Educação

45% das diretoras de Educação Infantil assumiram o cargo por indicação política

Os dados são de uma pesquisa da OEI, que detalha ainda questões pedagógicas e de infraestrutura na modalidade de ensino

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Quase metade (45%) das diretoras de escolas de Educação Infantil assumiram o cargo por indicação política, o que mostra uma tendência dos municípios de utilizarem os cargos de gestão mais a favor de um suposto alinhamento ideológico, e menos alinhado às demandas das crianças e das famílias na etapa escolar.

O dado foi um dos apresentados na quarta-feira 14 pela Organização de Estados Ibero-americanos (OEI), em Brasília, durante o evento ‘Diálogos sobre a Educação’, que teve o primeiro dia dedicado ao tema da primeira infância e à divulgação dos dados da pesquisa ‘Primeiros Anos’.

O levantamento ouviu 10 municípios para detalhar como se moldam as estruturas da Educação Infantil pelo país – do ponto de vista da gestão, do desenvolvimento infantil, pedagógico e infraestrutura – e como os elementos impactam na oferta de uma Educação Infantil de qualidade, prevendo a garantia dos direitos de aprendizagem e o desenvolvimento das crianças.

A pesquisa também mostrou que 61,36% das diretoras não pretendem continuar em seus cargos, estando a decisão atrelada ao maior tempo de vivência das gestoras nas escolas. O levantamento ouviu 193 diretores (86%) que representam 224 unidades escolares dos 10 territórios que participaram da pesquisa: no Norte, Araguaína (TO) e Novo Aripuanã (AM); no Nordeste, Belo Jardim (PE), Maracanaú (CE); no Centro Oeste, Três Lagoas (MS), Planaltina (GO); no Sudeste, Lagoa Santa (MG) e Itapevi (SP); e no Sul, Esteio (RS) e Canoas (RS).

No eixo pedagógico, referindo-se tanto às práticas quanto à formação e qualificação profissional, o time de pesquisadores aferiu que 90% das professoras de creche e pré-escola possuem nível superior e, a maioria delas (85,6%), possuem formação em pedagogia. A situação, no entanto, se inverte quando são consideradas as auxiliares da Educação Infantil. Entre elas, 28% têm Ensino Superior e 23,3% têm formação em Pedagogia. Nesse caso, foram ouvidas 973 professoras e 552 auxiliares.

Também chamou a atenção dos pesquisadores que apenas 11,5% das profissionais disseram participar de formações continuadas em serviço semanalmente; as práticas são dadas em sua maioria de forma mensal ou esporádica. Além disso, nessas formações são praticamente ausentes os temas ligados à diversidade.

Para além da deficiência formativa dos quadros técnicos, os pesquisadores também constataram que as práticas educativas são, por vezes, insuficientes, por não promoverem uma variedade de experiências às crianças a partir do acesso a itens básicos, como brinquedos. A maioria das professores, 60,5%, destacaram não haver brinquedos suficientes em suas salas de aula para bebês e crianças brincarem simultaneamente.

Já no quesito infraestrutura se evidenciou que os ambientes escolares na educação infantil são projetados como insumos, pouco se pensando na possibilidade da interação das crianças com eles, o que faz com que os espaços livres, por exemplo, sejam pouco privilegiados. Também se aferiu que as áreas livres, quando existem, não são equipadas adequadamente, e que a permanência das crianças nesses espaços é controlada dentro do ‘tempo do intervalo’, e não entendida como extensão da prática pedagógica.

Para o diretor e chefe da representação da OEI no Brasil, Raphael Callou, a pesquisa surge em um momento estratégico para o País, uma vez que na transição entre governos são feitos diagnósticos de cada área e se abre a possibilidade de avançar em políticas públicas em cada uma delas, caso da educação. Em conversa com a reportagem de CartaCapital, durante o evento, o ex-ministro e coordenador do GT de Educação, Henrique Paim, citou a Educação Infantil entre as prioridades do governo petista.

Callou também falou de uma perspectiva inovadora da pesquisa. “Nós partimos da base de dados do IBGE e do Censo educacional brasileiro, mas fomos além ao realizar uma profunda pesquisa de campo [o estudo aplicou 5800 questionários] a fim de evidenciar a relação que esses elementos – de gestão,  desenvolvimento infantil, pedagógico e infraestrutura – produzem em benefício da qualidade da oferta da educação infantil no Brasil”, declarou, ao detalhar as estratégias do levantamento.

“Por exemplo, os dados nacionais de infraestrutura medem a questão de acesso a internet ou à rede elétrica, quantas [escolas] têm banheiros, quantas não têm, mas a gente vai além. Chegamos a analisar a planta de cada uma das unidades escolares desses 10 municípios observando os locais de interação, os locais livres, e como essas edificações propiciam [ou não] o que a prática pedagógica quer ofertar de fato: experiências não repetitivas e alinhadas com o desenvolvimento integral das crianças”, acrescentou.

Recomendações

Além de compartilhar os dados, os pesquisadores responsáveis pela pesquisa fizeram recomendações ao poder público em cada uma das áreas avaliadas. Uma das defesas é a de que os municípios invistam mais na formação inicial e continuada dos professores se atentando à contextualização, regularidade e às demandas formativas, para que os docentes sejam capazes de afinar ainda mais as trocas com as crianças. Nesse sentido, é fundamental respeitar a indissociabilidade do cuidar e brincar como práticas estruturantes da Educação Infantil.

Também é recomendado que os sistemas de ensino repensem as estruturas escolares e seus espaços para além da sua materialidade, mas considerando a interação e experiência das crianças nesses espaços, inclusive privilegiando o estar nas áreas abertas e em contato com a natureza. Os pesquisadores defendem que os profissionais que atuam com projetos de obras e reformas nas escolas tenham uma integração com os educadores de modo a melhor captar a finalidade de cada área. Do mesmo modo é esperado que as crianças e as famílias sejam envolvidos nas discussões de intervenção nos espaços escolares.

No âmbito da gestão escolar, há recomendações para que os municípios se atentem às normativas para renovação de seus quadros de diretores; e que a União considere o debate sobre uma legislação nacional que conduza a escolha de diretores de forma técnica e democrática.

Aplicabilidade

Para apoiar na busca pela qualidade da oferta da Educação Infantil, a OEI também disponibiliza oito cursos de formação online gratuita para atores da Educação Infantil, além de criar um selo de qualidade da primeira infância que será concedido aos municípios que tiverem interesse em aderir à uma proposta de melhoria da qualidade da oferta educacional para as crianças.

Callou explica que um dos grandes objetivos é que as boas práticas em torno da Educação Infantil ganhem replicabilidade. “Que sejam implementadas na condição de política pública. Dessa forma, a partir das observações e análises dessas redes, entendemos que podemos contribuir cada vez mais pra decisões acertadas e mais vinculadas a resultados objetivos.”

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