Alvo da PF, Ricardo Salles também é investigado no Pará por proteger um notório desmatador

O pecuarista protegido ocupa terras griladas e acumula multas de 59 milhões de reais

Ele se esconde atrás dos militares. (FOTO: Redes sociais e Lula Marques)

Ele se esconde atrás dos militares. (FOTO: Redes sociais e Lula Marques)

CartaCapital,Sustentabilidade

Na quarta-feira 19, o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, viu-se obrigado a interromper uma temporada no Pará para comparecer à Superintendência da Polícia Federal em Brasília. Embora tenha se adiantado aos fatos e se apresentado espontaneamente aos delegados da Operação Akuanduba, que investiga a exportação ilegal de madeira, Salles está mais enrolado do que deixa transparecer.

Com autorização do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal, os investigadores quebraram o sigilo fiscal e bancário do ministro e realizaram buscas e apreensões nos gabinetes da pasta, além de endereços particulares. Dez servidores públicos em cargos de confiança foram afastados, o mais graúdo, Eduardo Bim, presidente do Ibama. A apuração tem ramificações internacionais. Após uma carga de madeira ilegal oriunda do Brasil ter sido apreendida nos Estados Unidos, empresários estrangeiros acusaram funcionários da área ambiental de envolvimento no esquema.

O escritório de advocacia do qual Salles é sócio esteve entre os alvos, acusado de movimentar de forma “extremamente atípica”, na descrição de Moraes, 14 milhões de reais entre janeiro de 2012 e junho do ano passado. Salles classificou a operação como “exagerada”, mas as convicções sobre a sua queda voltaram a movimentar a bolsa de apostas. Enquanto o ministro boiadeiro prestava esclarecimentos à PF, circulavam em Brasília boatos de que o Palácio do Planalto havia iniciado consultas em busca de novo titular para o Meio Ambiente.

A Akuanduba é a mais recente e grande enxaqueca de Salles, mas não a única. O ministro está às voltas com outra denúncia que reforça sua complacência com o crime na Amazônia. Um novo inquérito, aberto na segunda-feira 17 por procuradores federais de Altamira, no Pará, debruça-se sobre o cancelamento de uma operação contra o desmatamento no estado. Somam-se à nova investigação uma queixa-crime contra Salles­ por defender madeireiros ilegais e duas ações civis públicas por improbidade administrativa.

Um ato do ministro, indica o Ministério Público, comprova a obstrução: Salles transferiu seu gabinete e os comandos do Ibama e do ICMBio para o sudoeste paranaense, no que parecia uma inócua jogada de marketing. Não era. Vinte quatro horas antes de desembarcar em Altamira, ele atuou para interromper uma ação de fiscalização do ICMBio que mirava um dos maiores desmatadores do sul do estado. Responsável por destruir a vegetação nativa em 2,26 mil hectares, o fazendeiro, que cria gado em terra grilada, escapou da “batida” por interferência do diretor de Criação e Manejo de Unidades de Conservação do órgão ambiental, Marcos ­Simanovic, tenente-coronel da Polícia Militar de São Paulo colocado no posto por Salles, que se cercou de PMs paulistas, integrantes da Rota incluídos. Conforme revelou CartaCapital com exclusividade, mais de 104 policiais ganharam cargos de confiança em autarquias sob o guarda-­chuva do Meio Ambiente.

O pecuarista protegido ocupa terras griladas e acumula multas de 59 milhões de reais

Além de ocupar terras públicas sem autorização, o pecuarista, que não teve seu nome revelado, acumula 15 autos de infração, no total de 59 milhões de reais (ou 100 milhões, em valores corrigidos), por danos à floresta. O objetivo da operação era dar xeque-mate no infrator. Acabou interrompida por ordem direta de Simanovic, mas, de acordo com fontes ouvidas por esta revista, o destino da fiscalização foi selado no gabinete do ministro.

O Ministério Público apura os prejuízos ao Erário decorrentes da interrupção, uma vez que as investigações que culminariam na apreensão do gado envolveram agentes da Abin, prefeituras, pagamento de diárias, duas ações precursoras realizadas pela inteligência do ICMBio e o uso de aviões. “Trabalho na região desde 2004 e não tem 1 metro que não tenha gado pastando. Lá deixou de ser floresta. Multas e embargos, como neste caso, são inócuos. Além disso, a criação impede a regeneração natural da unidade de conservação. Mas ­Salles conta com apoio de pecuaristas, principalmente daqueles que ocupam áreas de preservação. Não permitiram a apreensão para o governo não ficar mal com sua base”, contou uma fonte que confirmou a autorização do ministério para a mudança de alvo da equipe.

