Cultura

Abraçados por empresários e colecionadores, o Masp e a Bienal se expandem mesmo na crise da cultura

Uma nova geração da elite econômica, financeira e cultural – entre eles, muitos colecionadores – sucedeu aos antigos mecenas

A nova edição da Bienal, que vai até dezembro, ocupará outros espaços da cidade além do pavilhão de 25 mil metros quadrados localizado no Ibirapuera. O Masp, por sua vez, ganhará novo prédio na Paulista e tem ampliado seu acervo (Foto : Suamy Beydoun / AGIF)
A nova edição da Bienal, que vai até dezembro, ocupará outros espaços da cidade além do pavilhão de 25 mil metros quadrados localizado no Ibirapuera. O Masp, por sua vez, ganhará novo prédio na Paulista e tem ampliado seu acervo (Foto : Suamy Beydoun / AGIF)
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“O sonho do Ciccillo era fazer um museu, mas ele foi se dando conta de que era impossível competir com Chateaubriand. A Bienal foi a forma que o Ciccillo encontrou para se destacar”, conta, divertindo-se, Julio Landmann, presidente do Conselho da Fundação Bienal e ex-presidente da instituição que abre sua 34ª edição no sábado 4, celebrando 70 anos de existência. 

Landmann, ao recordar a rivalidade entre Ciccillo Matarazzo (1898-1977), criador do Museu de Arte Moderna (MAM) e da Bienal de São Paulo, e Assis Chateaubriand (1892-1968), fundador do Museu de Arte de São Paulo (Masp), ata os laços que unem o maior evento de arte da América Latina e o museu que reúne o mais importante acervo de arte europeia no Hemisfério Sul.

O Masp foi criado em 1947 e a Bienal em 1951, por iniciativa de empresários que conseguiram mobilizar a elite financeira e cultural da cidade a favor de seus projetos. Ambas as instituições também quase sucumbiram juntas. Em 2010, quebrada, a Bienal não deixou de acontecer por um triz. Em 2013, o Masp acumulava dívida de 70 milhões de reais e não conseguia arcar nem com a folha de pagamento. 

O modelo de gestão hoje implantado espelha a história das instituições

Há duas semanas, o Masp anunciou seu projeto de expansão. Será erguido até 2024 um prédio de 14 andares, onde haverá desde reserva técnica e laboratório de restauro até uma área de eventos. A nova construção levará o nome de Pietro Maria Bardi, o homem por trás do acervo adquirido entre as décadas de 1940 e 1950 (leia o texto de Mino Carta). O prédio vermelho, suspenso no ar, receberá o nome de Lina Bo Bardi.

A 34ª Bienal, por sua vez, propôs-se a expandir sua presença para além do pavilhão de 30 mil metros quadrados construído por Oscar Niemeyer, no Parque do Ibirapuera. O evento estabeleceu uma parceria com cerca de outras 20 instituições da cidade e criou aquilo que o curador Jacopo Crivelli Visconti chama de rede. “Queremos demonstrar que quem trabalha com arte e cultura pode estar unido”, diz. 

 

Neste momento em que a cultura se vê atacada pelo governo federal e fragilizada pelas limitações impostas pela pandemia, as demonstrações de força das duas instituições suscitam uma pergunta: o que as possibilitou terem se tornado, na última década, financeiramente saudáveis e artisticamente relevantes?

“Ambas conseguiram fazer a passagem de gestões personalistas para estruturas de governança sólidas. Do ponto de vista artístico, elas nunca deixaram de ser grandes, mas, a certa altura, precisaram estabelecer um novo pacto com a sociedade e fortalecer sua estrutura institucional”, responde Eduardo Saron, diretor do Itaú Cultural, conselheiro do Masp e principal patrocinador da 34ª Bienal. 

Saron lembra que, oito anos atrás, ao tomar pé da situação do Masp, Alfredo Egydio Setubal, diretor-presidente da Itaúsa, disse que via o museu como um gigante afundando numa poça d’água. Setubal, poucos anos antes, tinha recebido outro chamado, para tentar ressuscitar a Bienal.

Quem o procurou foi Heitor Martins, sócio sênior da McKinsey & Company, que, até então, tinha com a arte apenas uma relação de colecionador. Antes de topar presidir a instituição que ninguém queria assumir, Martins procurou duas pessoas: Setubal e Carlos Jereissati, à época detentor da Oi. 

‘Busco reproduzir a visão do Chatô’, afirma Heitor Martins, sócio da McKinsey

Começa nesse momento a ser tecida a rede de relações que hoje dá sustentação ao Masp e à Bienal. Martins é presidente do Masp; Setubal é vice-presidente do Conselho da Bienal e presidente do Conselho do Masp; Jereissati está em ambos os conselhos. Landmann, Geize Marchesi Diniz, Luis Terepins, Marisa Moreira Salles e Rodrigo Bresser-Pereira são alguns dos nomes que se cruzam em ambos os conselhos.

“A Bienal sempre foi uma entidade privada, mantida por empresários e intelectuais que, há 60 anos, se sucedem no seu comando”, diz José Olympio da Veiga Pereira, presidente do Credit Suisse e da Bienal. “Ambas as instituições têm origem na sociedade civil e dependiam de uma mobilização da sociedade civil para se reerguerem”, avalia Martins. 

