Diversidade

Eu tenho uma cara de homossexual terrível

A fala homofóbica de Jair Bolsonaro contra um repórter serve como um combustível poderoso para o ódio, diz o deputado distrital Fábio Felix

Foto: Leo Pinheiro/ Fotos Públicas
Foto: Leo Pinheiro/ Fotos Públicas
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Podia se tratar de mais um discurso caricato do presidente da República, Jair Bolsonaro (sem partido), mas assim como os demais, a retórica violenta utilizada pelo ocupante do maior cargo do país é absolutamente temerária para a democracia.

Acuado pelas acusações contra seu filho Flávio Bolsonaro (sem partido-RJ), suspeito de ser o chefe de uma quadrilha de rachadinhas e lavagem de dinheiro, o presidente vociferou mais uma do seu longo repertório de absurdos. Dessa vez, acusou um repórter de ter “uma cara de homossexual terrível”, em tom de chacota e ofensa. Obviamente o caso virou a manchete na imprensa brasileira (e até internacional) como outro infame caso de discurso preconceituoso proferido pelo ex-capitão.

Para localizar o leitor, é importante dizer que sou gay, ativista LGBTI e de Direitos Humanos. Fui eleito deputado e tenho uma cara de homossexual terrível, e sempre fui acusado disso. Aliás, nós LGBTI somos terrivelmente acusados pela sociedade, quando somos vítimas de violência apenas por demonstrar nosso afeto em público. Nossa existência é pautada pela seletividade, o preconceito, os dedos apontados desde a infância. Nós sabemos bem sobre os questionamentos aos nossos trejeitos, as lágrimas por não nos encaixarmos, os xingamentos recorrentes, os olhos de julgamento e a violência física tão degradante pra nossa consciência e formação.

As conquistas que tivemos até aqui são um sopro de esperança, mas ainda absolutamente insuficientes. Tivemos o casamento igualitário reconhecido em 2011 pelo Supremo Tribunal Federal (STF), em uma decisão histórica. Hoje tenho orgulho de morar com meu companheiro e poder tê-lo no plano de saúde. E além disso, ter sido eleito deputado e gay assumido num tempo tão contraditório é uma façanha da democracia.

Em 2019, o STF decidiu equiparar o crime de homotransfobia ao racismo até que o Congresso Nacional se posicione. A decisão reconheceu a omissão do poder legislativo brasileiro e cobrou providências. Tendo em vista os dados alarmantes de violência contra a população LGBTI, a decisão compõe o quadro de conquistas, mesmo que tenha em seu conteúdo contradições e reflexões importantes sobre o sistema penal brasileiro.

Neste sentido, toda a população LGBTI brasileira somada a qualquer pessoa que defenda a liberdade e a democracia não pode achar normal que o presidente brasileiro utilize de crime reconhecido pelo STF para atacar a existência das milhões de brasileiros.

Somos pessoas de carne e osso que sofrem muitas vezes da lógica de uma sociedade muito conservadora e que tem assumido cada vez mais o algoritmo da violência como comunicação política. É bom dizer que as falas do presidente não se desfazem no ar, mas servem como um combustível poderoso para o ódio. São gatilhos inflamáveis que tem todo o potencial de explodir contra um dos nossos pelo Brasil afora.

Ter um presidente com tamanha irresponsabilidade política e retórica é grave, e está chegando ao limite. A banalização recente dos instrumentos previstos na Lei 1.079 de 1950, que trata da imputação do crime de responsabilidade com desdobramento em impeachment do presidente da República, tem deixado a classe política brasileira numa posição letárgica sob os graves equívocos e crimes deste governo.

É fato que o país tem um presidente que não mantém qualquer respeito aos direitos humanos, cuidado político com segmentos historicamente vítimas de violência e ficou conhecido por sua retórica abusiva. No entanto, há cada vez mais setores da sociedade que não acham normal a agressão gratuita e o estímulo da violência. Somos milhões de LGBTI neste país e não nos deixaremos submergir diante desta lógica.

Estamos nas repartições públicas, nas redações dos jornais, nas assessorias técnicas, nas grandes empresas, no setor de serviços, nas forças policiais e agora também no poder legislativo com nossa representatividade e energia pra lutar. Temos apenas um recado para o presidente: para o armário não voltaremos, e quando um dia um dos nossos sentar nessa cadeira presidencial será pra defender a democracia e os direitos de todos, e não pra desonrar este cargo com tamanha desqualificação.

Fábio Felix

Fábio Felix
É Deputado Distrital (PSOL-DF)

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