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A morte pega carona

Os grandes crimes do País, abraçados pelas séries e podcasts, começam a chegar também às telas de cinema

Angela, com Isis Valverde, estreia na quinta-feira 7 – Imagem: DT Filmes/Star Productions
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Quanto mais escabroso o crime, maior costuma ser a audiência. Angela, em cartaz nos cinemas desde a quinta-feira 7, é o produto mais recente da onda de exumações que já ocupa o streaming.

Hugo Prata, diretor da competente cinebiografia Elis (2016), retoma o gênero para narrar os passos da paixão de Angela­ ­Diniz, personalidade da alta sociedade brasileira dos anos 1970 assassinada pelo companheiro, Raul “Doca” Street, em 1976.

Angela ganha fôlego com a interpretação vigorosa de Isis Valverde, cujo contraste com o desempenho sem vida de Gabriel Braga Nunes fortalece a oposição entre feminilidade forte e masculinidade frágil.

Outra boa escolha é não recriar a história como um verbete da Wikipedia. O filme apenas insinua a personalidade ousada da personagem, evitando reproduzir o argumento, difundido à época, de que a vítima foi a principal responsável pelo crime.

A Angela que o filme mostra é uma mulher que tenta ser livre, vive seus desejos e se entrega a uma paixão. Não é a “pantera” que a tradicional família mineira considerava libertina e que serviu de argumento para a defesa do assassino, que conseguiu sua absolvição no primeiro julgamento.

A abordagem também é eficaz em sua atualidade. Cinco décadas depois do crime, Angela evidencia que pouco mudou no país no qual feminicídios são frequentemente cometidos por homens que se consideram donos de suas companheiras.

O filme chega aos cinemas menos de um mês após a estreia de Isabella: O Caso Nardoni. O documentário alcançou o topo do ranking de títulos em língua não inglesa em sua primeira semana na Netflix.

Os crimes cometidos pelo trio Suzane von Richthofen com os irmãos Daniel e Christian Cravinhos, em 2002, o rumoroso caso da Escola Base, que estourou em São Paulo, em 1994, e o desaparecimento do menino Evandro Caetano, em 1992, no Paraná, são exemplos de histórias reais incorporadas ao catálogo das plataformas.

Assim, as produções brasileiras integram-se à torrente de títulos internacionais do gênero true crime nos formatos série e longa-metragem ficcionais e documentários ao alcance do play.

Médicos legistas veem todos dias vítimas de mortes violentas. Mas os assassinatos que atraem quem prefere lidar com a morte do sofá costumam ser servidos com outros ingredientes: impulsos passionais, crueldade, perversões e até canibalismo podem fazer parte do cardápio.

A popularidade das histórias de crimes reais, entretanto, não é de agora. Lá no século XIX, os jornais roubaram dos maiores fofoqueiros da cidade o monopólio de espalhar casos embasbacantes. Muito antes de Datena, o Homem do Sapato Branco já saciava a sede de sangue de ouvintes e espectadores com histórias do mundo cão em programas no rádio e na tevê.

O streaming apenas atualizou essa tradição, cujo sucesso não se explica somente pelo fascínio tão humano por atos que concretizam a ideia do mal. Em geral, essas histórias contêm zonas de sombra, mistérios e reviravoltas perfeitos para sustentar uma narrativa.

Não por acaso, elas funcionam bem em jornais, programas de rádio e tevê, séries e, como demonstra Angela, também em longas-metragens. •


SERIAL KILLERS À BRASILEIRA

O sucesso das histórias do menino Evandro, de Elize Matsunaga e de Suzane von Richthofen estimula novas obras do gênero

A Menina Que Matou Seus Pais: A Confissão e O Maníaco do Parque: A História Não Contada estrearão na Amazon – Imagem: Prime Vídeo

O mundo ainda estava meio parado e o Brasil enterrava, diariamente, milhares de vítimas da Covid-19. Ao final do expediente no home office, milhares acompanhavam as reviravoltas do sequestro e assassinato do menino ­Evandro Caetano narradas na série que a ­Globoplay lançou em maio.

Em julho daquele ano, a Netflix lançaria a série com detalhes do esquartejamento cometido por Elize Matsunaga contra seu marido, Marcos, em 2012. O documentário em quatro episódios Elize Matsunaga – Era Uma Vez Um Crime foi devorado entre sacos de pipoca de micro-ondas mesmo, já que era impossível consumir baldes nos cinemas.

Quem não tem um serial killer como Jeffrey ­Dahmer, caça com a reconstituição do parricídio planejado por Suzane von Richthofen e executado pelos irmãos Cravinhos. O duplo assassinato foi reduzido a uma trama simplória de vingança na seção dupla A Menina Que Matou Seus Pais e O Menino Que Matou Meus Pais, produções da Amazon Prime Video, que estrearam também em 2021.

A Menina Que Matou Seus Pais: A Confissão, terceira parte da trilogia, estreia no dia 27 de outubro, contando detalhes da investigação para quem não acompanhou a superexploração do caso à época.

Mas quem disse que o Brasil não tem um serial killer para chamar de seu? Os estupros e assassinatos de garotas cometidos entre 1997 e 1998 por Francisco de Assis ­Pereira serão reconstituídos em O Maníaco do Parque: A ­História Não Contada, com estreia prevista para 2024, também na Prime Video.

Publicado na edição n° 1276 de CartaCapital, em 13 de setembro de 2023.

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