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Minha carne é de carnaval

É de carnaval protestar, com a integralidade dimensional do ser humano, pela sua fé, na vida, nos santos, nos deuses, no ser humano.

Desfile da Mangueira no Carnaval 2019 (Foto: Wikimedia)
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A história do carnaval denota ritualismo. Em sua origem, relacionada à cíclica da natureza, agradecimento às forças universais que traziam a luz e a fartura da primavera, sobreposta aos espíritos invernais. Noutras épocas, destinado a marcar o início do período de restrição do consumo de carne e bebidas, por isso, abundante. No catolicismo, festa que antecede à restrição, por isso, libertária.

No Brasil, as escolas de samba viraram lugar de denúncia e luta. Quando, eu não me recordo, desde que nasci é assim. Se a sociedade tenta calar as comunidades, na avenida seus gritos ecoam. Com tambor e axé. Força e beleza. Hinos.

É carnavalesca toda a forma artística que usa da festa e da alegria incontida para falar do cotidiano em todas as suas formas. Profano? Só se porque emanado do ser humano e das coisas e dos fatos mundanos que o permeiam. As pessoas irradiam no carnaval sua carga cultural em totalidade.

Em 1989, a escola de samba Beija-Flor, às vésperas do fim formal do período ditatorial, escancarava a censura em seu carro abre alas. Olhai por nós, ainda que proibido. (Joãosinho Trinta de Beija-Flor de Nilópolis, Ratos e Urubus, larguem minha fantasia, 1989). O Cristo vestido aos farrapos causou incômodo na Arquidiocese do Rio de Janeiro. Cristo não podia ter sido pobre? Foi censurado tal qual fora a peça O Evangelho segundo Jesus Cristo, rainha do céu. Jesus não poderia ser mulher? Quem dirá trans!

E por que não se pode falar de um Cristo pobre e retinto? A verdade vos fará livres, anunciou a Mangueira. Pronto, o tema enredo deste ano já virou alvo de abaixo-assinado de instituto católico, que condena a escola de blasfêmia. Algumas vertentes da igreja evangélica alegam que a Estação Primeira de Mangueira quer incutir na sociedade a teoria da Teologia da Libertação, acusada de pregar desconstrução do cristianismo. Crucificada como Paulo Freire e sua Pedagogia do Oprimido, ambos acusados de comunistas.

Portela na Avenida. Foto: Gabriel Monteiro | Riotur

Questiono: só se pode retratar o credo cristão na forma determinada pela Igreja durante a Idade Média? Não há espaço para retratar o credo conforme as experiências sociais de cada um? À imagem e semelhança do que é a criatura humana, todas elas? Olho por olho, dente por dente, espalha, a Lei da Babilônia é diferente (Baiana System, Duas Cidades, 2016).

O incômodo é o elemento sagrado das artes porque é a chave para o questionamento e para a reflexão. Oxalá, evolução.

E então, o que define que carnaval é possível e qual não é? Digo: se busca silenciar o carnaval que escracha as desigualdades, que escancara as injustiças sociais, que dá voz aos anseios populares, que pede dignidade à quem se pretende invisibilizar, que propõe refletir a partir de novas perspectivas. O que indaga o status quo é certamente o alvo de silenciamento e censura.

É lícito usar da fé para questionar injustiças sociais e o estado das coisas, e que assim seja.

Há de se gritar para perguntar: quem matou Marielle? Quem mata todos os dias nas comunidades? Ainda que a pergunta esteja implícita, vinda de convite a ouvir às Marias, Mahins, Marielles, malês (Estação Primeira de Mangueira, História para mimar gente grande,  2019). Transmutação em arte daquilo que diariamente nos causa inconformismo, necessário desfilar, desafiar.

É de carnaval o retrato social denunciado pelo manguebeat e pelo maracatu atômico que se propõe desorganizar para se organizar (Chico Science e Nação Zumbi, Da Lama ao Caos, 1994). É de carnaval o que resiste e o que não se irresigna. É de carnaval o que denuncia o golpe nas avenidas, como fez a Paraíso de Tuiuti em 2019. E nos blocos de rua da madrugada de São Paulo, como faz o Arrastão dos Blocos pela Democracia.

É de carnaval protestar, com a integralidade dimensional do ser humano, pela sua fé, na vida, nos santos, nos deuses, no ser humano e num futuro mais digno. É de carnaval a liberdade para ser, sentir e mostrar. Com ferocidade e ginga.

É de carnaval o que irradia a luz do saber popular e da vivência das ruas na cara dos caretas (Gal Costa, Vaca Profana, 1984).

