Edição da Semana

Flexibilização das regras de isolamento social preocupa especialistas

Existe uma grande expectativa em relação ao Carnaval de 2022, festa que pode acentuar a contaminação pelo coronavírus

No Rio, cai a máscara. (FOTO: David Gannon/AFP)
No Rio, cai a máscara. (FOTO: David Gannon/AFP)
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Com praticamente 55% da população brasileira totalmente imunizada contra a Covid-19 e uma redução nos casos de contaminação e de mortes pela doença, estados e municípios se utilizam desses dados para reduzir os protocolos sanitários de controle. A flexibilização tem preocupado a comunidade científica, que teme um aumento descontrolado de novos casos.

Em Minas Gerais, São Paulo e Rio de Janeiro, os estádios de futebol estão autorizados a encher as arquibancadas, para alegria dos torcedores. Na segunda-feira 1°, São Paulo também liberou a capacidade máxima de público sem a exigência de distanciamento social em teatros, cinemas, casas de eventos em geral, bares e restaurantes, inclusive ­shows com público em pé. A medida não desobriga, porém, o uso de máscara e só vale para quem apresentar um comprovante do ciclo completo de vacinação.

No Rio de Janeiro, o governador Cláudio Castro aboliu a obrigatoriedade do uso de máscara em locais abertos, alegando a queda no número de internações por Covid-19 na rede pública, que, segundo afirma, não chega a 3%. O estado tem cerca de 52% da população com a segunda dose da vacina, porcentual abaixo do considerado suficiente pelos cientistas para provocar a imunidade de rebanho.

“Não temos ainda o porcentual de vacinação adequado para a flexibilização. Precisamos, no mínimo, de 80% dos brasileiros vacinados com as duas doses. Quando você tem essa flexibilização, sempre é possível um aumento de casos. Isso aconteceu em vários países e pode acontecer aqui, apesar do número grande de infectados que tivemos pelo controle inadequado da pandemia, o que aumenta a imunidade da população. Mas, de qualquer jeito, é um risco abrir dessa maneira neste momento”, alerta Marcos Boulos, infectologista e professor de Medicina da USP.

Lorenzoni proíbe demitir não vacinados. (FOTO: Romério Cunha/Casa Civil/PR)

Para o Conselho Nacional de Secretários de Saúde, o uso de máscara continua a ser uma medida essencial na proteção contra a Covid-19, mesmo com o avanço da imunização, uma vez que as vacinas não impedem a transmissão do vírus. A entidade lembra que os espaços abertos, a depender da aglomeração, são locais de alta transmissão. O Conass recomenda que os gestores tomem decisões baseadas nos dados epidemiológicos e no avanço da vacinação, mas observem a situação em sua totalidade, considerando os cenários nacional e internacional, sempre apoiados na ciência.

Na Europa, vários países registraram alta na contaminação pelo coronavírus depois da flexibilização dos protocolos sanitários, o que deu início a uma quarta onda da pandemia. A média no continente é de 1,5 milhão de novos casos e 19 mil mortes por semana, o que tem chamado a atenção da Organização Mundial da Saúde. Nos Estados Unidos, o contágio também voltou a crescer depois que o governo afrouxou as regras de combate à doença, como a não obrigatoriedade do uso de máscara. Na China, o governo decidiu endurecer novamente os protocolos, para deter o avanço da doença. O ­país vai sediar os Jogos Olímpicos de Inverno, em fevereiro, e quer evitar a proliferação do vírus antes do evento. Após detectar surtos em diferentes regiões, o governo chinês determinou o fechamento de fronteiras, lockdowns e quarentena rigorosa, além de restringir viagens entre as províncias e intensificar as testagens. As autoridades também sugeriram à população que estoque alimentos nas próximas semanas.

Apesar dos altos índices de infecção e morte, o Brasil só pensa no Carnaval

Sobre o limite entre endurecer e afrouxar as regras de combate à pandemia, o ex-ministro Arthur Chioro defende a parcimônia no processo de flexibilização. “Nem sequer conseguimos a vacinação dos menores de 12 anos e, nas demais faixas etárias, temos uma infinidade de brasileiros que tomaram uma dose e não retornaram para completar o calendário vacinal. Não sou contrário ao retorno das atividades progressivamente, é importante esse momento, mas é preciso manter a obrigatoriedade da máscara, inclusive em ambientes externos, e o distanciamento mínimo. Para que a gente tenha a perspectiva de poder voltar a um certo normal a partir do fim do ano, quando provavelmente alcançaremos a cobertura vacinal adequada, é fundamental se proteger agora. E ter o compromisso de, caso se identifique o aumento de contaminação, mesmo que isso não signifique o crescimento imediato de óbitos, retroagir nas medidas.”

