5G: Brasil adota o modelo europeu para evitar vulnerabilidade

A tecnologia imprime velocidade até 20 vezes acima da atual 4G na transmissão de dados em redes sem fio

A Huawei é propriedade dos seus empregados e sua força está na “capacidade de pensar”.

A Huawei é propriedade dos seus empregados e sua força está na “capacidade de pensar”.

Economia

O anúncio pelo ministro de Ciência e Tecnologia, Marcos Pontes, de que o governo brasileiro poderá adotar o modelo britânico e europeu anunciado em janeiro para proteção das redes 5G contra a vulnerabilidade cibernética, tem tudo para aumentar a ira de Donald Trump, em guerra tecnológica e comercial com a China. Trata-se de uma opção que permitirá a participação da Huawei em concorrências públicas. O presidente dos EUA já teve um ataque de fúria, segundo a imprensa, quando o primeiro-ministro do Reino Unido, Boris Johnson, anunciou a novidade. Pressionado, de um lado, por emissários do presidente estadunidense cada vez mais assíduos em Brasília e, de outro, pelo presidente chinês, Xi Jinping, muito assertivo na defesa dos interesses do seu País no encontro com o vice-presidente, general Hamilton Mourão, em Pequim, em maio, o governo enfim definiu o edital para o leilão da 5G.

A tecnologia 5G (quinta geração) imprime velocidade até 20 vezes acima da atual 4G na transmissão de dados em redes sem fio e aumenta de modo exponencial o desempenho de produtos e equipamentos do mercado de consumo e da indústria militar, que funcionam à base de circuitos eletrônicos. Os EUA alegam que sua adoção possibilita espionar os americanos, mas até agora não apresentaram provas disso.

No País desde 1998, a Huawei é a maior fornecedora de equipamentos para as principais operadoras de telecomunicações, o que torna problemático deixar de fora a empresa chinesa, a qual está de dois a três anos à frente dos principais competidores em tecnologia 5G, entre eles a sueca Ericsson e a finlandesa Nokia, alvos de tentativa de aquisição por parte dos EUA, que no momento não dispõem de competidora à altura. Sem condições de concorrer nesse mercado, os Estados Unidos tentam ganhar tempo com o aumento da pressão para os demais países barrarem a companhia asiática.

Johnson enfurece Trump, contra o modelo a favorecer os chineses.

Segundo vários autores, a Huawei conseguiu se impor a ponto de se tornar quase imprescindível nas telecomunicações globais, porque, entre outros motivos, adotou um modelo de negócios mais dinâmico que o ocidental, este centrado, desde os anos 1980, na busca da Maximização do Valor do Acionista (Maximize Value for Stakeholders, na formulação original), que avançou no espaço criado pela retirada da regulação por parte do Estado.

Para o professor de economia William Lazonick, da Universidade de Massachusetts, o MVA “é uma ideologia de alocação de recursos corporativos que passou a dominar o pensamento estratégico nas escolas de negócios e nas salas de reuniões corporativas, minou as bases sociais da prosperidade sustentável, resultando em instabilidade no emprego, desigualdade de renda e lento crescimento da produtividade”. Centrada nas distribuições de dinheiro aos acionistas na forma de dividendos e recompras de ações, diz o professor, a atividade de extração de valor desequilibrada equivale ao saque generalizado da corporação industrial, com impactos devastadores na estabilidade do emprego, na equidade de renda e no crescimento da produtividade.

De acordo com Lazonick, as recompras “trouxeram uma nova forma de manipulação no mercado de ações, tornando-a mais sistêmica e praticada em larga escala ao longo do tempo”. As 466 empresas do Índice S&P 500 da Bolsa dos EUA, em janeiro de 2018, negociadas entre 2008 e 2017, gastaram 4 trilhões de dólares com a recompra das suas ações, representando 52,6% do seu lucro líquido, mais 40,6% em dividendos.

Xi Jinping foi muito claro na sua conversa com o vice-presidente Mourão.

No Brasil, o fenômeno adquiriu proporções suficientes para chamar a atenção da Comissão de Valores Mobiliários. Segundo um estudo da instituição, “várias empresas têm recomprado porcentuais bastante significativos de ações em circulação, por meio da adoção de programas de recompra subsequentes dentro de um intervalo bastante curto de tempo”. O trabalho identificou 178 companhias que anunciaram um total de 881 programas de recompra no período entre 2007 e agosto de 2016.

