Programas religiosos defendem templos abertos e fé contra coronavírus

Monitoramento aponta que grupos evangélicos têm trabalhado dois discursos na TV: apoio ao governo e manutenção de orações e dízimos

Programa SOS da Fé (Foto: Reprodução/TV)

Programa SOS da Fé (Foto: Reprodução/TV)

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*Por Olívia Bandeira e Gyssele Mendes


Lideranças religiosas têm usado fartamente as redes sociais e os espaços que ocupam nas mídias de massa no apoio ou nas críticas à política de isolamento social recomendada pelo Ministério da Saúde e pelo Organização Mundial de Saúde (OMS). Monitoramento realizado pelo Intervozes nos dias 4 e 5 de abril em três das cinco TVs abertas de maior audiência no Brasil (Record, Band e Rede TV) mostra que os programas religiosos que ocupam parte considerável da grade de programação dessas emissoras têm desenvolvido dois discursos sobre a pandemia.

De um lado, um discurso voltado para o governo e formadores de opinião no sentido de pressionar as autoridades para a manutenção dos espaços de cultos abertos. De outro, um discurso dirigido aos fiéis sobre a importância de se manter a fé e os laços sociais e econômicos com as igrejas durante a quarentena. Ambos convergem na defesa da ideia da essencialidade da religião não apenas na vida privada, mas na vida pública.

Com o início da pandemia no país, em meados de março, e a recomendação de algumas secretarias estaduais de Saúde e ações do Ministério Público para o fechamento de templos e igrejas, algumas lideranças religiosas iniciaram uma forte campanha em favor da manutenção das suas atividades e relativizaram a gravidade da pandemia, como mostra levantamento feito por Clayton Guerreiro para o Laboratório de Antropologia da Religião da Unicamp. Esta atitude foi sustentada por declarações de Jair Bolsonaro disseminadas nas suas redes sociais e na mídia. Em entrevista ao Programa do Ratinho (SBT), no dia 20 de março, o presidente da República comparou a pandemia a uma “chuva passageira” e defendeu a abertura das igrejas porque essas seriam “o último refúgio das pessoas”.

No final de semana do monitoramento, igrejas de alguns estados do Brasil já haviam suspendido os cultos presenciais, embora muitas ainda mantenham as portas abertas para atividades com número menor de pessoas. Esse é o caso da maior parte das igrejas que possuem programas nas principais emissoras abertas de TV. No entanto, a defesa da reabertura das igrejas apareceu em diversos momentos nos programas transmitidos no final de semana.

A Igreja Universal do Reino de Deus, que ocupa a maior parte do tempo de programação, foi a que mais investiu neste discurso. No programa Inteligência e Fé, comandado por Renato Cardoso, genro do líder da igreja Edir Macedo, entrevistas com pastores residentes em Nova York e na Flórida (EUA) foram utilizadas para reforçar a igreja como serviço essencial. Pastores afirmaram que as igrejas estariam abertas e os cultos realizados com número reduzido de pessoas. O programa afirmou que outros países em que a IURD está presente valorizam e reconhecem a importância da igreja, o que não seria o caso de parte dos governantes do Brasil. Atacando o que seria uma atitude de políticos de esquerda contra as igrejas, o bispo afirmou “não estou puxando pra direita, mas em geral a esquerda, políticos avessos ao evangelho, especialmente à IURD, estão aproveitando esse momento para alimentar preconceito contra a igreja”.

Para defender a ideia de essencialidade das igrejas, os programas monitorados mostraram as doações de alimentos e campanhas de doação de sangue que a IURD tem feito durante a pandemia. No programa de 8h da manhã de domingo na Record, o apresentador afirmou que se dependessem de “certos governantes”, os atingidos pela crise econômica provocada pela pandemia estariam “perdidos”, mas sobreviveriam “graças à Universal e às pessoas que estão doando pelas contas da Universal e com cestas nas igrejas”. Os programas também enfatizaram, por meio de testemunhos, a defesa da importância da igreja para tirar as pessoas “da situação de medo e depressão” e para ajudar as famílias a se manterem estruturadas em tempos de confinamento.

Os cultos da IURD estão sendo transmitidos online, mas os programas enfatizaram que “o altar não está em quarentena” e estimularam as pessoas a visitarem os templos para fazer e receber orações. Também enfatizaram a importância da manutenção do dízimo: “honre a Deus com primícias e ofertas, que ele não desamparará”, disse o apresentador do programa exibido na Record.

Silas Malafaia (Foto: Reprodução)

O programa Vitória em Cristo (Rede TV), da Assembleia de Deus Vitória em Cristo, só citou o coronavírus diretamente ao anunciar o adiamento da caravana da igreja a Alemanha e Israel de abril para setembro. Na oração final, Silas Malafaia fez uma oração genérica pela saúde dos fiéis, contra vírus e bactérias. O silêncio em relação ao tema condiz com sua atitude de minimizar a gravidade da pandemia. Malafaia é uma das principais lideranças evangélicas a utilizar as redes sociais em campanha contra o fechamento das igrejas e na propagação dos discursos do presidente no mesmo sentido. Twitter, Facebook e Instagram chegaram a remover publicações em que o pastor afirmava que a quarentena era uma farsa.

A sede da igreja de Malafaia, no Rio de Janeiro, realiza cultos exclusivamente online desde o dia 22 de março. Na página inicial do site, a igreja justifica o fechamento “devido ao governador do Rio de Janeiro, bem como o prefeito, diminuírem a circulação dos ônibus”, mas frisa, em mensagem de Malafaia, que “na ADVEC, igreja não fecha porta, pelo contrário, o tempo da igreja aberta será ampliado. A única coisa suspensa serão os cultos presenciais. A igreja é um hospital espiritual e emocional”.

