Como se constrói uma sociedade com tipos como Jair Bolsonaro?

Há gente que em vez de coração tem um buraco negro, um deserto, um páramo desabitado, uma gigantesca terra congelada

Realidade brasileira de trabalho infantil e precário deveria servir de alerta a toda medida de precarização de trabalhadores.

Realidade brasileira de trabalho infantil e precário deveria servir de alerta a toda medida de precarização de trabalhadores.

Sociedade

Alguns dias atrás, Jair Bolsonaro soltou uma dessas pérolas que confirmam a sólida hipótese de que a burrice é o atributo humano que mais tende ao infinito. Segundo ele, o trabalho infantil “dignifica” porque, “quando um moleque de 9, 10 anos vai trabalhar em algum lugar, tá cheio de gente aí (dizendo) ‘trabalho escravo’, não sei o quê, ‘trabalho infantil’. Agora, quando tá fumando um paralelepípedo de crack, ninguém fala nada”. Eu, nesses momentos, não sei se grito, choro ou vomito. Talvez faça tudo ao mesmo tempo. Na verdade, minha vontade é fazer algo muito pior. Não dá para escrever aqui.

Nem nos meus piores pesadelos pensei que, em 2019, seria necessário argumentar sobre o motivo de a luta contra o trabalho infantil ser absolutamente improrrogável, inadiável. Aqui estou, porém, obrigada a dizer coisas que deveriam ser óbvias numa sociedade minimamente humanizada. Talvez seja este o problema, o adjetivo humanizada é excessivo para muitos seres (des)humanos. Segundo os números da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios de 2015, mais de 2,7 milhões de crianças e adolescentes, de 5 a 17 anos, estão em situação de trabalho no Brasil. Milhões de crianças. Milhões de razões para afirmar que, como sociedade, somos um fracasso irrefutável e esmagador. 

Como se ainda faltasse algum detalhe na declaração macabra, Bolsonaro acrescentou uma emotiva memória biográfica da sua infância rural. Segundo ele, aos 9, 10 anos de idade, trabalhava em uma fazenda no interior de São Paulo, colhendo milho, e “não fui prejudicado em nada”.  Horas e dias depois, vários brasileiros que ostentam grandes fortunas foram às redes sociais dar testemunho do valor do trabalho infantil, porque eles “trabalharam na empresa do pai nas férias”. 

Eis aqui outra comprovação de que, com frequência, a riqueza é inversamente proporcional à inteligência e, com certeza, é inversamente proporcional à sensibilidade. Sem dúvida, uma bactéria sente muito mais empatia do que um desses ricos capazes de soltar tantas toneladas de merda pela boca. Tantas, que um proctologista cuidaria muito melhor dos dentes deles do que um dentista. A diferença entre nós e esses seres (des)humanos com a empatia de um fungo não é se vota na esquerda ou na direita. A diferença entre nós é muito mais profunda. A diferença é que tem gente que em vez de coração tem um buraco negro, um deserto, um páramo desabitado, uma gigantesca terra congelada.  

Lembro-me de uma cena a que assisti na região dos Jardins meses atrás. Uma dessas cenas do cotidiano que são como facas, se enfiam nas pupilas e “desver” não é uma possibilidade: uma senhora, branca, caminhava na frente de uma babá, negra, que carregava nos braços o filho, branco, da senhora branca. A babá carregava ainda uma pesada mochila de criança. A senhora só carregava uma bolsa da Chanel. Num determinado momento, quando atravessavam a rua, a mochila caiu do braço da babá. A mãe, com a Chanel no braço, ficou olhando e não fez gesto para pegar a mochila. A babá, no meio da rua, e já com o sinal verde para os carros, teve de fazer uma manobra arriscada para ela e para a criança que carregava nos braços e quase caiu, no intuito de pegar a mochila. A mãe, com sua Chanel, inerte, inexpressiva, uma daquelas ricas com a sensibilidade de um microrganismo. Aliás, um microrganismo daria valiosas lições de ética para ela.

Uma sociedade pressupõe algum grau de convivência entre os cidadãos, um projeto de construção de presente e futuro coletivos, mas como se constrói uma sociedade com esses tipos? Como se constrói uma sociedade quando ainda muitos acumulam absurdas quantidades de poder?

Ultimamente, em São Paulo, vemos um enorme crescimento de famílias em situação de rua, de crianças em situação de rua. É um dia a dia tão brutal que rompe o coração em pedaços. Qual é o projeto conjunto, o diálogo possível com quem não só não sente o coração em pedaços, senão que têm a indecência de dizer que essas crianças estariam muito melhor trabalhando? Para mim é óbvio, não há projeto conjunto nem diálogo possível.  Nossa única opção é enfrentar, combater e vencer a desumanidade. Gente com o coração do tamanho de micróbio é muito perigosa. Gente rica com o coração do tamanho de um micróbio é mais perigosa ainda. 

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Doutora em Ciências Sociais pela Universidade Complutense de Madri e professora de Relações Internacionais da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).

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