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A IA representa uma ameaça à ‘integridade cognitiva’ do eleitor
A nova disputa pelo poder não acontece nas urnas, mas na mente do cidadão, sob o assédio constante de sofisticados agentes artificiais
A preocupação do governo brasileiro com uma possível interferência externa nas redes sociais durante as eleições de 2026, amplamente noticiada pela mídia, deveria produzir um efeito maior do que a disputa política do momento. Ela deveria nos obrigar a discutir um problema estrutural que ainda tratamos como se fosse um episódio circunstancial.
Não se trata apenas das recentes manifestações de Donald Trump e Javier Milei em favor de Flávio Bolsonaro, nem da declaração do próprio presidente dos EUA afirmando interesse no processo eleitoral brasileiro. Declarações políticas sempre existiram e, isoladamente, não constituem prova de qualquer operação coordenada. O problema é outro.
Pela primeira vez na história, interesses econômicos, geopolíticos e ideológicos dispõem de tecnologias capazes de disputar a formação da opinião pública em escala planetária, com um grau de sofisticação que desafia a própria capacidade de reação das democracias. A política entrou definitivamente na era da Inteligência Artificial.
Durante muito tempo acreditamos que a maior ameaça ao debate público estava nas fake news e disparos automatizados. Essas práticas continuam relevantes, mas se tornaram apenas uma parte do problema. A evolução da IA inaugurou um cenário muito mais complexo.
Hoje, existem agentes artificiais capazes de produzir conteúdo original, manter conversas longas, adaptar argumentos ao perfil psicológico do interlocutor, responder críticas, criar vínculos emocionais e participar de debates públicos simulando, com enorme precisão, o comportamento humano. Quando uma tecnologia alcança esse estágio, ela deixa de ser apenas uma ferramenta de comunicação. Passa a ser instrumento de poder.
Foi exatamente essa preocupação que levou o Instituto Brasileiro para a Regulamentação da Inteligência Artificial (Iria) a realizar, para o Correio Braziliense, um estudo sobre a “Integridade Cognitiva das Eleições Brasileiras”, utilizando a plataforma Sentinela Eleitoral/Polijetro.
A pesquisa identificou indícios compatíveis com a atuação de agentes artificiais sofisticados entre 5% e 7% das interações analisadas nos dois maiores ecossistemas políticos monitorados do País, ligados ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva e ao senador Flávio Bolsonaro.
É importante esclarecer o alcance desses dados. O estudo não identifica quem controla essas estruturas, tampouco permite afirmar que estejam vinculadas a qualquer candidatura, partido, empresa ou governo. A pesquisa não demonstra interferência estrangeira. O que ela demonstra é algo suficientemente preocupante por si só: considerando que esses dois ecossistemas reúnem mais de 10 milhões de seguidores, centenas de milhares de interações circulam em um ambiente onde já existem fortes indícios da presença de agentes artificiais altamente sofisticados.
Essa constatação muda completamente a natureza do debate democrático. Durante décadas, as democracias preocuparam-se em garantir eleições livres, liberdade de imprensa e proteção ao voto. Tudo isso continua indispensável. Mas o desafio contemporâneo começa muito antes da urna eletrônica. Ele começa no ambiente em que as pessoas constroem suas interpretações da realidade. Quem controla esse ambiente passa a exercer uma influência política extraordinária.
A Cambridge Analytica foi um aviso. Naquele momento, o mundo descobriu que dados comportamentais poderiam ser utilizados para influenciar decisões eleitorais. Desde então, a tecnologia avançou muito mais rapidamente do que a capacidade regulatória dos Estados.
A Inteligência Artificial multiplicou exponencialmente o potencial de personalização, automação e persuasão. Ao mesmo tempo, grandes plataformas digitais concentraram um volume inédito de informações sobre hábitos, preferências, relações sociais e padrões emocionais de bilhões de usuários. Essa combinação produziu uma concentração de poder sem precedentes na história da comunicação.
Não estamos mais discutindo apenas liberdade de expressão. Estamos discutindo soberania informacional, transparência algorítmica e a capacidade das instituições democráticas de compreender quem participa efetivamente da construção do debate público. Se não sabemos distinguir uma manifestação humana de uma interação produzida por Inteligência Artificial, também deixamos de saber, com precisão, onde termina a opinião espontânea da sociedade e onde começa uma percepção artificialmente induzida.
É justamente por isso que proponho ampliar o debate sobre um conceito que considero decisivo para este século: Integridade Cognitiva. Assim como aprendemos a proteger a integridade do voto, será necessário proteger a integridade do ambiente em que esse voto é construído. Democracias não sobrevivem apenas porque garantem eleições periódicas. Elas sobrevivem porque preservam as condições para que cidadãos formem suas convicções de maneira livre, consciente e informada.
O risco que enfrentamos hoje não é apenas tecnológico. É civilizatório. A Inteligência Artificial pode fortalecer a democracia, ampliar a participação política e democratizar o acesso ao conhecimento. Mas também pode ser utilizada para manipular percepções, fabricar consensos artificiais e transformar o debate público em um espaço cada vez mais opaco.
A grande questão, portanto, não é se haverá Inteligência Artificial nas eleições brasileiras. Ela já está presente. A questão que definirá a qualidade da nossa democracia é outra: quem controlará as inteligências capazes de influenciar aquilo que milhões de brasileiros acreditarão ser fruto de sua própria consciência.
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