PIB Privado? Economistas divergem sobre existência de modelo do governo

Para uns, o conceito não está sequer nos livros de economia. Para outros, é um 'modelo de transição' a la Paulo Guedes

O ministro da Economia, Paulo Guedes (Foto: Alan Santos / PR)

O ministro da Economia, Paulo Guedes (Foto: Alan Santos / PR)

Economia

O anúncio do “PIBinho” de 1,1% no primeiro ano de Jair Bolsonaro decepcionou, e, apesar de tentar mascarar com cortina de fumaça criada por comediantes, o governo bem sabe disso. Na noite da quinta-feira 5, porém, a Secretaria de Comunicação do governo publicou, nas redes sociais, que o “PIB Privado” mostrava, por outro lado, que o país estava crescendo. A afirmação gerou dúvidas entre especialistas do campo econômico, que questionam até mesmo a existência do medidor de riqueza de um país a partir do segmento privado.

“Isso é um malabarismo contábil, uma coisa totalmente sem sentido. Eu jamais tinha ouvido falar desse conceito até hoje, vários outros economistas também ficaram abismados. O PIB é o PIB. É a riqueza gerada, produzida no país, consumida por famílias, por empresas e pelo governo. É um liberalismo infantil”, diz Alexandre Andrada, professor do Departamento de Economia da UnB (Universidade de Brasília).

Na publicação, o governo argumentava que “o Estado deixa de ser o protagonista na economia do país e dá espaço à iniciativa privada, o que se traduz em crescimento sustentável, sem manipulação do poder público”, explicou. Uma nota informativa do Ministério da Economia também foi liberada com a mesma argumentação.

Apesar do estranhamento de alguns colegas, Margarida Gutierrez, professora da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro), vê a expressão PIB Privado como parte de um “modelo de transição” que privilegiaria os incentivos aos gastos no setor privado em detrimento do investimento público.

“As atividades privadas estão ganhando relevância para explicar os resultados do PIB. Diferente do passado, em que tínhamos um modelo de crescimento onde as recuperações cíclicas vieram do impulso fiscal e do comércio internacional”, diz Gutierrez.

Apesar dos resultados baixos, a economista é uma apoiadora das medidas econômicas adotadas pelo governo até o momento. Para ela, o desconhecimento do PIB Privado mostra ignorância de novos rumos tomados pelo país. “O que o governo está fazendo agora, e isso é novo no Brasil, nós temos questões que agora apareceram. O gasto privado é um conceito de economia, não foi inventado agora. A relevância dele é que está aparecendo agora. O PIB é uma coisa contábil? Sim, mas possui uma dinâmica nada contábil”, argumenta.

Para Alexandre Andrada, ver um ponto positivo no PIB Privado demonstra um esforço para “enxergar uma coisa boa num resultado medíocre”. Ele relata que, na contabilidade social, nunca havia ouvido falar do conceito até a publicação da Secom.

“O PIB mede o quanto de mercadorias finais foram produzidas num país num determinado tempo, para saber o quanto de nova riqueza foi jogada na economia. Nem sempre o aumento do gasto do governo é bom, mas, por outro lado, a redução do gasto do governo não é necessariamente boa em uma situação como a atual, de muito desemprego e capacidade ociosa. Isso não é motivo para se comemorar, a não ser nessa visão ideológica rasteira e exagerada que a gente tem visto”, critica Andrada.

Para Gutierrez, por outro lado, o impacto do contexto do comércio internacional em 2019 também impactou o resultado final das exportações do Brasil – ela cita a recessão sofrida pela Argentina, até então governada pelo neoliberal Maurício Macri -, mas “qualquer coisa diferente disso [da política econômica atual] vai nos levar ao caos”.

Já para Andrada, problemas e discrepância da distribuição do Bolsa Família, por exemplo, que está com uma fila bem maior do que a alegada pelo governo, demonstram como segurar gastos estatais desacelera o consumo das famílias. “O Brasil não está se recuperando, e o remédio é o crescimento econômico”, diz.

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