Cultura

Di e suas contradições

Uma detalhada biografia explicita o tortuoso itinerário social, político e estético do modernista Di Cavalcanti

Originalidade e tradição. Os óleos sobre tela Samba (1927) e Paquetá (1950) e o pintor em sua primeira ida a Paris, no ano de 1923 – Imagem: Acervo/MAC-USP
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Di Cavalcanti é, sem dúvida, um dos mais destacados artistas brasileiros do século XX. Nascido Emiliano de Albuquerque Mello, no Rio de Janeiro, em 1897, Di (abreviação de ­Didi, seu apelido de infância) Cavalcanti (referência a seus antepassados nordestinos) foi um dos principais nomes da Semana de Arte Moderna, ocorrida em São Paulo, em 1922, por cujo cartaz ficou responsável.

Mas, se por um período trilhou caminho semelhante ao dos modernistas paulistas, Di Cavalcanti não deixou de experimentar bifurcações próprias ao longo do trajeto. Explicitar os diversos elementos – sociais, políticos e, claro, estético-culturais – que formataram esse itinerário tortuoso é o grande mérito de Di ­Cavalcanti: Modernista Popular, de Marcelo ­Bortoloti, biografia lançada no fim de 2023.

Sem escamotear as muitas contradições do pintor, Bortoloti, jornalista de formação e doutor em Literatura Brasileira pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), nos faz passear com desenvoltura pela vida e obra de uma figura que, desde cedo, encampou o desafio de elaborar uma arte própria, original, “contra muitos adversários, inclusive ele próprio”.

De família abolicionista, outrora relativamente abastada, Di Cavalcanti esteve boa parte da vida em situação de instabilidade financeira, na dependência de trabalhos esporádicos ou da benevolência de mecenas como Paulo Prado, herdeiro da elite paulista do café. Ao mesmo tempo, o interesse precoce pelas classes populares e pelo submundo boêmio, do Rio de Janeiro ou de Paris, acabou por torná-lo, em 1928, o primeiro dos modernistas a aderir ao então Partido Comunista Brasileiro (PCB).

Uma vida entre França e Brasil. Em registro de 1973, Jorge Amado, Zélia Gattai, Di Cavalcanti e Vinícius de Moraes na casa do Rio Vermelho, em Salvador – Imagem: Fundação Casa de Jorge Amado

Com efeitos visíveis sobre sua obra, o engajamento comunista faria dele um pioneiro do modernismo nacionalista que daria o tom do debate artístico nos anos 1930. Nem por isso a militância no “Partidão” esteve isenta de conflitos com a direção da organização, com sua costumeira desconfiança em relação aos intelectuais.

A ruptura, por motivos mais pessoais do que propriamente políticos, viria em 1937, quando ele e a esposa, a também pintora Noêmia Mourão, viviam as penúrias do exílio em Paris, para onde foram após dois meses de cárcere no Rio de Janeiro.

Se, na primeira viagem à capital francesa, em 1923, Di Cavalcanti tomara contato com a efervescente cena artística e intelectual de Montparnasse e ­Montmartre, o que serviu para reforçar suas convicções modernistas, na segunda ida a situação era bem mais complicada. Após a eclosão da Segunda Guerra Mundial e a invasão da França pelos nazistas, o casal voltou às pressas para o Brasil em 1940.

O período parisiense tornou a pintura de Di Cavalcanti mais soturna e melancólica. Na bagagem de retorno, ele trouxe também a conversão ao catolicismo. Nunca deixaria, porém, de lado a preocupação social, bem como a defesa da pintura figurativa – contra, por exemplo, a arte abstrata do pós-Guerra, por ele considerada um desprezo individualista pela humanidade social.

Di Cavalcanti: Modernista Popular. Marcelo Bortoloti. Companhia das Letras (536 págs., 134,90 reais) – Compre na Amazon

Nas décadas seguintes, o reconhecimento público e mercantil cobrou seu preço, acompanhando-se de uma evidente decadência estética, pela qual não seria perdoado. Prova disso foi a baixa presença de gente em seu velório e enterro, em outubro de 1976. A monotonia foi interrompida apenas pela presença indiscreta de Glauber Rocha, que tirou da cerimônia as imagens para o curta-metragem Di-Glauber (1977), exibido e premiado em Cannes.

Como escreve Bortoloti, Glauber não estava ali por acaso. “Sabia que juntamente com Di Cavalcanti morria um pedaço do Brasil, que precisava ser registrado”, escreve o autor. “Seja por sua produção, seja pelo estilo de vida, envolvendo-se direta ou indiretamente nos principais acontecimentos artísticos, políticos e sociais do passado recente, aquele era um personagem fundamental para a cultura brasileira do século XX.”

Como se vê em Modernista Popular, Di Cavalcanti parecia estar sempre no cruzamento dos caminhos, equilibrando-se entre posições distintas, quando não antagônicas entre si.

Comunista, católico, moderno que jamais abandonou por completo a tradição, homem do povo, mas de estilo de vida perdulário, Di Cavalcanti se metamorfoseou em muitos ao longo da vida. Sua obra e sua trajetória são, portanto, um testemunho único das contradições de um ­país à procura do seu prometido futuro. •

Fabio Mascaro Querido é professor de Sociologia da Unicamp.


NOVO CATÁLOGO INCLUI OBRAS REPATRIADAS

Volume lançado pela DAN Galeria recupera exposição realizada em 2022

Foi também no fim de 2023 que a DAN Galeria lançou Di Cavalcanti – Entre Tempos e Lirismos, livro de arte que registra, de forma ampliada, a exposição rea­lizada em 2022, por ocasião dos 125 anos de nascimento do artista e o centenário da Semana de 22.

A exposição, instalada na sede da galeria, na região dos Jardins, em São Paulo, teve como destaque duas obras que, desde a década de 1930, estavam na França e foram então repatriadas: o painel Carnaval, criado entre 1928 e 1935, e Bahia, de 1935.

No texto de apresentação do livro-catálogo, a curadora Denise Mattar, que é também organizadora do volume, reproduz o trecho de uma análise do crítico Mário Pedrosa que resume as imagens que se seguirão:

“Di foi o primeiro a trazer para a pintura a gente dos morros, a gente dos subúrbios, onde nasceu o samba. Sendo o mais brasileiro dos artistas, foi o primeiro a sentir que, entre o interior, a roça, o sertão e a avenida, o ‘centro civilizado’, havia uma zona de mediação – o subúrbio”.

O livro traz, ao fim, uma cronologia da vida e da carreira do pintor e lista todas as exposições das quais participou.

por Ana Paula Sousa

Publicado na edição n° 1292 de CartaCapital, em 10 de janeiro de 2024.

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