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Crivella será, de novo, alvo de críticas no Carnaval do Rio

Cultura

Marcelo Crivella pode esperar de novo uma enxurrada de críticas dos blocos durante seus desfiles. O fato é que o prefeito do Rio de Janeiro continua a criar descontentamento às agremiações ligadas ao Carnaval da cidade pela forma inadequada com que trata a manifestação popular.

Algumas expuseram insatisfação com o bispo antes mesmo dos cortejos. É o caso do Nem Muda Nem Sai de Cima, da região da Muda, na Tijuca. O bloco desfila há 24 anos, não costuma atrair turistas, mas faz parte da história carnavalesco e da memória de dois grandes personagens cariocas: os compositores Aldir Blanc e Moacyr Luz.

Ambas integraram a agremiação, reconhecida pela qualidade da bateria, que começa o desfile exatamente na rua Garibaldi, onde em um prédio moravam Aldir e Moacyr. Hoje, apenas Aldir mantém residência no local.

Dirigentes do Nem Muda Nem Sai de Cima afirmam que desde o meio do ano passado têm tentado sem sucesso autorização para realizar seus ensaios na via pública da Muda – a prefeitura indefere o pedido sem fundamentação, afirmam.

Os ensaios são essenciais para arrecadação de recursos para colocar o bloco na rua no período de Carnaval, com venda de camisetas, além de conquista de apoio local e escolha de samba.

Por conta dos indeferimentos da prefeitura, em sua página na rede social, o bloco publicou uma nota de esclarecimento mostrando seu desagrado e o périplo que tem feito na administração municipal para participar do Carnaval 2019. O texto termina “lembrando que faltam apenas 2 carnavais” para o fim do mandato de Crivella.

Para suprir a falta de ensaios, o grupo criou na internet financiamento coletivo para arrecadar recursos para o desfile oficial – marcado com muito sacrifício na prefeitura para 16 de fevereiro. O samba deste ano do bloco, ao invés de escolha por meio de concurso durante os ensaios (que não ocorreram), foi feito de forma coletiva entre os foliões em um bar da região.

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O tema do Carnaval do Nem Muda Nem Sai de Cima é propício ao momento: “Glória a Deuxxx, é carnaval você vai ver! Liga para a Márcia que o milagre vai acontecer”

Márcia é assessora de Crivella apontada como responsável em atender pedidos de gente ligada ao prefeito.

O Simpatia é Quase Amor, outro tradicional bloco do Rio com 35 anos de desfile, também faz o samba que sairá pelas ruas de Ipanema em conjunto, num encontro de compositores vinculados à agremiação.

Ary Miranda, um dos fundadores do Simpatia, explica que o bloco não realiza mais ensaios para escolher o samba da “avenida” por conta da concorrência de eventos de outras agremiações na cidade.

“Fazíamos quatro ensaios por ano. Mas, hoje, com o número grande de blocos na rua, não compensa”, esclarece, sem se lamentar, pois considera importante para o Rio o crescimento do Carnaval de rua.

O Simpatia chegou a lançar no passado CDs com músicas compostas pelo bloco.

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Ele diz, porém, que a agremiação apresentará no seu primeiro desfile, na semana anterior ao Carnaval, um samba com referências críticas às três esferas de governo. “Os compositores trabalharão sobre o contexto municipal, estadual e federal”, informa, ressaltando que o momento é “complicado e difícil”.

O bloco das Carmelitas escolhe o enredo no sábado 16 (Foto: Divulgação)

Carmelitas

O Blocos das Carmelitas, de Santa Teresa, deve repetir a dose de críticas ao prefeito, como ocorreu no ano passado.

“Não vamos ter um enredo fechado, mas esperamos que o samba reflita sobre a realidade, faça crítica política e social com humor e, se possível, relacionando com algum aspecto do bairro”, afirma Alvanísio Dmasceno, presidente da agremiação. “Versos contra a censura também serão bem-vindos”. O samba será escolhido no dia 16.

O título do samba de outra grande agremiação carnavalesca do Rio revela a “homenageada” deste ano: “O Suvaco do Cristo trepou na goiabeira no milagre do baticum”. Já o Barbas, de Botafogo, fundado em 1985 pelo filho do dramaturgo Nelson Rodrigues, também escolheu um tema política de alcance federal: “No Barbas, continência só pro general da banda”.

Crivella impôs a redução de blocos na cidade. Não chega a ser prática condenável, pois a profusão deles nos últimos anos criou grupos fora das circunstâncias históricas do Carnaval do Rio, intimamente ligado às raízes da manifestação popular brasileira. Mas é preciso ter uma análise mais ampla e geográfica disso.

Há blocos demais na Zona Sul e de menos na Zona Norte, região onde sai o Nem Muda Nem Sai de Cima, com toda sua maioridade.

Além disso, existem agremiações que o quadro de músicos é questionável pela qualidade – não é também o caso do bloco da Muda, composto em parte por ritmistas das escolas de samba das adjacências, engrandecendo em muito o Carnaval de rua da cidade.

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Jornalista há 25 anos, com passagem em diversas editorias. Foi produtor musical e escreve sobre música desde 2014.

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