Editorial

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Lula enfrenta a dura realidade

A situação escapou do controle como areia filtra entre os dedos da mão pretensamente fechada

Não faltam razões a mover a Justiça contra os criminosos acima e o energúmeno abaixo – Imagem: Eduardo Matysiak/Futura Press/Estadão Conteúdo e Patrick T. Fallon/AFP
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Abri uma gaveta esquecida e encontrei uma carta, escrita de próprio punho, que Lula me mandou ainda da prisão de Curitiba, vítima da chamada Lava Jato, obra famigerada de dois criminosos chamados Sergio Moro e Deltan Dallagnol. Dizia Lula: “A história irá mostrar ao mundo o crime, a sandice e as mentiras do Ministério Público de Curitiba, as mentiras de Moro na sentença e também as mentiras do TRF 4”. Prossegue, inclusive, com elogios ao meu comportamento “como jornalista e como homem”. Termina dizendo: “Parabéns a você, à CartaCapital e a todos que, juntos com você, resistem para não deixar o Brasil afundar”. Assina: “O companheiro de sempre”.

Quanto a Moro e Dallagnol, elegeram-se covardemente, o primeiro para o Senado, o outro para a Câmara, com a intenção evidente de evitar contra ambos a ação da Justiça, à qual caberia condenar os criminosos. À época de suas atuações na República de Curitiba, não esqueçamos o apoio entusiasmado que receberam da mídia nativa, à frente do espanto de juristas de fama mundial. Até Cesare Beccaria, autor, em meados de 1700, de uma obra fundamental, ainda válida, intitulada Dos Delitos e das Penas, revirou-se em seu túmulo.

Lembrei daqueles tempos e logo veio um velho sonho, a evocar os dias de hoje, quando a nossa terra desmesurada soçobra em intermináveis problemas. O povo está com fome e vive em grande parte ao relento, enquanto o governo é ameaçado pelo próprio líder da Câmara dos Deputados, Arthur Lira, razão de um sobressalto ao escrever seu nome. O conjunto da obra é assustador, o Judiciário é um poder inconfiável, comandado pelo STF, que se sobressai em pompa inútil e desfaçatez sem limites, sentinela falida da Constituição Cidadã do doutor Ulysses Guimarães.

Inesquecível o apoio maciço da casa-grande e da mídia nativa à Lava jato e ao advento de Jair Bolsonaro

No contexto, única exceção a do ministro Alexandre de Moraes, ao passo que o resto da turma empolada se exibe diariamente na televisão, na contramão dos comportamentos discretíssimos e silenciosos aos ouvidos populares a distinguir as altas Cortes dos países democráticos e civilizados. As soluções destinadas a sanear e recompor a situação não são tomadas, a começar por um definitivo e fatal processo para nos livrar de vez de um energúmeno demente como Jair Bolsonaro. E não é que faltem excelentes razões para acioná-lo, em primeiro lugar o genocídio do povo ­Yanomâmi. No entanto, o ex-capitão hoje lidera a oposição, a contar, inclusive, com o próprio apoio do já citado Arthur Lira e de alguns notáveis da ­casa-grande, ainda de pé e brutalmente aguerrida.

Todos sabem da crise e da atuação maligna dos militares – Imagem: Sergio Lima/AFP e Nelson Almeida/AFP

Perco-me em esperanças oníricas, mas até hoje um personagem menor como Anderson Torres, embora preso, nem sequer foi condenado, no país onde tudo se apura ad infinitum, e tudo fica sem a mais pálida chance de alterações. As coisas ficam como estão e há até quem enxergue nisso uma prova da democracia. Mas que democracia no segundo país mais desigual do mundo… Pior só a África do Sul do apartheid. Mais bem cotados na nossa frente outros países africanos, como Serra Leoa e Moçambique. Em compensação, nossa bandeira triunfa pelos estádios do mundo, em caso de vitória ou de derrota, com sua referência positivista pregada no “auriverde pendão”, conforme escreveu Castro Alves.

Patética escrita tanto mais na companhia de uma promessa de progresso que, conforme vemos, é palavra ao vento. Somos vítimas de carências que medeiam na aterradora ausência de um Estado do Bem-Estar Social à falta de saneamento básico em mais de 50% do território. Não é que tenha faltado ao País uma alma valiosa. Se flores logram nascer em matos espinhentos, já me permito imaginar uma florada produzida pela excelente música popular, desde a época distante de Pixinguinha, padroeiro de uma estirpe a incluir, de saída, Noel Rosa, Lupicínio Rodrigues, Lamartine Babo, Ary Barroso e, enfim, Dorival Caymmi, o cantor do dia 2 de fevereiro e de rosas diversas, nosso Teócrito, o poeta grego.

A muleta do poder moderador ainda sustenta as Forças Armadas, com o aplauso do povo ignorante

Aí temos, a circular pelo bairro das fontes coloniais, o precursor dos baianos mais recentes, um deles sem lenço e sem documento, sempre a lembrar Maria Bethânia, como convém. Em outras paragens, Chico Buarque, versejador refinado, e Antônio Carlos Jobim, renovador inspiradíssimo. Em outros campos das artes mais apuradas, nunca entenderei por que o Nobel não premiou Guimarães ­Rosa, gloriosamente preferido pelo derradeiro aluno de Lawrence Terne, ­Machado de Assis, a não desfigurar diante de ­Lima Barreto, ­Euclides da Cunha, Gilberto Freyre, Celso Furtado, ­Graciliano ­Ramos e o pensador ­Raymundo Faoro. Material rico, como se vê.

Já houve o tempo em que Lula era “o cara” aos olhos do presidente dos EUA Barack Obama, para tornar-se belo exemplo mundo afora. Hoje, o exemplo se dá ao contrário. A situação degringolou miseravelmente, como areia a filtrar entre os dedos da mão pretensamente fechada. A população dá-se conta da crise, apontada do Oiapoque ao Chuí. Somente em São Paulo, a locomotiva, os moradores de rua começam a passar de 50 mil. É apenas o começo de uma tragédia de maior porte. Fique firme e claro, contudo: minha amizade por Lula e o apoio de CartaCapital são sempre os mesmos, em qualquer circunstância. •

Publicado na edição n° 1254 de CartaCapital, em 12 de abril de 2023.

Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Lula enfrenta a dura realidade’

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