muito, já que o grupo, divulgou um vídeo (09 jan. 2021) com a participação de Rossieli Soares da Silva, secretário da educação de São Paulo.

 

 

O panfleto audiovisual é exemplar da agenda e dos métodos do Escolas Abertas: quanto mais claro fica que a sua verdadeira pauta é a reabertura incondicional e a qualquer custo, mais se dissimula sua natureza como um “movimento” amplo. Note-se que a intensificação das ações do Escolas Abertas, na primeira metade de janeiro, coincide com o crescimento acelerado do número de casos e de óbitos diários por Covid-19 no estado de São Paulo.

 

“Impossível aceitar escolas fechadas”

Flávia, Paula, Lana, Mariana, Barbara, Vera e Patricia. Essas são as mães do movimento Escolas Abertas que aparecem no vídeo intitulado “Impossível aceitar escolas fechadas”. Todas singelamente identificadas apenas pelo primeiro nome. Algumas de fato milionárias, residentes em apartamentos e condomínios – esses sim bastante fechados – em bairros paulistanos como Cidade Jardim, Vila Nova Conceição e Jardim Paulista.

Balanceiam a singeleza os nomes e sobrenomes que emprestam autoridade ao vídeo: Claudio Lottenberg, ex-CEO da Amil e atual presidente do conselho deliberativo do Hospital Albert Einstein; Rossieli Soares da Silva, secretário estadual da educação; Francisco Carbonari, ex-presidente do Conselho Estadual de Educação de São Paulo; Paulo Telles, pediatra neonatologista; Fábio Jung, médico e pesquisador; Florencia Fuks, pediatra; e Danielle Admoni, psiquiatra da infância e adolescência. Todos captados com imagem e som impecáveis pela produtora de vídeo contratada – Nó de Gravata Films –, especializada em “eventos sociais” como editoriais de moda e grandes festas de casamento.

 

 

O líder comunitário Emerson, também identificado apenas pelo primeiro nome, relata no vídeo que as crianças estão sofrendo muito com a falta da escola. Passam o tempo trancadas em casa ou correndo pelas ruas da comunidade, diz ele. O vídeo mostra algumas tomadas (em altíssima resolução, é claro) na Comunidade Água Branca. A seguir, duas mulheres negras – quiçá moradoras daquela comunidade – relatam as dificuldades enfrentadas em casa por conta da suspensão das aulas.

A primeira, acompanhada de duas crianças, conta que no início da pandemia elas até acompanhavam as atividades escolares, mas acabaram ficando sem estudar quando ficou difícil pagar o plano de internet. A segunda relata que não consegue voltar a trabalhar fora tendo que cuidar dos três netos e da filha adolescente em casa. Essas duas mulheres negras são as únicas pessoas que aparecem no vídeo sem qualquer identificação. Em seguida, a mãe-sem-sobrenome Patricia (uma das coordenadoras do Escolas Abertas) assevera: “As minhas preocupações com os meus filhos permeiam qualquer classe social. As minhas angústias e os meus medos são os medos de outros pais”.

Rechaçada por prefeitos e pela maior parte da população do estado que não acredita no “retorno seguro” prometido, a Secretaria da Educação do Estado de São Paulo parece ter vislumbrado no Escolas Abertas uma plataforma de divulgação e legitimação “social” de suas ações pela reabertura. Tanto é que o secretário Rossieli Soares da Silva, antes representante de um dos réus na ação popular movida pelo Escolas Abertas, virou aliado do grupo. Já o “movimento”, viu na Seduc-SP a oportunidade de ampliar o alcance (e o efeito) das suas teses.

Diversas ações judiciais relacionadas à volta às aulas presenciais estão ou já estiveram em curso no TJ-SP, a maioria marcada por questões de classe: o sindicato patronal das escolas privadas querendo reabrir e os sindicatos profissionais defendendo a não obrigatoriedade da reabertura. Embora as motivações desses atores sejam diferentes, seus discursos costumam ser tratados como antípodas por jornalistas que veem “polarização” até na própria sombra.

A esperteza do Escolas Abertas foi criar um discurso pró-reabertura mais genérico e despolitizado, com o qual um público mais amplo pudesse se identificar, mas que não apoquentasse as classes médias e altas que sentem calafrios quando se trata de garantir direitos aos mais pobres. Pela abertura das escolas, elas são mães de carne-e-osso que veem a educação como “prioridade”. Mulheres que acreditam na Ciência e na possibilidade de salvar as crianças das garras dos políticos. Elas são Flávias, Paulas, Lanas, Marianas, Barbaras, Veras, Patricias, Mileises e Gilvaneides sem sobrenome, além de um bocado de outras que não merecem ser identificadas pelo primeiro nome.

