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Faculdade de Direito da USP intimida grevistas: ‘Saibam das consequências de seus atos’

Em comunicado, a reitoria da universidade diz que esgotou capacidade de negociação e que as aulas voltarão em formato virtual

Estudantes da USP em ato pela contratação de professores no Largo da Batata, 26/09/23. Foto: Sebastião Moura
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A direção da Faculdade de Direito do Largo São Francisco da Universidade de São Paulo publicou uma carta nesta quinta-feira, 5, afirmando que a instituição “esgotou suas possibilidades de negociação com os ‘grevistas'”, e que as aulas voltarão em formato online. 

A paralisação dos estudantes começou a duas semanas, no dia 20 de setembro. A reivindicação principal é a contratação de professores diante do atual déficit no quadro de docentes. 

Conforme mostrou CartaCapital, a falta de reposição do corpo docente, diante de aposentadorias e óbitos, fez o número de professores cair de 5.934 para 4.892. 

“Se os alunos –ou parte dos alunos – pretende fazer greve, que continue fazendo. Mas que saibam das consequências de seus atos”, diz o texto. 

As aulas canceladas durante a greve não serão repostas, pontua a faculdade. “Provavelmente, isso poderá causar prejuízos a todos e, mais imediatamente, àqueles que deveriam colar grau no final do ano.”

Nesta quarta-feira 4, em reunião de negociação com os grevistas, a USP anunciou que vai liberar mais 148 novas vagas para contratação de professores, adicionais às 879 que já tinham sido aprovadas para diferentes unidades. 

De acordo com vídeo do reitor Carlos Gilberto Carlotti Junior, são vagas para docentes efetivos que estavam previstas para o ano que vem e foram adiantadas.

O argumento dos gestores, sob representação de Celso Fernandes Campilongo, diretor da faculdade, é que houve “rompimento desse clima de diálogo e civilidade”, escalada de pautas radicais, ameaças, hostilidades e ataques a professores, discentes e funcionários.

“Membros da comunidade acadêmica que tenham sofrido ou sofrerem qualquer violência […] terão todo o respaldo da diretoria para a tomada das medidas cabíveis”, destaca a carta. “Num último apelo à racionalidade, desocupem a faculdade, acabem com a paralisação e retornem às aulas”.

Em contrapartida, o Centro Acadêmico XI de Agosto, que representa os estudantes, demonstrou surpresa com a nova posição da gestão.

“Compreendemos que o momento de greve ocasiona eventuais embates entre o interesse público dos estudantes e a institucionalidade resistente à mudança. Não faz sentido, no entanto, seguir a postura adotada agora pela diretoria, de romper com o diálogo com os representantes da greve”, dizem os estudantes, em nota.

Leia o comunicado na íntegra: 

“A faculdade esgotou suas possibilidades de negociação com os ‘grevistas’. A pauta das negociações restringe-se, agora, até pela natureza prevalente dos temas, às conversações dos estudantes paralisados com a Reitoria.

A escalada de pautas radicais, propositadamente descoladas da realidade e, por isso, inalcançáveis, mostra interesses pouco claros e distantes das preocupações verdadeiramente acadêmicas.

Se os alunos –ou parte dos alunos– pretende fazer ‘greve’, que continue fazendo. Mas que saibam das consequências de seus atos.

Os prejuízos para a USP e para a Faculdade de Direito são claríssimos e graves. Abalo de imagem, esvaziamento dos programas sociais internos, instalação de um clima de discórdia e acirramento de ânimos entre docentes e estudantes, comprometimento dos programas escolares, dentre outras perdas. As maiores vítimas desse processo são os próprios alunos. Os maiores beneficiários são os grupos radicais que, no extremo oposto, se deliciam com a situação. A Faculdade de Direito não merece ser assim vilipendiada.

As ameaças, hostilidades e ataques a professores, alunos e funcionários são intoleráveis e não serão admirados. Os membros da comunidade acadêmica que tenham sofrido ou sofrerem qualquer violência ou constrangimento terão todo o respaldo da diretoria para a tomada das medidas cabíveis.

Professores e funcionários que dedicaram a vida à Escola reafirmaram, durante todo o período da paralisação, sua entrega e amor à faculdade. As tentativas de rompimento desse clima de diálogo e civilidade causam profunda tristeza e decepção.

A ‘greve’ não é dos professores. As aulas não serão repostas. Haverá perda do semestre para aqueles que não voltarem às atividades. Provavelmente, isso poderá causar prejuízos a todos e, mais imediatamente, àqueles que deveriam colar grau no final do ano

As aulas prosseguirão de modo virtual (online), para os professores que assim desejarem fazer.

Num último apelo à racionalidade, desocupem a faculdade, acabem com a paralisação e retornem às aulas. Reflitam seriamente sobre as propostas da Reitoria, que demonstrou sensibilidade e realismo diante dos pleitos apresentados.

No dia do 35º aniversário da Constituição de 1988, não nos curvamos aos radicalismos, às intransigências e às ilegalidades, por mais tolerantes que possamos ser.”

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