O cineasta, ex-secretário municipal de Cultura de São Paulo e diretor da Pandora Filmes e do Cine Belas Artes André Sturm defende a retomada das atividades culturais. Desde o começo da pandemia, afirma, o setor tem sido discriminado pelo Poder Público e recebe um tratamento diferente das demais atividades econômicas. “Temos dificuldade de mobilizar o público, diante do desestímulo e da satanização que tentam fazer com a cultura, o que é um grande erro. Por que ir ao teatro ou ao cinema é mais arriscado que ir ao salão de beleza, ao banco ou ao shopping?”, questiona. Em relação aos cuidados em locais como cinemas e teatros, Sturm cita o controle sanitário que garante a segurança do público, embora muitos dos antigos frequentadores continuem reticentes em voltar a esses espaços. No Cine Belas Artes, mesmo com a liberação de 100% da capacidade, na prática a ocupação não passa de 40%. O produtor aposta no lançamento de ­Marighella, filme dirigido por Wagner Moura, para elevar esse porcentual nas próximas semanas.

A vacinação avança, mas o País está longe da imunização de rebanho. (FOTO: Pedro França/Ag.Senado e Cristine Rochol/SMS/Prefeitura de Porto Alegre)

Existe uma grande expectativa em relação ao Carnaval de 2022, festa que pode acentuar a contaminação pelo coronavírus. O prefeito de São Paulo, Ricardo Nunes, anunciou a folia. O Rio de Janeiro, embora não tenha oficializado, dá sinais de que fará o tradicional desfile das escolas de samba e permitirá os blocos de rua. Recife, Olinda e Salvador também se programam para a realização do evento. “A situação epidemiológica de hoje não nos dá segurança para decidir por esta abertura. Além disso, não são desenvolvidas ações de vigilância epidemiológica, considerando o acompanhamento da taxa de transmissão e o monitoramento do genoma viral, assim como o desenvolvimento de estratégias de comunicação e educação em saúde, objetivando a ampliação da consciência sanitária da população. Mesmo considerando a importância do lazer e da recuperação da economia, tais medidas poderão trazer mais danos”, destaca Bernadete Antunes, médica sanitarista e professora de Saúde Coletiva da Universidade de Pernambuco.

Outra grande polêmica que envolve medidas de segurança contra o avanço da Covid-19 é a exigência, por parte de algumas empresas, de vacinação de seu quadro funcional. Na segunda-feira 1º, o governo federal publicou uma portaria que proíbe a cobrança. O documento impede o empregador “na contratação ou na manutenção do emprego do trabalhador, exigir quaisquer documentos discriminatórios ou obstativos para a contratação, especialmente o comprovante de vacinação”. “A portaria está em descompasso com as decisões do Supremo Tribunal Federal. O STF tem decidido que prevalece a proteção coletiva sobre a liberdade individual e, por isso, há a necessidade de vacinação. Então, eu entendo que a portaria é inconstitucional, porque fere um direito fundamental, o direito à saúde, e não há nenhum tipo de discriminação em exigir que os trabalhadores apresentem a carteira de vacinação em dia. Isso, na verdade, é uma medida de proteção coletiva”, explica Cláudio Ferreira, advogado trabalhista e presidente do Conselho de Direitos Humanos da OAB Pernambuco.

Na China, o governo recomenda estocar comida. Na Europa, o repique de casos assusta

No atual contexto da pandemia no Brasil, o infectologista José David de Brito defende um programa de testagem em massa, com o uso de testes rápidos de antígeno. Além de auxiliar no controle da pandemia, a medida iria subsidiar os governos municipais e estaduais e a iniciativa privada na flexibilização de protocolos de segurança, seja para eventos culturais e esportivos, seja na relação com o trabalhador.

“Seria uma ferramenta importantíssima para consolidar essa evolução, detectar os infectados e colocá-los em isolamento para retirarmos cada vez mais a carga de transmissão, que ainda é alta no Brasil. Esse protocolo de testagem seria muito fácil e barato de ser adotado em grandes eventos, escolas, instituições, entrada de estabelecimentos de saúde, restaurantes. A tecnologia facilita, com totens detectores de sinais que poderiam identificar casos de Covid-19. Dessa forma, a gente faria uma triagem muito intensa em pouquíssimo tempo. Deveria ser prioridade, mas, infelizmente, muitos decretaram que é assim mesmo e terão de conviver com a circulação do vírus. Levado ao limite, teremos de aceitar que a morte por Coronavírus continue a ser uma companheira de viagem, o que é bastante lamentável.” Neste início de novembro, o número de mortos pelo vírus ultrapassou a marca de 5 milhões no mundo. No Brasil, o total está prestes a superar os 610 mil óbitos.

PUBLICADO NA EDIÇÃO Nº 1183 DE CARTACAPITAL, EM 4 DE NOVEMBRO DE 2021.

Fabíola Mendonça
Repórter correspondente de CartaCapital em Pernambuco

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