Economia

Presidente do Banco Central Europeu desfere duro golpe na austeridade

Em fim de mandato, Mario Draghi causou arrepios a alemães, holandeses e até mesmo franceses

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Às vésperas de sua saída da presidência do Banco Central Europeu, Mario Draghi causou arrepios a alemães, holandeses e até mesmo franceses. Na contramão dos conservadores que comandam os bancos centrais dos “países do norte”, Draghi deu curso ao afrouxamento monetário e à redução das taxas de juros, negativas em termos nominais e reais. Para completar as desfeitas, ciente da impotência da política monetária para conter as tendências recessivas das economias do euro, o italiano concitou os governos ao exercício do impulso fiscal.

(Anátema. Paulo Guedes e sua banda teriam um piripaque.)

Nos Estados Unidos, o previsível mercurial Donald Trump, temendo a valorização do dólar em face da moeda europeia, investiu contra as vacilações e as cautelas do presidente do Federal Reserve, Jerome Powel. Não bastasse a ofensiva de Draghi na política monetária, o presidente americano topou com os drones que atacaram a Arábia Saudita e soaram um alerta para as trapalhadas ianques que se repetem no Oriente Médio. Os mercados estão de cabelo em pé. As pelugens se eriçam não tanto pelo episódio, grave em si mesmo, mas sobretudo por conta da intensificação das tensões na região.

As incertezas multiplicam-se no ambiente geopolítico do mundo globalizado e os temores de uma recessão europeia e dos EUA não aliviam a barra. Os rendimentos dos títulos curtos dos governos suplantam os ganhos dos papéis mais longos.

Os economistas estão de olho nos juros negativos e interpretam a “inversão da curva” como um aviso prévio ao crescimento pífio das economias. A turma dos mercados busca refúgio na valorização dos ativos financeiros oferecidos pelos Tesouros Nacionais. Nas últimas quatro décadas de desregulamentação financeira, o sistema de crédito teve liberdade para inflar o valor das ações e dos títulos de dívida – direitos à riqueza e à renda futuras, suscitando episódios especulativos e das crises de crédito.

O BCE deu curso ao afrouxamento monetário e à redução das taxas de juros

Foram importantes as mudanças na esfera financeira do capitalismo global. As funções dos bancos tradicionais passaram progressivamente para os novos mercados ocupados pelos bancos-sombra. A velha prática bancária de criar empréstimos para gerar depósitos foi substituída pela securitização de ativos e passivos. Os depósitos à vista perderam participação nos passivos bancários. As grandes instituições construíram uma teia de relações de débito-crédito entre bancos de depósito, bancos de investimento e bancos-sombra.

A chamada desregulamentação financeira mostrou de forma cabal como a “natureza” intrinsecamente especulativa do capital monetário-financeiro se apoderou da gestão empresarial. Estimulou as práticas destinadas a aumentar a participação dos ativos líquidos na composição do patrimônio, inflar o valor desses ativos e conferir maior poder aos acionistas.

Não há como discordar de Jürgen Kocka em seu livro Capitalism. A lógica dos mercados de capitais penetrou de forma mais direta na estratégia das empresas, diferentemente dos padrões do “capitalismo dos gerentes” que prevaleceu até os anos 70 do século XX. O mercado de capitais tornou-se mais ubíquo e compulsivo, estreitando o raio de manobra das empresas. As companhias estão mais parecidas umas com as outras e, até mesmo no capitalismo alemão, a influência dos bancos tem diminuído. Isso significa que se acentuou o controle dos mercados de capitais e de suas regras sobre as estratégias empresarias. Os representantes dos fundos exercem rígido controle sobre os resultados financeiros e são, eles mesmos, controlados pela ditadura dos resultados trimestrais que informam os analistas de mercado encarregados de classificar as ações das companhias listadas nas bolsas de valores. Nos anos 1960, um investidor carregava seu portfólio de ações por nove ou dez anos. Hoje, o prazo médio é um ano.