Uma vez anunciada a reabertura no estado e no município de São Paulo, o élan do movimento Escolas Abertas não tardou a se desmilinguir. Cessaram o apelo obstinado à transparência e a demanda por informações. Também acabaram as críticas meticulosas ao governo paulista. Ao município de São Paulo, restou a cobrança pelo cumprimento integral do Plano São Paulo no que diz respeito à lotação das escolas: se a cidade estiver na fase amarela, 70% dos estudantes devem poder frequentar diariamente as escolas.

A julgar pelas postagens do Escolas Abertas nas redes sociais, a verdadeira pauta do movimento vem se radicalizando nas últimas semanas. Entre dezembro e janeiro, o grupo veiculou um grande número de notícias relacionadas à ação popular em seu perfil no Instagram. Depois do dia 10 de janeiro, esses conteúdos passaram a se misturar com propagandas em defesa da educação como “serviço essencial”, um jeito diferente de dizer que a abertura é incontornável. Os populares que seguem o perfil parecem concordar: “Zurique em lockdown novamente e meu neto [continua] tendo aula diariamente”. Se as escolas da Suíça podem, por que as de Cidade Tiradentes não?

 

 

 

A tese da educação como “serviço essencial” – que subverte inteiramente o debate dos direitos sociais, mas que pode granjear adesão – é a mesma que anima o PL n. 5.594/2020, de autoria de Adriana Ventura (Novo/SP), Paula Belmonte (Cidadania/DF) e Aline Sleutjes (PSL/PR) – três deputadas alinhadas ao governo Bolsonaro que, entre seus prestimosos serviços à educação brasileira, trabalharam para desviar recursos das escolas públicas para instituições privadas modificando a lei de regulamentação do Fundeb.

No Instagram do Escolas Abertas, junto a uma publicação com a imagem do “impostômetro”, registrada durante a passagem da carreata do grupo pelo centro de São Paulo (16 jan. 2021), uma seguidora comentou que “Escola só pode 35% para não ultrapassar a capacidade máxima, mas presídio pode né?”. A referência ao percentual alude ao motivo da carreata: pressionar a prefeitura pelo cumprimento integral do Plano São Paulo.

No afã de reabrir as escolas, o movimento Escolas Abertas escancara a sua intolerância em relação a uma retomada mais gradual das aulas presenciais, desvinculando a reabertura de qualquer perspectiva concreta de vacinação, da existência de protocolos sanitários profissionais nas redes públicas e da atualização dos números da pandemia. Só que, traído pela pressa, o grupo sacrificou o seu principal ativo: o discurso pretensamente moderado e baseado na Ciência.

 

O negacionismo dos outros

O Escolas Abertas emprega a mesma estratégia declaratória que o governo paulista vem adotando há meses para defender a volta às aulas: afirmar que as escolas são seguras, que existem protocolos de biossegurança e que diversas medidas foram tomadas para garantir seu cumprimento. Aqui, a convicção em afirmar suplanta a necessidade de ser transparente e de apresentar evidências.

O secretário Rossieli, que agora faz parte do “movimento” e ameaça levar à Justiça os prefeitos que tentarem adiar a reabertura – sob a denúncia de que falta base científica às decisões municipais –, passou meses fazendo pouco e explicando ainda menos à população. Preocupar-se com as perdas de aprendizagem e o sofrimento psíquico dos estudantes não é argumento “científico” para o retorno às escolas; é obrigação moral. É o corolário de reconhecer que a escola pública – mesmo abandonada pelo Estado – cumpre uma função primordial na vida de crianças e adolescentes.

Se o Estado deseja convencer a população de que determinados riscos são administráveis, precisa contar a verdade. Precisa dividir com o povo a informação. Precisa mostrar aquilo que foi feito e, sobretudo, aquilo que não foi. Negar a existência dos riscos não faz com que eles desapareçam; só aumenta a desconfiança de quem convive há anos, intimamente, com a precariedade das escolas públicas. Ninguém assume um risco sem saber que risco é esse. Quantas mães e quantos pais do movimento Escolas Abertas arriscariam o seu dinheiro em investimentos sobre os quais não possuem quaisquer informações?

