Pantagruélicas
Ideias e memórias e de um jornalista apaixonado pelos vinhos e a gastronomia
Pantagruélicas
A fumaça sobre o império de Bordeaux
Entre incêndios florestais, estoques encalhados e regras seculares impostas em 1855, a mais prestigiada região vinícola da França enfrenta uma crise existencial
Até 30 de julho, os incêndios já haviam consumido 115 mil hectares de floresta na França neste verão, um número que posiciona a tragédia como a pior desde 1949. Bombeiros cavaram mais de cem quilômetros de trincheiras. Mais de 200 mil pessoas chegaram a ser retiradas de casa desde o início da crise. Uma das regiões de vinho mais famosas do mundo, Bordeaux, está no epicentro das queimadas.
A fumaça de madeira em combustão basta para danificar o vinho, mesmo sem o fogo alcançar a videira: libera fenóis voláteis que a casca da uva absorve a distância, compostos que se prendem a açúcares da fruta e ficam escondidos até a fermentação soltá-los de novo. “Um vinho que a princípio não cheira a fumaça pode desenvolver, aos poucos, odores de chaminé, durante a fermentação ou até no envelhecimento”, disse Eric Serrano, diretor do Institut Français de la Vigne et du Vin, ao Financial Times dias atrás. “É uma bomba-relógio.”
Em 2022, outro incêndio na Gironde queimou mais de 20 mil hectares de floresta perto de vinhedos, e os piores temores não se confirmaram: testes posteriores encontraram níveis desprezíveis de compostos de fumaça na maioria das uvas, e o gosto de fumaça amplamente temido não apareceu no vinho engarrafado. A comparação inevitável é a Napa Valley de 2020, quando dezenas de vinícolas optaram por não engarrafar a safra, avaliando que o risco à reputação superava o risco real ao paladar. Bordeaux ainda não sabe em qual dos dois precedentes vai cair.
Os incêndios são mais um problema em uma extensa lista que tem perturbado o sono dos produtores de uma região outrora símbolo da riqueza do solo francês. Na metade do século XIX, Napoleão III encomendou aos corretores de vinho de Bordeaux uma classificação dos melhores châteaux para apresentar na Exposição Universal de Paris, aberta em 15 de maio de 1855.
Os corretores ranquearam sessenta e um châteaux tintos pelo preço de venda e pela reputação comercial, divididos em cinco níveis de qualidade. Vinhos brancos doces de Sauternes e Barsac entraram em dois níveis à parte. A hierarquia praticamente não mudou desde então. Em cento e setenta e um anos, uma única revisão formal: em 1973, o Château Mouton Rothschild subiu de segundo para o primeiro posto do ranking, depois de décadas de pressão do barão Philippe de Rothschild. Fora isso, o mapa de prestígio desenhado às pressas para impressionar o mundo em 1855 ainda segue de pé.
O que Napoleão III organizou por decreto tem sido desafiado pelos tempos modernos. O mercado de vinhos finos de Bordeaux perdeu quase um quinto do valor nos últimos cinco anos, segundo o índice Liv-ex Bordeaux 500. As exportações francesas de vinhos e destilados caíram, em 2025, ao menor volume em pelo menos vinte anos. Bordeaux responde por cerca de 10% do mercado de vinhos francês. “Tensões geopolíticas, conflitos comerciais, flutuações cambiais e perda de confiança do consumidor”, resumiu o presidente da federação francesa de exportadores do setor, Gabriel Picard.
O principal banco da região, o Crédit Agricole, relata que aproximadamente 1.200 propriedades — quase 25% dos cerca de 4.000 produtores remanescentes em Bordeaux — estão em renegociações de reestruturação de dívidas, segundo a Wine Spectator. Haveria um excedente de cerca de 150 milhões de garrafas por ano. Os franceses já não consomem os rótulos mais baratos nos supermercados como antes, e os preços do vinho a granel despencaram para níveis muito baixos: o preço médio obtido pelos produtores por um barril de 900 litros gira em torno da metade do seu custo de produção.
Entre agosto de 2023 e maio deste ano, cerca de 21 mil hectares foram arrancados só na Gironde, em programas subsidiados ou voluntários. A área de vinhedo da própria região encolheu de 115 mil para 85 mil hectares em poucos anos. Em setembro do ano passado, a família Guinaudeau, do Château Lafleur, em Pomerol, anunciou que deixaria de vinificar dentro das regras da apelação (a mesma hierarquia erguida em 1855), alegando que o sistema trava práticas essenciais, como a irrigação, diante do que chamaram de “anormalidade climática” sentida desde 2003.
No fim de novembro do ano passado, o Ministério da Agricultura da França anunciou um fundo de 130 milhões de euros para um plano de erradicação definitiva de vinhedos que se estenderá por 2026 e 2027. A medida visa a reequilibrar a oferta diante de uma queda acentuada na demanda, particularmente por vinhos tintos. A crise ainda atinge um sistema secular de venda: o sistema de comercialização en primeur, um dos pilares da economia vinícola de Bordeaux e que influenciou o mundo todo.
Nesse modelo, vinhos das principais vinícolas são vendidos antes de estarem prontos e engarrafados, com decisões de compra baseadas em degustações de amostras direto do barril. Durante anos, o modelo funcionou para compradores e vendedores: o comprador era recompensado por assumir o risco da evolução do vinho ao obter um preço melhor que o da garrafa pronta, enquanto os châteaux garantiam fluxo de caixa para financiar o trabalho da safra seguinte. Com um novo consumidor e estoques altos, a lógica mudou. “Qual é o sentido de comprar en primeur se o vinho estará mais barato daqui a cinco anos?”, questionou Laura Taylor, da loja britânica de vinhos Private Cellar, a David Williams, de The Observer.
Entre a fumaça das florestas em chamas e a poeira dos vinhedos arrancados por tratores financiados pelo Estado, Bordeaux descobre que sua reputação secular já não basta para blindá-la das forças combinadas do clima e do mercado. Fica uma pergunta: a crise e as queimadas terão algum impacto sobre o acordo União Europeia e Mercosul? A França sempre foi um dos maiores opositores da negociação…
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