Economia

Parente é serpente

A briga dos irmãos Cid e Ciro Gomes provoca uma cisão no PDT do Ceará e ameaça contaminar todo o partido

Disputa fratricida. As rusgas se aprofundam desde a eleição de 2022 – Imagem: Waldemir Barreto/Ag. Senado
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A briga política, jurídica e familiar dos irmãos Ferreira Gomes arrasta-se por um ano e meio no Ceará e abala as estruturas do PDT, partido trabalhista criado por Leonel Brizola há mais de 40 anos. No auge, a legenda chegou a ter 18 deputados federais só pelo estado do Rio de Janeiro. Hoje, a bancada completa na Câmara conta com 17 parlamentares representando as 27 unidades da federação e corre o risco de perder ao menos quatro deles, caso o senador Cid Gomes vença a batalha jurídica e resolva deixar o PDT cearense, levando consigo todo o seu grupo político. Dos cinco deputados federais pelo estado, quatro são “cidistas” (além de um suplente), assim como dez dos 13 estaduais (e outros três suplentes) e mais de 40 dos 55 prefeitos pedetistas. Caso isso se concretize, é grande o risco de o PDT ­cearense ser dizimado, enfraquecendo o partido também em nível nacional.

A possibilidade dessa debandada foi parar na Justiça, em uma queda de braço entre Cid Gomes e o deputado federal André Figueiredo, ligado a Ciro Gomes. Presidente estadual do PDT, Figueiredo licenciou-se do cargo, em junho, para assumir interinamente a presidência do PDT nacional, depois que Carlos Lupi se afastou para comandar o Ministério da Previdência no governo Lula. Vice da legenda no Ceará, Cid passou a comandar o diretório estadual e aprovou, em agosto, uma carta de anuência que liberava o presidente da Assembleia Legislativa, Evandro Leitão, a deixar a agremiação sem perder o mandato, ferindo o princípio da fidelidade partidária. A decisão abre brecha para que outros parlamentares façam o mesmo, o que provocou uma reação imediata da ala “cirista”, que judicializou o caso.

O clima esquentou ainda mais após Cid tentar aprovar o apoio formal do PDT ao governo Elmano de Freitas, do PT. Figueiredo suspendeu sua licença do diretório cearense, destituiu Cid e reassumiu o comando local do partido. Nova ação judicial e uma liminar devolveram ao senador a condução da legenda. A partir daí, os ciristas levaram o caso para a Executiva Nacional, que, no fim de outubro, resolveu intervir no PDT cearense. Acionada por Cid, a Justiça derrubou a intervenção. Ele alega que as decisões tomadas quando esteve à frente do partido foram aprovadas pela maioria do diretório e classificou a intervenção como um ato “autoritário.”

“Se não há a conciliação, o que deve prevalecer é o sentimento da maioria. O PDT do Ceará dividiu-se. Tentou-se ao máximo fazer uma reconciliação, mas eles não desejam isso. Querem, sendo minoritários, comandar o partido. Isso não é razoável, a minoria tem de se conformar em ser minoria. Comandar o partido, me perdoe, não é razoável. E a direção nacional deveria se esforçar para fazer uma unificação e, quando não conseguir, precisa respeitar a decisão da maioria”, defendeu-se Cid Gomes, acusando Figueiredo de ser parcial na condição de presidente nacional da legenda. “O senador pode sair na hora que quiser, ele não tem mais clima de permanecer no PDT. E os parlamentares vão ter de ou judicializar a carta de anuência ou aguardar o prazo da janela que é março de 2026”, rebateu André Figueiredo, demonstrando que o PDT vai cobrar a fidelidade partidária de seus parlamentares e brigar na Justiça por esses mandatos.

Ao menos quatro deputados federais cogitam abandonar o partido trabalhista

Na terça-feira 14, Cid reuniu-se com mais de 40 prefeitos para discutir a possibilidade de desfiliação do PDT, uma vez que, diferentemente dos deputados, eleitos no sistema proporcional, os prefeitos, assim como o próprio senador, não precisam de anuência do partido para se desfiliar e, portanto, não correm o risco de a legenda pedir o mandato de volta. Segundo Cid, o grupo está avaliando duas alternativas: permanecer no PDT e lutar para renovar o diretório por mais quatro anos ou sair coletivamente. “O que está acontecendo é uma aberração. O grupo do senador está indo contra a Justiça Eleitoral, que diz que o mandato pertence ao partido. Está atuando contra o interesse do próprio PDT. Se ele quer seguir outro caminho, tudo bem, mas os trâmites da Justiça e da legalidade no PDT serão respeitados”, defende Roberto Viana, cirista e integrante dos diretórios estadual e nacional. No núcleo familiar, Lia Gomes, deputada estadual, Ivo Gomes, prefeito de Sobral, e Lúcio Gomes, da Companhia Docas do Ceará, estão do lado de Cid.

Esta crise tem origem nas eleições do ano passado e foi potencializada com a aproximação do pleito municipal de 2024. Em 2022, o PDT lançou para governador Roberto Cláudio, ex-prefeito de Fortaleza, em detrimento da então governadora Izolda Cela. Cláudio é ligado a Ciro e Izolda, a Cid. O racha implodiu a aliança entre PDT e PT, pois os petistas não aceitavam a indicação de Cláudio e colocavam como condição para a manutenção da coligação a candidatura de Izolda. Derrotado internamente, Cid não teve participação ativa na campanha de Cláudio e, agora, defende a adesão do partido ao governo Elmano de Freitas, o que levou Ciro a chamá-lo de “traidor”. A sucessão de Fortaleza também coloca Ciro e Cid em lados opostos. O ex-presidenciá­vel defende a reeleição do prefeito José Sarto, enquanto o senador quer lançar Evando Leitão, que deve se filiar ao PT.

“O núcleo duro do PDT há muito tempo estava sob o comando dos irmãos e cada um cumpria um papel muito específico dentro do grupo. Enquanto Cid cuidava das questões domésticas, mais internas, sendo um artífice da coalizão e, portanto, tendo um bom trânsito com deputados e prefeitos, Ciro cuidava mais das questões nacionais, dos grandes projetos. Por muito tempo eles concordaram e caminharam juntos. Em algumas eleições pon­tuais, havia ali algumas divergências, mas nada passível de uma crise como a que a gente vê agora”, analisa a socióloga Monalisa Torres, pesquisadora e professora da Universidade Estadual do Ceará.

“O PDT está se descaracterizando, diminuindo. Há gente boa lá ainda, mas é minoria e não ocupa cargos de importância, porque nesses o Lupi colocou a família e os amigos mais chegados. A crise no Ceará tem a ver com os desarranjos do partido ao longo do tempo. Se tivesse alguém com autoridade política no PDT, não teria chegado a esse ponto a briga de Ciro e Cid. Faltou consistência política do partido e, agora, vemos uma crise aguda que não terá solução sem alguns danos. O PDT perdeu o fio da história, ­Lupi deixou para trás o viés trabalhista de Brizola e levou o partido para o fisiologismo”, critica Vivaldo Barbosa, ex-pedetista e brizolista histórico. •

Publicado na edição n° 1286 de CartaCapital, em 22 de novembro de 2023.

Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Parente é serpente’

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