É bom que se reconheça, apesar disso, que o Escolas Abertas não é organizado por elites trogloditas ou caricatas. A compreensão postiça das necessidades do outro, a mobilização sutil do ódio aos políticos e à política, a redução deliberada dos problemas sociais a medos e angústias individuais – tudo é pensado para fazer avançar uma agenda antipovo ao mesmo tempo em que se escamoteia a noção de educação como bem público e se acusa os adversários de negacionismo.

A reivindicação da autoridade científica no debate sobre a reabertura das escolas não foi inventada pelo Escolas Abertas. Antes dele, pelo menos dois grupos de médicos (em sua maioria pediatras, com consultórios privados em Moema, Higienópolis e afins) já lançavam manifestos pela volta às aulas: “Médicos pela Educação” alimentou um perfil no Instagram entre agosto e dezembro do ano passado; e “Ciência pela Escola” é ativo no Instagram desde dezembro e parceiro de primeira hora do movimento Escolas Abertas.

O roteiro desses grupos de médicos – eles também, majoritariamente pessoas brancas das classes média e alta – é o mesmo da ação popular movida pelo Escolas Abertas. Crianças e adolescentes transmitem pouco e adoecem pouco em função da Covid-19; logo, não há razão para manter a suspensão das aulas presenciais nas escolas. Zero controvérsia; apenas certezas. Nenhum comentário, por exemplo, sobre a pesquisa que identificou, durante o período de fechamento das escolas na França, uma brutal diminuição do número de casos de doenças infantis como resfriado comum, gastroenterite, otite aguda e bronquiolite. Após dez meses de aulas suspensas, estaria ocorrendo no Brasil o mesmo esvaziamento dos consultórios pediátricos particulares observado nos ambulatórios franceses?

Evidências da pesquisa em saúde coletiva, epidemiologia, educação e políticas públicas são fundamentais. As da clínica pediátrica também, mas não são suficientes, por si sós, para justificar uma abertura de escolas que movimenta milhões de pessoas todos os dias no transporte público e nos entornos escolares. Além disso, desqualificar as dúvidas de quem de fato conhece a escola pública – e que, por isso, resiste ao retorno obrigatório – também é um tipo de negacionismo.

No Instagram, o Escolas Abertas segue uma grande quantidade de perfis relacionados à cadeia produtiva da escola privada: o “tio” da perua escolar, confecções de uniformes, roupas e acessórios para crianças, ateliês de bolos e festas infantis, empresas de formatura e excursões escolares, psicopedagogas e kidcoaches, escolas de idiomas, personal organizers, consultoria de biossegurança para escolas, além de uma clínica particular de vacinação chamada “Saúde Livre”. Além disso, o grupo segue algumas influenciadoras digitais com filhos pequenos, médicos, consultoras de imagem, diversos jornalistas e os perfis de dezenas de escolas privadas. Diversos movimentos “Escolas Abertas” foram fundados em outras cidades.

O perfil acompanha as publicações de Ciro Gomes (PDT/CE) e Tábata Amaral (PDT/SP), mas segue uma lista bem maior de políticos notoriamente reacionários: os deputados federais Celso Russomanno (Republicanos/SP), Caroline de Toni (PSL/SC) e Luiz Philippe de Orleans e Bragança (PSL/SP); o deputado estadual Douglas Garcia (PTB/SP, ex-PSL); além de Mário Frias e Abraham Weintraub. Segue o perfil do Brasil Paralelo, conhecido disseminador de conteúdos negacionistas e conspiracionistas, mas não recebe em seu feed a divulgação científica de alta qualidade que circula no Brasil e nem os diversos profissionais da saúde com visões críticas sobre a reabertura das escolas.

No Twitter, o movimento segue um número bem menor de perfis. Além das deputadas federais Tábata Amaral e Sâmia Bomfim (PSOL/SP) – únicas representantes do campo “progressista” – o Escolas Abertas segue um rosário de bolsonaristas, que inclui agora os deputados federais Bia Kicis (PSL/DF), Carla Zambelli (PSL/SP), Carlos Jordy (PSL/RJ) e Paulo Eduardo Martins (PSC/PR); e os deputados estaduais Gil Diniz (sem partido/SP) e Janaína Paschoal (PSL/SP). Entre os jornalistas, Miriam Leitão e Guga Chacra são ladeados por Augusto Nunes, Rodrigo Constantino, Alexandre Garcia e Sikêra Júnior. Fundação Lemann e Todos pela Educação são ladeados pelo Movimento Brasil Conservador, por Olavo de Carvalho e por um perfil de homenagem a Margaret Thatcher.