Martins, artífice desses processos, esquiva-se da palavra liderança por, justamente, considerar importante que se tire da cultura o vício do personalismo. Na sua visão, a mudança de prumo deu-se, primeiro, porque houve a transição de um modelo de liderança individual para uma liderança que ele chama de coletiva. “A mudança só foi possível porque a sociedade acreditava na importância das duas instituições”, diz.

A sociedade, nesse caso, é representada por uma nova geração da elite econômica, financeira e cultural – entre eles, muitos colecionadores – que sucedeu aos antigos mecenas. O diretor do Masp, Julio Neves, por exemplo, tinha pegado o bastão do próprio Bardi, que só deixou o museu poucos anos antes de morrer. 

Ciccillo também se manteve à frente da Bienal até o fim da vida e deixou estabelecido quem seriam os três presidentes que o sucederiam. O primeiro deles foi Oscar Landmann, pai de Julio. Landmann recupera uma discussão entre seu pai e Ciccillo que diz muito sobre a história das instituições culturais brasileiras. “Eles falavam sobre alguma decisão relativa à Bienal e meu pai, lá pelas tantas, argumentou que havia um Conselho, que precisava ser respeitado. O Cicillo pegou a bengala, bateu sobre a mesa e disse: ‘É este o Conselho!’”, rememora, novamente rindo. 

Ciccillo Matarazzo, que fundou a Bienal em 1951; Heitor Martins, que assumiu a instituição quebrada, em 2009; e o banqueiro José
Olympio da Veiga Pereira, o atual presidente da Fundação Bienal (da esq. para a dir.)

Heitor Martins diz que uma das lições aprendidas ao se aproximar da cultura é a de que é preciso que as pessoas tenham a sabedoria de, em determinado momento, sair das instituições – pelo bem delas. A outra diz respeito à humildade de não querer palpitar em tudo e, em especial, nos aspectos artísticos. Chateaubriand é, nesse sentido, um exemplo que ele procura seguir.

“É incrível não só a capacidade de o Chateaubriand mobilizar a sociedade, mas sua humildade e inteligência em escolher o Bardi e deixá-lo trabalhar. Falo isso porque é comum o cara criar o museu e querer decidir que obras devem estar nele”, diz Martins. “Busco reproduzir essa visão.”

Outro aspecto que tanto Olympio quanto Martins ressaltam é que o dinheiro só chega aos projetos quando existe, da parte da sociedade, um reconhecimento de sua importância. “Não é difícil encontrar quem queira colaborar com essas instituições”, diz o presidente da Bienal.

Martins, ao longo desses anos, consolidou o entendimento de que é comum que as instituições desejem começar o processo de estruturação pelo dinheiro. “Mas o dinheiro é resultado”, prega. “As pessoas dão dinheiro quando elas reconhecem a importância do projeto para a cidade e para a sociedade.”

O quadro de Maria Auxiliadora integra a mostra Acervo Em Transformação: Doações Recentes, em cartaz no Masp (Reprodução)

Em seus primórdios, a Bienal e o Masp refletiram o momento do País, que se encaminhava para a industrialização e tinha, entre o empresariado, gente que acreditava que a modernização só se completaria com a cultura. “Hoje, temos uma nova geração de empresários e colecionadores que, além de contribuir financeiramente, trouxe para a cultura modelos de gestão mais próximos aos das empresas”, diz Saron. São também esses modelos que, segundo ele, blindam a arte contra intervenções indevidas. “A independência da curadoria faz parte desses novos modelos de governança.”

O REENCONTRO PELA ARTE

O TÍTULO FAZ ESCURO MAS EU CANTO RESUME O ESPÍRITO DA 34ª BIENAL

Não fosse a pandemia, a 34ª Bienal de São Paulo teria acontecido em 2020. O tema teria sido o mesmo, mas seu significado não. Pensada para expandir-se pela cidade, ocupando espaços que não o Ibirapuera, a Bienal acabou se transformando no símbolo das possibilidades de reencontro e de nutrição do espírito em meio às adversidades. O título do evento é, por si, um sopro: Faz Escuro Mas Eu Canto.

“Certamente, esta Bienal não é a mesma que se veria um ano atrás. Algumas obras se verão mais claras, outras
mais opacas; algumas mensagens soarão como gritos, outras chegarão como ecos. Não precisamos entender tudo,
nem nos entender todos; trata-se de falar nossa língua sabendo que há coisas que outros idiomas nomeiam e nós
não sabemos expressar”, escrevem os curadores.

Foi ainda o adiamento que levou a 34ª edição a coincidir com a efeméride de 70 anos, propiciando um exercício de
diálogo também com o passado. Além de produções que espelham o pulso do mundo hoje, a mostra traz artistas que participaram de outras bienais, como as brasileiras Carmela Gross, que esteve na edição de 1969, conhecida como Bienal do Boicote, e Regina Silveira, pioneira na videoarte.

PUBLICADO NA EDIÇÃO Nº 1173 DE CARTACAPITAL, EM 2 DE SETEMBRO DE 2021.

Ana Paula Sousa

Ana Paula Sousa
Editora de Cultura da edição impressa de CartaCapital. Doutora em Sociologia pela Unicamp.

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