No controle. Na globalização, o mercado de capitais tornou-se mais compulsivo e ubíquo, estreitando o raio de manobra das empresas, reféns dos acionistas

Kocka acentua a mudança profunda no capitalismo promovida pela expansão das novas formas financeiras ao longo das últimas décadas. “A diferenciação funcional avançou significativamente: as decisões de mobilizar capital e investir foram separadas de forma ainda mais aguda das demais dimensões das empresas líderes.”

No artigo “Product differentiation, oligopoly, and resource allocation”, o economista Bruno Pellegrino, da Universidade da Califórnia, investiga as tendências à concentração empresarial nos Estados Unidos e seus efeitos sobre o investimento em novas máquinas e instalações.

Pellegrino constata que o número de empresas públicas nos Estados Unidos diminuiu dramaticamente nos últimos 20 anos. Caiu de cerca de 7,5 mil em 1997 para alguma coisa em torno de 3,5 mil em 2017.

Enquanto em 1995 a grande maioria das empresas de porte recorriam a ofertas públicas de ações (IPOs), hoje praticamente elas se empenham em fusões e aquisições. A literatura financeira tem acusado e documentado as chamadas “aquisições assassinas”: o adquirente tem a clara intenção de obstruir o desenvolvimento de novos produtos que possam constituir uma ameaça concorrencial aos produtos existentes.

Apoio à demanda. Draghi conclamou os países a dar um impulso fiscal a suas economias como forma de evitar um novo ciclo de recessão no planeta

As ondas de fusões e aquisições elevaram o grau de centralização da propriedade: os 25 maiores bancos do mundo tinham 28% dos ativos dos mil maiores bancos em 1997. Em 2009, mais de 45%. Dos 4 trilhões de dólares de transações diárias com moedas, 52% são realizadas pelas cinco maiores instituições. No que tange aos bancos de investimento, os 10 maiores concentram 53% das receitas. Baseados principalmente nos 10% mais ricos, que geram 80% de suas receitas, os bancos conglomeraram-se e se tornaram verdadeiros supermercados financeiros, capazes de oferecer todo tipo de serviço a pessoas físicas e jurídicas.

Em artigo recente, publicado na Review of Political Economy, o economista Cedric Durant identifica quatro narrativas que procuram explicar o encolhimento da relação entre lucros empresariais e investimento “produtivo”.

No vácuo. O Federal Reserve de Powel anunciou na quarta-feira 18 um corte na taxa básica de juros nos EUA

1. Os rentistas obrigam as empresas a realizar pagamentos para os detentores de títulos de dívida e direitos de propriedade, o que reduz os recursos disponíveis para o investimento industrial;

2. Há uma substituição dos investimentos em ativos reais pela acumulação financeira de curto prazo. E uma mudança qualitativa nas estratégias de gestão financeira das empresas: o declínio das taxas de juros propiciou o avanço dos pagamentos de dividendos exigidos pelos acionistas. Os acionistas também enchem a burra por ocasião das fusões e aquisições, além da maníaca recompra das próprias ações;

3. A terceira narrativa, da globalização, aborda os impactos da maior integração entre as economias. Nesse ambiente, as empresas dos países industrializados transferem os investimentos para as regiões de baixos custos da mão de obra às expensas do investimento nos países de origem;

4. A quarta narrativa, diz Durand, propõe estabelecer uma forte ligação entre a crescente concentração e centralização do controle das empresas, a monopolização dos mercados, e a estagnação dos investimentos.

As incertezas multiplicam-se no ambiente geopolítico do mundo globalizado

Lawrence Summers, o economista que deflagrou o debate em torno da estagnação secular, exprime suas perplexidades com as taxas de juros reais muito baixas.

Diz ele: “As baixas taxas de juros são mais bem compreendidas em termos de mudanças nas relações entre poupança e investimento ou, de modo equivalente, em termos das alterações nas formas de posse da riqueza almejada pelos consumidores (sic) e no desejo de acumulação de capital pelos produtores”.

Desconfio que os “consumidores” não decidem a forma de possuir riqueza. Parece que são os próprios “produtores”.

Luiz Gonzaga Belluzzo

Luiz Gonzaga Belluzzo
Economista e professor, consultor editorial de CartaCapital.

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