É da oração que vem a vitória

Outra igreja que defendeu as portas abertas foi a Assembleia de Deus no Brás, com sede em São Paulo. O pastor Samuel Ferreira abriu o programa Palavra de Vida afirmando “que nada pode parar a igreja, é hora da igreja orar, é da oração que vem a vitória”. E destacou que “os momentos horríveis que o Brasil está vivendo” “não [são] culpa do presidente da República”. Cultos festivos e atividades com aglomeração estão suspensos desde 22 de março. No entanto, o programa de TV enfatizou que as igrejas continuam abertas com pastores e obreiros todos os dias e incentivou as pessoas a frequentarem a igreja, tendo cuidados como a manutenção de distância de três metros entre si. Samuel Ferreira chegou a anunciar que, no dia seguinte, domingo, às 18h, estaria disponível na igreja para receber as pessoas e orar.

O programa SOS da Fé, do líder da Igreja Internacional da Graça de Deus RR Soares, foi apresentado neste domingo pelo pastor Rogério Postigo. O programa que tem horário na Rede TV e na Band não teve o coronavírus como assunto principal. A doença provocada pelo vírus apareceu algumas vezes na oração do pastor ou no testemunho de pessoas que ligaram para o programa afirmando terem sido curadas de “suspeita de coronavírus”, entre outras enfermidades.

A abordagem sobre o coronavírus apareceu em quatro reportagens de viés positivo sobre o combate à pandemia: o teste para detecção rápida do coronavírus elaborado por cientistas da UFRJ, a aprovação da antecipação de feriados pela Câmara e a iniciativa de uma estudante americana que criou máscaras para serem distribuídas. Outra notícia, sobre o aplicativo para cadastrar as pessoas que terão direito a receber a renda básica, fez questão de destacar Bolsonaro de forma positiva ao dizer que a medida foi aprovada pelo presidente para ajudar as pessoas afetadas. “Muito bom receber boas notícias, as pessoas estão precisando, e é isso que os pastores estão fazendo pelo Brasil”, disse o apresentador.

O programa da Igreja da Graça foi o único a convocar os fiéis para o jejum nacional do domingo 5 que havia sido divulgado por Bolsonaro em suas redes sociais. O jejum contou com o apoio de outras lideranças evangélicas da base do presidente, como Silas Malafaia e Edir Macedo. Outros grupos religiosos, no entanto, criticaram a atitude do presidente. Entre as críticas da Frente Evangélica pelo Estado de Direito estavam a defesa do Estado laico e da não segregação religiosa.

Vencer o medo: o discurso para os fiéis

Alguns programas focaram na mensagem aos fiéis, enfatizando o papel da igreja na vida daquele que crê – e contribui financeiramente. No programa Rompendo em Fé, da Comunidade Evangélica Internacional da Zona Sul, o pastor Marco Antônio Peixoto disse “estamos reclusos por causa de um vírus, mas não podemos estar acorrentados no medo”, enfatizando que os fiéis seriam livres para ter alegria e esperança. Vencer o medo foi também o tema do programa Verdade e Vida, apresentado pelo pastor Hernandes Dias Lopes, da Igreja Presbiteriana do Brasil. O pastor disse que o país vive um momento de pânico com a pandemia, que “governantes e governados estão assustados” e que a palavra de Deus é a saída.

No programa Tempo de Atitude, o pastor Josué Valandro, líder da Igreja Batista Atitude, também direcionou sua mensagens ao medo, insegurança e instabilidade provocados pelo que chamou de “crise”, destacando que esta seria a oportunidade de vitória. As redes sociais da igreja também enfatizam notícias positivas sobre a pandemia, como o número de pessoas curadas no mundo, e incentivam os fiéis a desenvolver ações como jejum e oração, doações e ajuda mútua entre empreendedores, assim como evangelizar por meio da internet. A igreja tem entre seus fiéis Michele Bolsonaro, esposa do presidente.

O programa da Igreja Cristã Maranata, exibido na Rede TV na manhã de sábado, não fez qualquer menção ao Covid-19. No entanto, os canais oficiais da igreja indicam que todas as atividades presenciais estão suspensas desde o dia 18 de março e que a igreja está em “oração ininterrupta” até o dia 11 de junho. Outro programa que não fez referência à pandemia foi o Mudança de Vida, do ministério de mesmo nome, exibido em dois horários na Band. Em sua página no Facebook, no entanto, a bispa Cléo Ribeiro Rossafa publicou um vídeo em que critica a “indústria do medo” que seria fabricada pela mídia e defende a abertura dos templos.

Com os templos em funcionamento parcial, as igrejas enfatizam sua presença na mídia de massa e nas redes sociais como forma de disputar a atenção dos fiéis, a manutenção de ofertas e o discurso sobre a Covid-19. E nem sempre o que dizem as lideranças correspondem à percepção do público: segundo pesquisa realizada pelo Datafolha entre 18 e 20 de março, 82% dos entrevistados eram a favor da suspensão dos cultos e missas durante a pandemia.


*Olívia é coordenadora do Intervozes e pesquisadora do Laboratório de Antropologia da Religião da Unicamp e do Grupo de Pesquisa Gênero, Religião e Política da PUC-SP. Gyssele é coordenadora do Intervozes e jornalista.

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