Augusto Diniz | Música brasileira

Filme sobre Pixinguinha faz a gente voltar a sonhar

Pilar da formação da música brasileira, o músico nos faz lembrar do Brasil possível

Foto: Walter Firmo/Acervo IMS
Foto: Walter Firmo/Acervo IMS

Alfredo da Rocha Vianna Junior (1897-1973) nasceu numa família musical, de classe média baixa. Atribui-se à avó africana o apelido de Pizindim (que quer dizer “menino bom”) quando criança, mas ele ficou mesmo conhecido pela alcunha de Pixinguinha.

Um dos pilares da formação da música brasileira, o compositor, maestro e multi-instrumentista Pixinguinha reuniu em sua obra, de forma única e sublime, referências afro-urbanas da época e do Brasil interiorano, estabelecendo uma marca musical. Esse padrão foi amplamente disseminado nos grandes centros por ele próprio, pelos grupos dos quais fez parte, como Os Oito Batutas, e pelos seus inúmeros seguidores do jeito de fazer música.

O reconhecimento de seu imensurável legado veio um tanto tarde, mas chegou antes de sua morte. Foi lançado recentemente no streaming o filme Pixinguinha, Um Homem Carinhoso (100 min.), que trata dessa passagem e de outros pontos de sua vida pessoal.

O longa-metragem chegou a ser exibido nos cinemas em novembro, mas agora pode ser alugado tanto no YouTube quanto no Google Play Filmes, assim como ser visto no Telecine Premium. Seu Jorge faz o papel de Pixinguinha e Taís Araújo, de sua mulher, a Beti. A direção é de Denise Saraceni e Allan Fiterman.

Pixinguinha era quase autodidata, mas faltou dar no filme um pouco mais de referência de onde veio sua genialidade e ainda destacar os diversos casos de racismo que deve ter sofrido num país recém-saído da escravidão.

Mas o longa emociona bastante. Talvez o momento terrível que vivemos nos leve mais facilmente à comoção. Além de músico excepcional, Pixinguinha era extremamente doce, afável e sensível. Uma empatia incomum, ressaltada muito no filme – não à toa o título carrega o adjetivo de um ser amável.

Carinhoso é também a sua mais conhecida música, que ganhou letra de Braguinha e tornou-se um hino nacional. Na medida em que se caminha o filme e são apresentadas as músicas de Pixinguinha, um clima se cria no espectador que mistura nostalgia e percepção da fantástica capacidade musical desse brasileiro – como em Ingênuo, Um a Zero, Lamentos, O Gato e o Canário, Vou Vivendo, Naquele Tempo, Rosa

As músicas do filme, aliás, foram gravadas por um timaço, com destaque para Dirceu Leite, representando na flauta e no sax o som de Pixinguinha.

A vida boêmia, os inseparáveis amigos Sinhô e Donga (os três formavam a chamada Santíssima Trindade do Samba), a ida para Paris, a sua consolidação no choro, o reconhecimento ao compositor Ernesto Nazareth (outro pilar indiscutível da formação da música brasileira) e a família são retratados no filme. O longa-metragem intercala imagens de arquivo do próprio músico e as pessoas que o rodeavam e o respeitavam.

O alcance e a relevância de Pixinguinha hoje à construção da cultura e da identidade nacionais, remetidos pelo filme, fazem a gente sonhar e pensar (de novo) num país possível e exuberante.

Assine nossa newsletter

Receba conteúdos exclusivos direto na sua caixa de entrada.

Um minuto, por favor...

Obrigado por ter chegado até aqui. Combater a desinformação, as mentiras e os ataques às instituições custa tempo e dinheiro. Nós, da CartaCapital, temos o compromisso diário de levar até os leitores um jornalismo crítico, alicerçado em dados e fonte confiáveis. Acreditamos que este seja o melhor antídoto contra as fake news e o extremismo que ameaçam a liberdade e a democracia.

Se você acredita no nosso trabalho, junte-se a nós. Apoie, da maneira que puder. Ou assine e tenha acesso ao conteúdo integral de CartaCapital!