Mino Carta: Bardi soube escolher obras notáveis

Atrevo-me a dizer: o Masp é mais importante que o próprio Brasil

Pietro Maria Bardi e a arquiteta Lina Bo Bardi (Foto: Instituto Bardi)

Pietro Maria Bardi e a arquiteta Lina Bo Bardi (Foto: Instituto Bardi)

Cultura

Conheci Pietro Maria Bardi e Lina Bo Bardi na noite de Natal de 1946, em São Paulo, na casa de um amigo do meu pai Giannino, e lembro apenas do cardápio, estava muito bom. O casal Bardi vinha da Argentina, onde ele havia organizado uma exposição e naquele momento se preparava para um encontro com Assis Chateaubriand, que pretendia criar um museu de arte. Deu-se o encontro dias após, Bardi aceitou a proposta e logo, com a mulher, extraordinária arquiteta, mudou-se para cá. O museu nasceu em salas da Rua 7 de Abril, anexas à redação do Diário de São Paulo e, desde então, cogitou-se sua construção na Avenida Paulista, no espaço do belvedere projetado pelo prefeito Prestes Maia ainda antes da Segunda Guerra Mundial, em frente ao Parque Siqueira Campos.

Longos anos depois, por sobre o belvedere atirou-se num acrobático vão livre a estrutura do museu de arte, criado por Lina Bo, ponto inevitável de roteiros paulistanos e obra-prima da parceria Bardi/Chatô. Me atrevo a dizer que o Masp é mais importante do que o próprio Brasil, e de valor inestimável. Bardi era um conhecedor profundo da arte de todos os tempos e sabia onde encontrar obras notáveis ainda a um preço acessível naquele tempo de pós-Guerra. A seu modo, o museu perfeito, passível de ser percorrido didaticamente para tropeçar em obras de Manet, Van Gogh, Monet, Goya, Chardin, Renoir, Rembrandt, Picasso, Toulouse-Lautrec, Modigliani, sem contar uma coleção de bailarinas de Degas e um Rafael que esteve no centro de uma polêmica, finalmente resolvida por Bardi com as provas irrefutáveis da autenticidade da obra.

Posso dizer que Bardi, definitivamente, não apreciava Bienais

A presença do vulcânico diretor do Masp nem sempre foi de fácil digestão para paulistanos ilustres. Bardi foi acusado de ter lucrado com negociações escusas na aquisição dos quadros e de ter sido militante fascista. Um passado de simpatia por Mussolini Bardi não negava, mas é certo que tudo se desfez quando o Duce assinou as leis raciais, a seguir, velhaca e oportunisticamente, o exemplo de Hitler. De verdade, a participação italiana no Holocausto foi menos vistosa daquela de outros países, por exemplo, a França de Pétain, da qual foram remetidos para os campos nazistas 200 mil judeus, enquanto os italianos foram 8 mil.

Não há perdão para certos pecados, mas Bardi soube afastar-se de Mussolini em um momento bem escolhido. No mais, suas ações na montagem do Masp, que dirigiu quase até a morte, sempre foram límpidas e bem documentadas. Além do mais, não havia de ser fácil enganar Chateaubriand, altamente habilitado a evitar qualquer manobra destinada a prejudicá-lo.

Com Bardi e com Lina mantive uma sólida amizade, sempre nutrida por longas conversas dias adentro, eventualmente protegida pela sentinela Eugênia, eterna secretária. Bardi gostava de deitar-se cedo, comia e bebia com extremo comedimento. Falávamos também de arte, mas, sobretudo, da natureza humana e da vocação deste ou daquele artista.

Recordo um dia em que me viu a sobraçar um livro de reproduções e obras de Lucian Freud e sentenciou com energia: “Esse aí é um pintor!” Ao cabo dessa evocação de uma bela personagem da minha vida, posso dizer que Bardi, definitivamente, não apreciava Bienais, não somente por causa de Ciccillo Matarazzo, mas por serem também, e frequentemente manifestações pretensiosas na intenção de abarcar o mundo e portadoras das futuras tendências artísticas, a partir de encenações discutíveis, como, por exemplo, as chamadas instalações, encaradas por ele como frustrado recurso de artistas fracassados.

PUBLICADO NA EDIÇÃO Nº 1173 DE CARTACAPITAL, EM 2 DE SETEMBRO DE 2021.
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