Edição da Semana

Moro é um candidato fraco e com apelo limitado a setores da classe média

Não se deixe enganar pelas bobagens repetidas pela mídia. Sobra torcida e falta racionalidade nas análises eleitorais

O ex-ministro da Justiça Sergio Moro. Foto: Eduardo Matysiak/AFP
O ex-ministro da Justiça Sergio Moro. Foto: Eduardo Matysiak/AFP

Ninguém aguenta mais a quantidade de bobagens a respeito de pesquisas que inunda a imprensa e o debate político. Um verdadeiro Febeapá. Para quem não conhece, a sigla foi criada há muitos anos pelo jornalista Sérgio Porto e significa “Festival de Besteiras Que Assola o País”. A discussão das sondagens sobre a próxima eleição está repleta de equívocos. Para evitá-los, temos de lembrar de quatro coisas:

1) Quem está de olho nas eleições?

A população brasileira não se interessa muito por política, a não ser perto da eleição. O interesse já foi maior, quando as pessoas estavam mais satisfeitas com o País e suas lideranças. De 2013 para cá, depois que atacar os políticos e a política passou a ser moda, o desinteresse subiu.

Na mais recente pesquisa Vox Populi, apenas 24% dos entrevistados disseram estar “sempre” ou “na maior parte do tempo” interessados em política. Igual ao que ocorre com as “campanhas e as eleições”: 63% não se interessam por elas.

Os resultados variam em função da renda: dizem-se interessadas 17% das pessoas de baixa renda e 40% das que ganham mais. Quanto às campanhas e às eleições, o mesmo padrão: 50% dos que têm renda maior se interessam e apenas 29% dos de renda menor.

A esta altura, a maioria do povo está distante e pouco informada acerca das movimentações de partidos e candidatos. O que quer dizer que, na aferição de oscilações conjunturais (provocadas por declarações, novos apoios ou mudanças de partido, por exemplo), as pesquisas limitam-se, na prática, a identificar os sentimentos de 20% do eleitorado.

2) Pesquisas remotas são de pequena utilidade

Sondagens eleitorais por telefone ou internet servem para mostrar o que pensam as pessoas que têm telefone ou computador e se interessam o suficiente por esses assuntos para responder a longos questionários, na maior parte das vezes aplicados sem interação pessoal.

Depois que voltamos a fazer pesquisas presenciais, na medida em que a pandemia amainou, vimos um retrato da próxima eleição completamente diferente do que tínhamos. Lula ficou maior, Bolsonaro menor e os demais candidatos diminuí­ram de tamanho. A razão é óbvia: quando o método de pesquisa é adequado, mais gente do povo é ouvida. Seus candidatos ficam maiores, enquanto os das classes médias se apequenam. Pesquisas remotas ajudam pouco a entender o eleitorado.

3) Em 2022, faremos nossa nona eleição moderna

Nove eleições não é tanto, mas não é pouco. Há o que aprender com nossa experiência, se a olharmos direito. A próxima eleição não está “mais indefinida” ou com “menos votos na espontânea” que as anteriores. A rigor, a um ano das eleições de 2006, 2010 e 2014, o total de respostas nominais à pergunta de voto sem apresentação de listas pouco passava de 35%, de acordo com levantamentos do Datafolha. No mesmo instituto, em setembro último, chegava a 52% e o espaço para o crescimento de novas candidaturas era significativamente menor.

Lula não está “grande demais” por se contrapor a um desclassificado como Bolsonaro. De 2002 para cá, ele nunca teve menos de 40% das intenções estimuladas de voto, no primeiro turno, em nenhuma eleição, incluindo as duas que venceu, as duas que não disputou porque não quis e aquela em que foi impedido por uma sucessão de atos de força. Podemos ler as pesquisas atuais torcendo pelo candidato que preferimos. O que não podemos é reescrever o passado.

4) É preciso respeitar os números das pesquisas

A elite e a grande mídia são tão antilulistas que só veem aquilo que querem nas pesquisas. Quando se metem a fazer contas, ignoram a aritmética da escola primária. Encantadas com o heroizinho que inventaram, atualmente só especulam a respeito do “potencial de Moro”.

Esse cidadão, em pesquisas presenciais, tem algo abaixo de 10%. É “bem conhecido” por 60% das pessoas e apenas 20% dizem não o conhecer. Entre os 80% que têm alguma informação a seu respeito, 54% dizem que não votariam nele “de jeito nenhum”. Quando o capitão não está na lista, Moro cresce modestos 5 pontos. Em qualquer critério, é um candidato fraco, com apelo limitado a setores da classe média (na Vox mais recente, obtém 2%, quase traço, entre os mais pobres).

Pode crescer? Claro, quem é pequeno sempre tem espaço para melhorar. Mas só com muita torcida é possível imaginá-lo disparando para tirar o capitão do páreo. Quanto a Lula, continuará lá na frente, como favorito. O povo pode ter pouco interesse no dia a dia da política, até porque sua vida concreta é muito difícil, mas tem lado. As pesquisas mostram qual. •

PUBLICADO NA EDIÇÃO Nº 1186 DE CARTACAPITAL, EM 2 DE DEZEMBRO DE 2021.

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