Minha carne é de carnaval.

Meu coração é igual. (Novos Baianos, Swing de Campo Grande, 1972).

A história do carnaval denota ritualismo. Em sua origem, relacionada à cíclica da natureza, agradecimento às forças universais que traziam a luz e a fartura da primavera, sobreposta aos espíritos invernais. Noutras épocas, destinado a marcar o início do período de restrição do consumo de carne e bebidas, por isso, abundante. No catolicismo, festa que antecede à restrição, por isso, libertária.

No Brasil, as escolas de samba viraram lugar de denúncia e luta. Quando, eu não me recordo, desde que nasci é assim. Se a sociedade tenta calar as comunidades, na avenida seus gritos ecoam. Com tambor e axé. Força e beleza. Hinos.

É carnavalesca toda a forma artística que usa da festa e da alegria incontida para falar do cotidiano em todas as suas formas. Profano? Só se porque emanado do ser humano e das coisas e dos fatos mundanos que o permeiam. As pessoas irradiam no carnaval sua carga cultural em totalidade.

Em 1989, a escola de samba Beija-Flor, às vésperas do fim formal do período ditatorial, escancarava a censura em seu carro abre alas. Olhai por nós, ainda que proibido. (Joãosinho Trinta de Beija-Flor de Nilópolis, Ratos e Urubus, larguem minha fantasia, 1989). O Cristo vestido aos farrapos causou incômodo na Arquidiocese do Rio de Janeiro. Cristo não podia ter sido pobre? Foi censurado tal qual fora a peça O Evangelho segundo Jesus Cristo, rainha do céu. Jesus não poderia ser mulher? Quem dirá trans!

E por que não se pode falar de um Cristo pobre e retinto? A verdade vos fará livres, anunciou a Mangueira. Pronto, o tema enredo deste ano já virou alvo de abaixo-assinado de instituto católico, que condena a escola de blasfêmia. Algumas vertentes da igreja evangélica alegam que a Estação Primeira de Mangueira quer incutir na sociedade a teoria da Teologia da Libertação, acusada de pregar desconstrução do cristianismo. Crucificada como Paulo Freire e sua Pedagogia do Oprimido, ambos acusados de comunistas.

Portela na Avenida. Foto: Gabriel Monteiro | Riotur

Questiono: só se pode retratar o credo cristão na forma determinada pela Igreja durante a Idade Média? Não há espaço para retratar o credo conforme as experiências sociais de cada um? À imagem e semelhança do que é a criatura humana, todas elas? Olho por olho, dente por dente, espalha, a Lei da Babilônia é diferente (Baiana System, Duas Cidades, 2016).

O incômodo é o elemento sagrado das artes porque é a chave para o questionamento e para a reflexão. Oxalá, evolução.

E então, o que define que carnaval é possível e qual não é? Digo: se busca silenciar o carnaval que escracha as desigualdades, que escancara as injustiças sociais, que dá voz aos anseios populares, que pede dignidade à quem se pretende invisibilizar, que propõe refletir a partir de novas perspectivas. O que indaga o status quo é certamente o alvo de silenciamento e censura.

É lícito usar da fé para questionar injustiças sociais e o estado das coisas, e que assim seja.

Há de se gritar para perguntar: quem matou Marielle? Quem mata todos os dias nas comunidades? Ainda que a pergunta esteja implícita, vinda de convite a ouvir às Marias, Mahins, Marielles, malês (Estação Primeira de Mangueira, História para mimar gente grande,  2019). Transmutação em arte daquilo que diariamente nos causa inconformismo, necessário desfilar, desafiar.

É de carnaval o retrato social denunciado pelo manguebeat e pelo maracatu atômico que se propõe desorganizar para se organizar (Chico Science e Nação Zumbi, Da Lama ao Caos, 1994). É de carnaval o que resiste e o que não se irresigna. É de carnaval o que denuncia o golpe nas avenidas, como fez a Paraíso de Tuiuti em 2019. E nos blocos de rua da madrugada de São Paulo, como faz o Arrastão dos Blocos pela Democracia.

É de carnaval protestar, com a integralidade dimensional do ser humano, pela sua fé, na vida, nos santos, nos deuses, no ser humano e num futuro mais digno. É de carnaval a liberdade para ser, sentir e mostrar. Com ferocidade e ginga.

É de carnaval o que irradia a luz do saber popular e da vivência das ruas na cara dos caretas (Gal Costa, Vaca Profana, 1984).

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Meu coração é igual. (Novos Baianos, Swing de Campo Grande, 1972).

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