Para o professor Pedro Henrique Melillo, da UFMG, autor de pesquisa sobre o assunto, “existem evidências de que empresas utilizam o gerenciamento de resultados para reduzir os lucros em momentos pré-recompra de ações, no intuito de obter ganhos anormais nos períodos posteriores”.

Em contraste com o modelo de negócios caracterizado pela busca do MVA e manipulações favoráveis a executivos, acionistas e instituições financeiras, a Huawei tem como objetivo principal a concentração de investimentos de longo prazo em pesquisa e desenvolvimento. Cerca de 46% dos 180 mil empregados trabalham em Pesquisa & Desenvolvimento.

O modelo chinês não privilegia o lucro do acionista, prática comum no Ocidente

O relatório anual de 2018 da Huawei mostra investimentos de 100 bilhões de dólares em P&D, 13,2% acima do ano anterior e de 485 bilhões na última década. A empresa é uma das maiores detentoras de patentes no mundo, com 87.805 acumuladas até dezembro. Tem 20 laboratórios de pesquisa em vários países, inclusive nos EUA. Produz dispositivos de comunicação, equipamentos de rede, celulares e outros itens e tornou-se a maior indústria de equipamentos de telecomunicações em 2012, quando ultrapassou a sueca Ericsson.

No artigo intitulado “A Cultura da Huawei é a chave do seu sucesso”, a revista Harvard Business Review chama atenção para o fato de a companhia pertencer aos empregados. Essa característica, além de ajudar a atrair e reter trabalhadores dedicados, possibilita, segundo o presidente e fundador Ren Zhengfei, “permanecer próxima dos seus objetivos e atenta à sua visão de longo prazo”.

A maximização do valor dos acionistas da Vale está na origem da tragédia de Brumadinho. Foto: Ibama/MG

Por não ter ações negociadas nas bolsas de valores, prossegue a análise, ela escapa da pressão constante do setor financeiro para apresentar resultados de curto prazo, como se explica neste trecho do artigo: “A Huawei planeja o desenvolvimento da empresa por uma década, enquanto a maioria de seus concorrentes, como Ericsson e Motorola, planeja por trimestre ou ano financeiro. Ser uma companhia de capital fechado tornou possível trabalhar em seus planos de dez anos, enquanto seus concorrentes lutam para seguir as flutuações de curto prazo do mercado de capitais”.

Outro aspecto incomum é que a Huawei dá ênfase ao que denomina “o poder do pensamento”. Na filosofia da empresa, explica a publicação, o que há de mais valioso é o poder de pensar. “Por exemplo, são feitos esforços para garantir que a troca intelectual ocorra como uma rotina. Os executivos são convidados a ler livros fora de sua área de especialização e esses livros precisam estar presentes em cada escritório.”

A estratégia de Maximização do Valor do Acionista da Vale está na origem das tragédias de Mariana e Brumadinho, mostra análise dos economistas Luiz Gonzaga Belluzzo e Fernando Sarti, ambos da Unicamp, publicada no Le Monde Diplomatique. Os números dos balanços “comprovam a adoção de uma estratégia agressiva de maximização do valor de seus acionistas”. Em 2017, a empresa destinou 33% do seu valor adicionado para os acionistas e 21% para impostos, taxas e contribuições. A média de uma amostra de empresas apresenta a distribuição de 10% para os acionistas e 42% para o governo. Já os investimentos de manutenção de operações diminuíram ano a ano e passaram de 4 bilhões de dólares em 2014 para 2,2 bilhões em 2017. Os gastos em “pilhas e barragens de rejeitos” foram reduzidos pela metade entre 2014 e 2017, de 474 milhões de dólares para 202 milhões, e os desembolsos com “saúde e segurança” caíram de 359 milhões para 207 milhões. “Fica evidente que a tragédia de Brumadinho poderia ter sido evitada e/ou seus impactos minimizados, poupando dezenas de vidas, se maiores investimentos em manutenção e segurança das barragens de rejeitos tivessem sido realizados”, concluem Belluzzo e Sarti.

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Editor da revista CartaCapital

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