Pantagruélicas

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O engenheiro que desafiou a hierarquia de Bordeaux

O empresário Yves Vatelot transformou o Château Reignac em um símbolo de quebra de paradigmas em degustações cegas e na venda digital direta

O engenheiro que desafiou a hierarquia de Bordeaux
O engenheiro que desafiou a hierarquia de Bordeaux
Yves Vatelot decidiu que iria se aposentar com uma das paixões da sua vida: o vinho. (Foto: Roberto Rockmann)
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Depois de uma bem-sucedida carreira profissional, com a criação do primeiro depilador eletrônico mundial, que o levou a vários países e contratos, Yves Vatelot decidiu que iria se aposentar com uma das paixões da sua vida: o vinho. Sua relação com o mundo de Baco começou na adolescência. Em uma casa onde o pai não bebia, mas a mãe gostava de tomar uma taça com pratos nos almoços em família, cabia a ele, ainda adolescente, escolher os rótulos. Desde cedo, preferia os vinhos de Bordeaux.

Em 1990, por indicação do consultor Michel Rolland, comprou o Château Reignac, localizado em uma região sem o brilho de outras mais reputadas, mas cujo terroir tinha um trunfo, ao combinar cascalhos profundos de quartzo e solos argilo-calcários adequados tanto para Cabernet Sauvignon quanto para Merlot.

Grand Vin de Reignac (Foto: Roberto Rockmann) Grand Vin de Reignac (Foto: Roberto Rockmann)

O engenheiro Vatelot migrou para o mundo do vinho com a mesma filosofia de anos na gestão empresarial: investimentos em novos métodos e reestruturação da antiga propriedade, construída no século XVII. A colheita passou a ser manual, vinhedos ganharam novos cuidados. O castelo foi reformado, e o pombal do século XVI passou a abrigar uma sala de degustação equipada com um elevador de vinhos projetado pelo próprio Vatelot.

A modernização coincidiu com a criação de um grande júri europeu que se reunia periodicamente para degustar rótulos franceses e de outros países. Em 1998, os degustadores resolveram colocar 200 garrafas de bordeaux às cegas, entre rótulos mais e menos conhecidos. “Um pirata, o meu vinho, também foi colocado e ele ficou entre os 15 melhores depois da pontuação ser conhecida”, diz Vatelot, que esteve essa semana no Brasil para participar de um jantar com 20 safras de seus vinhos, importados pela Clarets.

Quando o resultado se tornou público, críticos e produtores tradicionais reagiram com ceticismo, argumentando que o vinho era agradável na juventude, mas perderia qualidade em cinco anos. Para testar a longevidade, Vatelot voltou a inscrever o rótulo periodicamente nas provas do júri ao longo da década seguinte. O vinho chegou a ficar até em quarto lugar em um ano, mas a virada de chave veio em 2009, com a safra 2001.

Vatelot recebeu uma proposta: ele não toparia financiar uma degustação em Paris, colocando seu vinho às cegas com alguns dos mais famosos e caros rótulos de Bordeaux? O engenheiro respondeu que aceitaria o desafio com três condições: 1) que todos os participantes assinassem declaração de que cediam o uso de suas imagens na prova; 2) que um advogado auditasse; 3) se o Reignac fosse mal, a filmagem da degustação nunca se tornaria pública.

Numa manhã de 2009, em Paris, no restaurante Laurent, um dos preferidos do escritor Luis Fernando Verissimo, reputados jornalistas e sommeliers franceses se reuniram em uma manhã para degustar às cegas alguns famosos vinhos de Bordeaux. Quando degustavam, eram convidados a falar sobre o que achavam que tinham bebido e dar sua opinião sobre cada taça.

Ao fim, a surpresa: Reignac ficou em segundo lugar geral, atrás apenas de Château Angélus, e à frente dos cinco mais famosos e reputados da região (Mouton, Haut Brion, Latour, Margaux e Lafite). Era de longe o mais barato: uma garrafa custa 14 euros (àquela época), enquanto Pétrus saía a 1500 e boa parte dos outros acima de 200 euros.

O château mantém o hábito de realizar degustações semanais às cegas para clientes na torre histórica que mantém na propriedade, colocando seus vinhos em confronto com concorrentes da região. Paralelamente, o portfólio foi expandido para incluir o Balthus — um 100% Merlot de vinhas velhas —, além de um branco e um rosé.

Para ele, a região enfrenta desafios. O sistema de comercialização “en primeur”, um dos pilares da economia vinícola de Bordeaux e influenciou o mundo todo, está em xeque. Nesse modelo, vinhos das principais vinícolas são vendidos antes de estarem prontos e engarrafados, com decisões de compra baseadas em degustações de amostras direto do barril. Durante anos, o modelo funcionou para compradores e vendedores: o comprador era recompensado por assumir o risco da evolução do vinho ao obter um preço melhor do que o da garrafa pronta, enquanto os châteaux garantiam fluxo de caixa para financiar o trabalho da safra seguinte. Com um novo consumidor e estoques altos, a lógica mudou.

Yves buscou sempre dar força ao modelo de vendas próprias. Foi o primeiro a usar esse modelo sem intermediários para vender ao mercado dos Estados Unidos. Em 2015, quando o site da propriedade passou a adotar o sistema de vendas on-line, que hoje representa 20% da receita, o vídeo com a degustação às cegas foi o principal garoto-propaganda. O formato de degustação às cegas transformou-se em rotina.

Em um mundo de canetas emagrecedoras, menos renda disponível e novos hábitos, o consumo de vinho tem caído em muitos países, como França e Estados Unidos. Isso tem levado a novidades saídas das adegas do château: um rosé que pode ser bebido sem se preocupar em guardar e o R de Reignac, um vinho feito com a uva Cabernet Franc. “Temos rótulos feitos para quem quer consumir sem se preocupar com o tempo de garrafa.”

Mesmo após décadas de parceria e amizade, a conexão profunda com Rolland permaneceu inabalável até os últimos dias do enólogo, com quem Vatelot almoçou em Paris poucos dias antes do falecimento de Rolland. Na ocasião, o renomado consultor reafirmou uma convicção compartilhada por ambos: apesar das transformações do mercado e das novas gerações de consumidores, a França continuará sendo o grande centro do mundo do vinho unicamente pela força de seu terroir. Por acreditar nisso, Vatelot e a esposa, Stéphanie, também abrem as portas do château para o enoturismo.

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