Economia

Onde está a economia brasileira (e para onde ela vai)

Com o teto de gastos, redução de investimentos e política monetária fortemente restritiva, surpresa seria uma economia em franco crescimento

Crédito: Roberto Parizotti/FotosPublicas
Crédito: Roberto Parizotti/FotosPublicas

No dia 2 de dezembro, o IBGE divulgou o resultado para o PIB brasileiro referente ao terceiro trimestre de 2021. A expectativa era de que a taxa de crescimento ficasse em torno de 0%, o que já representaria um resultado extremamente ruim, uma vez que a economia brasileira permaneceria estagnada. Mas para a surpresa de poucos, a economia registrou uma queda na taxa de crescimento, com um resultado de -0,1% em relação ao segundo trimestre de 2021.

A Secretaria de Política Econômica do Ministério da Economia argumentou, em nota, que “mais importante do que considerar o número do crescimento, é observar a sua qualidade”. Não é novidade. Faz algum tempo que a atual equipe econômica defende a narrativa de que “os números vão mal, mas a economia vai bem”.

O PIB não é, de fato, o melhor instrumento de mensuração para a qualidade de vida da população de um determinado país. O motivo? Eventos adversos podem ser contabilizados de forma positiva em seu resultado (por exemplo, se estamos em guerra, a produção de suprimentos se eleva e, com ela, o PIB), sendo razoável supor que esses eventos não aumentam a qualidade de vida da população. Ainda necessitamos, entretanto, de evidências que corroborem a tese defendida pelo governo, segundo a qual a recente piora do PIB é consequência de uma melhora na qualidade de variáveis que o impactam diretamente. Controverso e paradoxal.

Um dos pontos da nota diz respeito ao financiamento dos investimentos, que hoje seria “ financiado majoritariamente pelo setor privado”. Ainda segundo a SPE, os recursos, através de decisões do setor privado, “vão para onde é mais eficiente e não mais para onde o Estado determina.” A ideia de que o setor privado é necessariamente mais eficiente que o público na concessão de crédito tem forte conteúdo ideológico e ignora dois aspectos fundamentais.

O primeiro é que as concessões de crédito pelo setor privado se guiam pelos critérios de lucratividade e risco, o que acaba por quase inviabilizar investimentos de maior risco, mas de enorme retorno, como as atividades de inovação e os investimentos necessários à transição verde. O segundo é que, em determinados momentos, as instituições privadas podem ampliar a concessão de crédito a setores de maior risco para aumentar suas margens de lucro ou não perder participação de mercado. Assim, mais do que se contaminar pela euforia, elas podem ser as próprias geradoras de ciclos insustentáveis e desestabilizadores de crescimento. Exatamente a dinâmica da gestação da crise do subprime nos EUA em 2007.

Não bastasse o resultado ruim do PIB, na última reunião do Copom, no dia 8 de dezembro, a taxa Selic foi elevada para 9,25%. Estratégia questionável para combater uma inflação cujas principais fontes são choques de oferta. Além disso, em um cenário de completa estagnação e recrudescimento em diversos setores da economia, a autoridade monetária decidiu permanecer com uma política de aumento de juros completamente desfavorável ao investimento produtivo no País, que combinada a uma inflação acumulada em 12 meses de quase 11%, torna o estímulo à fuga do capital para ativos financeiros ainda maior.

Dessa maneira, optou-se pela manutenção da estagnação e do desemprego. Este último, segundo o IBGE, atingiu o alarmante nível de 12,6% no 3º trimestre de 2021. E a taxa de subutilização da força de trabalho, que inclui pessoas que estão trabalhando menos do que gostariam, que deixaram de procurar emprego (desalentadas), entre outras, chegou a 26,5%. Os rendimentos do trabalho apresentam uma trajetória ainda mais complicada. De acordo com o IBGE, o rendimento médio real habitual (soma dos rendimentos de todos os trabalhos) caiu 4% em relação ao 2º trimestre deste ano e 11,1% em relação ao 3º trimestre do ano passado. A economia não vai bem e o povo vai mal.

Como dito no início, a retração econômica não tem nada de surpreendente. Pelo contrário, com uma regra fiscal como o teto de gastos, redução de investimentos públicos, política monetária fortemente restritiva, entre outros fatores, surpresa seria se tivéssemos uma economia em franco crescimento. Embora se possa questionar a competência dos atuais formuladores de políticas, o que se torna cada vez mais claro é que operamos em uma institucionalidade anti-crescimento.

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