A carreira de Nelson Sargento, a personificação do samba

O sambista era uma das memórias vivas da história do gênero do século XX

Foto: Reprodução TV Brasil

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Cultura

“Samba / Agoniza mas não morre / Alguém sempre te socorre / Antes do suspiro derradeiro”. Autor dessa antológica composição morreu aos 96 anos de Covid-19 nesta quinta-feira 27. Nelson Sargento estava internado desde 20 de maio no Instituto Nacional de Câncer, no Rio de Janeiro (RJ). No dia 22 havia sido transferido à UTI.

No final de fevereiro, ele tinha recebido a segunda dose da vacina Coronavac contra o coronavírus. No entanto, com a idade avançada e histórico de problemas de saúde (foi paciente oncológico), não resistiu ao vírus.

 

 

Nelson Sargento era uma das memórias vivas da história do samba do século XX. Poucos anos depois da criação das escolas de samba (data-se de 1928), ele já desfilava. Quando se mudou ainda criança para o Morro da Mangueira, se meteu de vez no meio.

Lá, conviveu com Cartola, Nelson Cavaquinho e Geraldo Pereira, compositores do primeiro escalão do samba carioca. Passa a compor para a Mangueira e já sai vitorioso. Nesse período, fez – em parceria com Alfredo Português e Jamelão – um samba-enredo antológico: Cântico à Natureza (1955). Poucos anos depois, acaba presidente da ala de compositores da verde-e-rosa e em 2013, torna-se presidente de honra da Mangueira após várias décadas de serviços prestados à agremiação.

Nelson Sargento participou de grupos importantes de samba nos anos 1960, quando o gênero vivia ciclo de ascensão, saindo das vielas do morro para a Zona Sul. Com o Rosas de Ouro e Os Cinco Criolos lançou discos.

Seu primeiro trabalho solo saiu em 1979, com o LP Sonho de um Sambista. Com voz rouca de boêmio, lá está seus grandes sucessos como compositor. Entre eles, Agoniza mas Não Morre, Falso Amor Sincero, Triângulo Amoroso, Falso Moralista e Primavera (esta em parceria com Alfredo Português).

Depois lançou mais quatro trabalhos solos. Intérpretes importantes gravaram suas músicas. Tem ainda participação em alguns registros, notadamente de exaltação à Mangueira e seus sambistas. Também se envolveu com artes plásticas, com pinturas de imagens do morro, e lançou livros de poesia.

Seu nome de batismo era Nelson Mattos, mas a passagem por alguns anos servindo ao Exército o fez ganhar o apelido de Nelson Sargento.

A importância de Nelson Sargento está ligada ao fato de ele ter tido uma relação histórica com as várias frentes do samba de forma intensa, desde as agremiações carnavalescas, passando pela atuação como cantor-compositor até assíduo frequentador de rodas de samba.

Há poucos sambistas vivos no Rio que ainda carregam essa formação ligada às raízes originais do samba – é o caso de Monarco e Noca da Portela. A nova geração quase não convive no âmago das escolas de samba e, por vezes, subestima o papel das rodas de samba na formação do sambista.

No início da pandemia, Nelson Sargento chegou a pedir ajuda nas redes sociais devido ao cancelamento de shows. Uma campanha de arrecadação virtual foi criada para levantar fundos ao artista. Levou uma vida difícil, apesar de ter se tornado uma figura conhecida da cultura por personificar o samba.

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Jornalista há 25 anos, com passagem em diversas editorias. Foi produtor musical e escreve sobre música desde 2014.

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