Edição da Semana

Bolsonaro acha que consegue se reeleger. Lhe falta senso de ridículo

O favoritismo de Lula só aumenta, à medida que o tempo passa e o ex-capitão afunda

Foto: EVARISTO SA / AFP
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O tempo voa. Em menos de um ano, vamos eleger o próximo presidente, se, é claro, a minoria de autoritários e supremacistas não prevalecer. São poucos, mas poderosos e ricos, estão dispostos a virar a mesa e, podemos ter certeza, vão tentar.

Trata-se da eleição menos incerta do Brasil moderno. O que não quer dizer que seu desfecho seja inteiramente previsível. Pela quarta vez, um novo presidente será escolhido com alguém malquerido e mal avaliado no cargo. Aconteceu com Fernando Henrique Cardoso em 2002, Michel Temer em 2018 e, na primeira eleição depois da ditadura, com José Sarney. Os três chegaram ao fim do governo a se arrastar em níveis baixíssimos de aprovação e imagem horrível. A má avaliação de Sarney e FHC traduziu-se na vitória de candidatos de oposição e pôs fim a seus planos de continuidade. Temer, que podia disputar um segundo mandato, desistiu (apesar da vaidade), de olho no futuro. Poupou-se de um vexame de proporções bíblicas.

À diferença deles, Jair Bolsonaro é um franco-atirador e o que mais quer é permanecer refestelado no poder. Acha que consegue se reeleger, pois lhe faltam realismo e senso de ridículo. Pouco se importa com o fato de ser um mandatário de quem a maioria não gosta e considera péssimo como presidente. Não tem compromissos político-partidários e, com ele, é tudo ou nada. Ou permanece no Planalto, para se aproveitar do cargo, ou acaba de volta à Câmara dos Deputados, com o voto da Vila Militar e das milícias da Zona Oeste carioca.

Podemos, portanto, apostar que Bolsonaro será candidato, ignorando o que aconteceu com os antecessores. Também que fará tudo para impedir que outros se consolidem. Os dois fatos afetam a maior mistificação da próxima eleição, a ideia de que falta uma “terceira via”, tese do coração de banqueiros, industriais e analistas da mídia corporativa. Além da candidatura das esquerdas, em torno de Lula e do PT, e a de Bolsonaro, esse pessoal quer criar mais uma. Desenhada, nem se precisa dizer, de acordo com o figurino que têm na cabeça.

O problema para quem sonha com o “nem Lula nem Bolsonaro” é o tamanho diminuto das bases dessas candidaturas

Recentemente, dois desses ricaços se pronunciaram. O banqueiro explicou seu sonho: um candidato que “possa capitanear um discurso de centro (…) mais positivo, mais pró-Brasil”. O grande industrial foi mais explícito: disse que não quer “(Bolsonaro) porque não é democrata, é perigoso (…), (Lula) porque traz uma agenda velha, de atraso, de intervenção econômica”. Ambos estão no seu pleno direito, igual aos outros quase 150 milhões de eleitores aptos a votar no ano que vem. Espera-se que todos façam isso: escolham o que querem na eleição e votem como acharem melhor. Banqueiros e donos de indústria têm direitos iguais aos trabalhadores, aposentados, funcionários públicos, desempregados, estudantes. Se todos podem votar, por que um bilionário estaria proibido?

Que façam como todo mundo: procurem o candidato de seus sonhos no amplo cardápio de nomes que o sistema político oferece e que sempre pode aumentar. Quem sabe um dos dois não se habilita? O que não podem, na democracia, é impedir que os demais eleitores tenham direitos de escolha iguais aos seus e prefiram outras opções. Lula, talvez.

 

Essa conversa de terceira via não tem qualquer sentido. Primeiro, porque ela existe, assim como a quarta, a quinta, e assim por diante. A mídia mostra as movimentações de pré-candidatos de todos os tipos e as pesquisas lhes dão tamanho, perfil, e revelam se sobem ou caem (alguns levantamentos chegam a testar até 12 nomes ou, se quisermos, “vias”).

Em segundo lugar, imaginar que todas as forças e projetos de candidatura, fora da esquerda liderada pelo PT e do bolsonarismo, caberiam em uma só “via” é um contrassenso, em um país de tradição multipartidária e história de personalismos na liderança política. Só candidatos que não decolam desistiriam em favor de outro, pouco ou nada tendo a acrescentar ao beneficiado. Que convergência substantiva pode haver entre liberais e populistas, entre centro e extrema-direita? Se a única identidade que compartilham é não ter simpatia por Lula e Bolsonaro, que governo faria o titular da tal “terceira via”, em termos políticos e administrativos, caso ganhasse?

A quem perde seu tempo com esse assunto basta ver que o problema não está em criar uma “terceira via”, mas no tamanho que têm as bases dessas candidaturas, todas pequenas e pouco representativas. Nosso sistema político funciona com ampla liberdade para a existência dos partidos e eleições em dois turnos. As “vias” oferecidas ao eleitorado não se organizam artificialmente pelo lado da oferta, mas da procura real. No primeiro turno, muitas candidaturas se apresentam e o eleitor escolhe a que prefere. No segundo, procura a que mais se aproxima da preferida (ou mais se afasta da indesejada). No Brasil, no primeiro turno, sempre há mais que três “vias”. No segundo, apenas duas. Três, nunca.

Além das demais, há, é claro, a candidatura Lula, a evidente “primeira via” da eleição. Com Bolsonaro no lugar de “segunda” e vários projetos de baixa atratividade popular de “terceira”, o favoritismo do petista só aumenta, à medida que o tempo passa e o ex-capitão afunda. Com tudo que o ex-presidente aprendeu em sua vida política, nem se precisaria dizer, mas há um cuidado a tomar. Os eleitores não gostam de candidatos que se esquecem de que o voto é uma manifestação de confiança e apreço, e que cada um deles precisa ser conquistado. O “já ganhou” não ganha eleição.

PUBLICADO NA EDIÇÃO Nº 1178 DE CARTACAPITAL, EM 7 DE OUTUBRO DE 2021.

Marcos Coimbra

Marcos Coimbra
Sociólogo, é presidente do Instituto Vox Populi e também colunista do Correio Braziliense.

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