Bim, presidente do Ibama, perdeu o cargo. (FOTO: Ibama)

CartaCapital teve acesso à troca de ­e-mails entre coordenadores do ICMBio e fiscais que fariam a operação. As mensagens tratam justamente da determinação de suspender a operação um dia antes de os servidores públicos saírem a campo. A troca de correspondência digital, intitulada “Participação em Operação de Fiscalização”, foi iniciada em 6 de maio e culminou na ordem de recuo. Tudo começou em 2020, quando o então ­coordenador-geral de Proteção, Diego Bezerra Rodrigues, reuniu subordinados para mapear a criação de gado que invadia áreas de preservação ambiental em Altamira. Em 22 de abril último, quase um ano depois da primeira reunião, entre investigações preliminares e preparativos legais, uma Instrução Normativa Conjunta inviabilizou o processo de autuação dos órgãos de fiscalização. Na sequência, Rodrigues pediu exoneração do cargo e acabou substituído por Adriano Souza. Este se reuniu com os servidores e, posteriormente, com Simanovic para tratar da operação. Uma semana depois, os fiscais foram surpreendidos com a “mudança de enfoque”.

O delegado Saraiva, afastado do cargo por denunciar Salles, comemorou: “Eu te disse! Eu te disse!”

Em nota intitulada “A lona e o picadeiro do ministro do Meio Ambiente”, a Ascema, associação dos funcionários de órgãos ambientais, afirma que a mudança de gabinete de Salles para Altamira interferiu em várias fiscalizações. O ministro, entre outras, quebrou uma regra de ouro dos servidores, a de não anunciar ou divulgar previamente os locais de trabalho de campo das equipes. Por motivos óbvios, a divulgação facilita a fuga dos alvos da fiscalização. Em uma das publicações nas redes sociais, Salles aparece perto de um trecho da rodovia BR-230, a ­Transamazônica, área que registra as mais altas taxas de desmatamento na região. Não bastasse, o ministro voltou a insistir na militarização da Amazônia, obsessão de Jair Bolsonaro, medida que serviria para melhorar a imagem do Brasil no exterior e demonstrar o “empenho” do governo federal em preservar a floresta. A presença do Exército na região não passou, porém, de desperdício de dinheiro público. A Operação Verde Brasil 2, sob o comando do vice-presidente Hamilton Mourão, torrou 410 milhões de reais sem conseguir controlar o desmatamento. Pior. Segundo o Imazon, que mede por satélite a devastação, abril bateu recorde de destruição para o mês em uma década. Foram devastados 778 quilômetros quadrados, 45% a mais do que no mesmo período do ano passado.

A Akuanduba soa como resposta da PF ao afastamento de Alexandre Saraiva, superintendente no Amazonas, por denunciar justamente a interferência de Salles para liberar uma carga de madeira apreendida. “Eu faço parte desse grupo de trabalho que monitora as unidades de conservação e, desde que essa gestão assumiu, vemos uma política ambiental completamente problemática. Há um desmonte da política de fiscalização no ICMBio e com retiradas de servidores de campo, centralização de atividades. De lá para cá relatamos 51 projetos de lei para reduzir ou extinguir unidades de conservação. Tudo isso levou o nosso grupo de 17 procuradores a ajuizar ação de improbidade em face do ministro”, afirma o procurador Leandro Mitidieri, coordenador do Grupo de Trabalho de Unidades de Conservação do MPF. No Twitter, Saraiva celebrou a operação contra o desafeto. No primeiro post a respeito, citou um Salmo: “Regozijem-se os campos e tudo o que neles há! Cantem de alegria todas as árvores da floresta”. Em seguida, ironizou: “Tudo pela Amazônia” e “Eu te disse! Eu te disse”.

Publicado na edição nº 1158 de CartaCapital, em 20 de maio de 2021.
Responda nossa pesquisa e nos ajude a entender o que nossos leitores esperam de CartaCapital

Um minuto, por favor...

Obrigado por ter chegado até aqui. Combater a desinformação, as mentiras e os ataques às instituições custa tempo e dinheiro. Nós, da CartaCapital, temos o compromisso diário de levar até os leitores um jornalismo crítico, alicerçado em dados e fontes confiáveis. Acreditamos que este seja o melhor antídoto contra as fake news e o extremismo que ameaçam a liberdade e a democracia.

Se você acredita no nosso trabalho, junte-se a nós. Apoie, da maneira que puder. Ou assine e tenha acesso ao conteúdo integral de CartaCapital!

Repórter da revista CartaCapital

Compartilhar postagem