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E o povo vai mal

A Petrobras foi transformada em um guichê de pagamento de dividendos, enquanto os preços dos combustíveis explodem

Imagem: André Ribeiro/Agência Petrobras
Imagem: André Ribeiro/Agência Petrobras
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Em uma entrevista em 1974, o general-ditador Emílio ­Garrastazu Médici cunhou uma frase que resume a história do País: “O Brasil vai bem, mas o povo vai mal”. Por Brasil entenda-se a ínfima porção com poder absoluto para decidir o que, quando, onde e como. Se podemos ter eleições livres ou não. Se um presidente deve sofrer impeachment ou ser protegido, independentemente dos crimes cometidos. Aquela que nunca perde, faça chuva ou sol. Mais uma vez, esse Brasil, ou ao menos o Brasil (e também estrangeiros), que detém ações da Petrobras não tem motivos para reclamar. Em meio à alta da inflação, provocada pela disparada do preço internacional do barril do petróleo, um castigo aos consumidores, em especial os mais pobres, a companhia acaba de anunciar uma distribuição recorde de dividendos no trimestre, 87,8 bilhões de reais, a serem pagos até setembro. Em uma paráfrase de Médici, “os acionistas da Petrobras vão bem, mas o povo vai mal”.

Alguns anos atrás, nem os mais pessimistas arriscariam essa previsão: a maior empresa brasileira, responsável, sozinha, por 10% do PIB e 15% do investimento na economia, desenvolvedora de tecnologia de ponta pioneira no mundo na exploração de águas ultraprofundas, descobridora de alguns dos campos de petróleo mais ricos do planeta, garantia da autossuficiência energética do País, seria esquartejada em praça pública, entre vendas de ativos estratégicos sem concorrência, leilões de campos gigantes de petróleo a preços de fim de feira e indenizações bilionárias a acionistas nos Estados Unidos, onde tem ações negociadas desde o governo FHC. A parte remanescente seria revertida em lucros fabulosos para um punhado de acionistas privados, na maior parte estrangeiros, e ela cumpriria o papel de cabo eleitoral daquele que tem sido considerado o pior presidente da história do Brasil. O improvável aconteceu, no entanto, e o enredo acima é apenas um resumo factual do capítulo mais recente da história de glória e desgraça da potência criada por Getúlio Vargas, em 1953.

OS 87,8 BILHÕES DE REAIS PROMETIDOS AOS ACIONISTAS SÓ NO SEGUNDO TRIMESTRE SÃO O EPÍLOGO DE UM PROJETO DE NAÇÃO
Carlos Drummond

Carlos Drummond
Editor de Economia da edição impressa de CartaCapital

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