 

 

Embora se possa argumentar que a composição dessas listas seja um tanto circunstancial, os cliques do movimento dizem alguma coisa sobre as preferências de quem o coordena e organiza. Por que um grupo que reivindica a autoridade da Ciência para falar pela escola pública segue tantos perfis de negacionistas, sem minimamente equilibrá-los com os de quem verdadeiramente qualifica o debate científico no país?

Note-se que nenhum dos perfis do Escolas Abertas segue o sobrenome Bolsonaro. Da mesma forma, o movimento é cioso em preservar os sobrenomes e em ocultar os perfis pessoais de suas porta-vozes. Nos raros perfis das organizadoras que permanecem parcialmente abertos no Facebook, nenhum apoio político; apenas fotos de camisa amarela contra o PT e contra a corrupção. E o movimento, que se diz apartidário, compartilhou a divulgação de uma live sobre a reabertura das escolas a partir do perfil de um comitê local do Partido Novo.

 

 

Sem poupar críticas aos sindicatos docentes, o grupo insiste que as escolas públicas são, sim, locais seguros. Os riscos que correm os profissionais da educação em unidades escolares pouco ventiladas, sem funcionários e sem a infraestrutura adequada parecem entrar em outra conta, pois não incomodam as defensoras da educação como “serviço essencial” que, em menos de um mês, passaram de adversárias ferrenhas a embaixadoras diligentes do governo paulista.

O restabelecimento da normalidade econômica depende, como já dissemos em outro momento, da reabertura massiva das escolas públicas, que concentra perto de 80% das matrículas no país. A “retomada da economia”, por sua vez, é o que permite às elites manterem seus privilégios e continuarem abocanhando um percentual indecente da renda nacional. Para isso, uma vasta cadeia de circulação de pessoas e de prestação de serviços “essenciais” precisa funcionar. Que outro propósito levaria essas mulheres da elite, cujos filhos estudam nas escolas privadas mais caras da cidade de São Paulo, a se portarem como ativistas da “educação como serviço essencial”, senão a manutenção dos serviços “essenciais” que perpetuam a sua existência como elites?

Enquanto a maioria da população vive a contradição de temer os riscos de infecção nas escolas públicas tendo que suportar as múltiplas pressões pela volta ao trabalho, o grande risco a ser evitado nas mansões suspensas da Cidade Jardim não tem propriamente a ver com a retomada das aulas presenciais nas escolas públicas de Heliópolis ou do Itaim Paulista, mas com a eventual perda do status social de mamães, papais e respectivos herdeiros. Para as elites, a única forma de minimizar esse risco é continuar transferindo-o, na forma de risco social, para quem já se arrisca e sacrifica cotidianamente.

O abalo sísmico – em alguma medida, imprevisível – que a economia pós-pandemia pode produzir é o verdadeiro ponto de convergência entre negacionistas, banqueiros, neoliberais, mamães ricas e médicos de classe média, reunidos naquilo que mais se assemelha a um lobby em defesa de interesses privados e individuais do que a um “movimento social”.

 

***
NOTA: Entre a produção deste artigo e a sua publicação (21 jan. 2021), Jair Bolsonaro apagou de suas redes sociais algumas imagens em que ele aparecia defendendo o uso do antimalárico cloroquina na profilaxia da Covid-19. O medicamento é reconhecidamente ineficaz para esse fim; e a ideia de que exista um “tratamento precoce” para a doença foi descredibilizada pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). No mesmo período, o perfil do movimento Escolas Abertas no Instagram também deixou de seguir diversos perfis de negacionistas e entusiastas da cloroquina. Um exemplo é a médica Nise Yamaguchi, que atuou como conselheira informal de Bolsonaro no ano passado, quando os números da pandemia explodiram no Brasil. Felizmente, salvamos esses prints de tela em data anterior ao unfollow (14 jan. 2021).

 

 

Fernando Cássio é doutor em Ciências pela USP e professor da UFABC. Integra a Rede Escola Pública e Universidade (REPU) e o comitê diretivo da Campanha Nacional pelo Direito à Educação.

Ingrid Ribeiro é doutoranda em Educação na Unifesp e professora da rede pública. Integra a Rede Escola Pública e Universidade (REPU) e o comitê diretivo da Campanha Nacional pelo Direito à Educação.

Ana Paula Corti é doutora em Educação pela USP e professora do IFSP. Integra a Rede Escola Pública e Universidade (REPU) e a Associação Brasileira de Ensino de Ciências Sociais (ABECS-SP).

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