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O futuro da confiança

A relação entre homem e máquina e a força das fake news estiveram no centro de um simpósio realizado na Alemanha

Visões. Sessenta palestrantes, de diferentes nacionalidades, se debruçaram sobre o tema Uma Questão de Confiança – Imagem: Midjourney/Pilar Velloso/Imagine Bot
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No mesmo dia em que o ­Google disponibilizava o ­Chatbot Bard para 180 ­países, o francês Yoann Bourgeois abria, com a performance Escadas, a quarta edição do Simpósio Cultural Internacional de ­Weimar, na Alemanha. Na apresentação, o coreógrafo se deixa cair de um pódio, confiando que um trampolim, invisível ao público, impeça a queda e o traga de volta à cena. A mistura de dança e acrobacia serve de metáfora ao tema do evento organizado a cada dois anos pelo Instituto ­Goethe: Uma Questão de Confiança.

Há duas semanas, 60 palestrantes de dezenas de nacionalidades e áreas, como cultura, ciência, negócios, mídia e política, reuniram-se para discutir e examinar a função da confiança na interação entre pessoas e máquinas, na disseminação de informação e de fake news, na manutenção da democracia e no manejo de novas tecnologias. Em que ou em quem confiamos? Vivemos hoje uma crise de confiança?

Não por acaso, a IA generativa, para a qual se olha com os dois pés atrás, esteve presente não só na programação, mas nas conversas paralelas e no noticiário. No dia 11 de maio, enquanto os debates aconteciam no E-Werk – uma antiga usina transformada em centro cultural – o Parlamento da União Europeia, em ­Estrasburgo, aprovava, com ampla ­maioria, o primeiro esboço de um projeto de lei para regular o uso das ferramentas de IA, como ChatGPT e Bard.

Ramak Molavi Vasse’i, advogada especializada em direitos digitais e diretora na Mozilla Foundation na área de pesquisas para uma IA com mais propósito e transparência, diz que a regulação é bem-vinda, mas pondera: chega tarde. “A Caixa de Pandora está aberta. Já tínhamos problemas para controlá-la antes de abri-la. Como vamos recuperar o controle?”, pergunta. “Precisamos de regulação, sim, mas também de empresas de tecnologia mais responsáveis e transparentes, até para que as pessoas possam ver suas desvantagens.”

Ao lado de Ramak, na mesa Confiamos na Tecnologia?, estava Patrick van der Smagt, diretor do Machine Learning Research Lab da Volkswagen e fundador da iniciativa europeia etami, que investiga as questões éticas implicadas no aprendizado da máquina. “O desenvolvimento de tecnologias de IA gera, na mesma medida, expectativas e ceticismo. A credibilidade, resultante da qualidade técnica, é crucial para que possamos decidir juntos que métodos prometem soluções e que riscos cada um deles traz”, diz ele.

Nos países mais pobres, o controle sobre as Big Techs tende a ser visto como uma ameaça

Se, na Europa, a regulação da IA já está em pauta, no Brasil, a dura reação das Big Techs ao Projeto de Lei 2.630/2020, o PL das Fake News, mostra que estamos umas boas casas atrás nesse tabuleiro – cabe lembrar que, no País, nem as plataformas de streaming têm regulação específica. E, como observa Ramak, embora a tecnologia seja mundial e sua distribuição se dê de forma global, as respostas legais são sempre nacionais. “E há diferentes níveis de confiança no governo em diferentes países”, pontua.

Se nos países europeus e nos Estados Unidos tende a haver um reconhecimento da necessidade de controle das empresas de tecnologia, em lugares do globo nos quais atribui-se aos governos práticas corruptas e autoritárias, a regulação é vista com desconfiança – apregoa-se, nesses casos, a “liberdade” para o desenvolvimento tecnológico.

Outro ponto a ser considerado é que, nos países mais pobres, a própria tecnologia é vista como uma forma de democratização e de redução das desigualdades. Oluwaseun David Adepoju, especialista em tecnologia e ativista de direitos humanos, apresentou, no evento, um relatório sobre blockchain – tecnologia que permite o uso de criptomoedas – com o mapeamento de 12 países da África.

Lá, contou Oluwaseun, o blockchain deu novas perspectivas a pessoas que não teriam acesso a tradicionais empréstimos bancários ou são prejudicadas pelo trâmite burocrático das transações internacionais. Não por acaso, o uso da tecnologia como instrumento de transformação ecoou na fala de uma brasileira, a empreendedora social Flávia Gonçalves Macêdo.

Flávia defende que, mais importante que regular a tecnologia seria, utopicamente, mudar o sistema financeiro que marginaliza e exclui pessoas e comunidades. Em Weimar, ela representou o projeto Muda Outras Economias, uma comunidade virtual que criou, em 2019, uma ­moeda social – cada Muda vale 1 real.

A diferença entre essa moeda criptográfica e outras, como o Bitcoin, não é tecnológica, e sim que as transações são focadas no incentivo a ações culturais, educativas e socioambientais. E que essa forma de circulação monetária tem a confiança como base. “A tecnologia tem o potencial de mudar a forma de pensar dessas comunidades e de fazê-las entender seu papel na sociedade”, diz Flávia.

Credita-se também à tecnologia a possibilidade de reconquista da confiança nas instituições e no jornalismo tradicional, impactado pelas redes sociais e pelas fake news. Ou seja, ao mesmo tempo que permite a propagação de fake news por Trump e Bolsonaro, a tecnologia pode, como aconteceu na Ucrânia, contribuir para o aumento da credibilidade dos governos.

De acordo com a jornalista ucraniana Angelina ­Kariakina, a confiança na imprensa ucraniana teve aumento de 32% para 75%, desde o início da guerra, há mais de um ano. Às vezes, a cobertura jornalística se restringe a avisar, via Telegram, que o ­país está sofrendo um bombardeio. “As sirenes não funcionam em todo o território e as pessoas precisam dessa informação”, relatou ela, por videoconferência, de Kiev.

No encerramento do simpósio, o secretário-geral do Instituto Goethe, ­Johannes Ebert, citou a definição de confiança do sociólogo alemão Niklas Luhmann: “A confiança é, antes de tudo, um mecanismo para reduzir a complexidade”. Não por acaso, em um mundo cada vez mais complexo e tecnológico, a confiança tornou-se um bem tão raro quanto valioso. •


*A jornalista viajou a convite do Instituto Goethe.

Publicado na edição n° 1261 de CartaCapital, em 31 de maio de 2023.

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