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Mídia alternativa: ações online e off-line para furar as bolhas

I Fórum Internacional de Mídia Alternativa reuniu comunicadores e especialistas em direitos digitais para construir atuação conjunta

Comunicadores debatem papel da mídia alternativa
Comunicadores debatem papel da mídia alternativa
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Quem acompanhou ao vivo no dia 7 de novembro o programa Pânico da Rádio Jovem Pan ou recebeu o vídeo do programa que circulou nas redes sociais viu o jornalista Augusto Nunes agredindo fisicamente outro jornalista, Glenn Greenwald, editor do The Intercept Brasil. No dia anterior, Greenwald, na abertura do I Fórum Internacional de Mídia Alternativa (FIMA), havia defendido a sua participação no programa como uma forma de dialogar com quem pensa diferente. Para o editor do Intercept, é o confronto entre ideias e visões de mundo diferentes que permite transformações na sociedade.

O resultado do encontro entre os dois jornalistas, no entanto, mostrou a dificuldade de se estabelecer diálogos no Brasil atual, em que comportamentos violentos são legitimados por parte da sociedade e por quem está no poder como forma de impor ideias, atacar o jornalismo e a produção de conhecimento. Glenn, que já havia sido vítima de comentários preconceituosos por parte de Augusto Nunes, é responsável por divulgar as gravações que comprometem a imparcialidade da Operação Lava-Jato e desde então vem sendo ameaçado e atacado.

Em um cenário global de ataque à liberdade de expressão, agravado pela concentração histórica dos meios de comunicação, associada ao aumento do poder das grandes plataformas digitais de definir como a informação circula na internet, é fundamental garantir espaços de circulação de uma comunicação alternativa. Neste sentido, participantes do Fórum debateram como construir uma rede de mídias alternativas, independentes e/ou comunitárias que possa “furar as bolhas” ou, em outras palavras, furar os bloqueios impostos pelos grandes meios de comunicação de massa e pelas plataformas de internet para alcançar um público mais amplo.

As respostas não são fáceis, porém há dois pontos importantes que problematizam essas questões. Em primeiro lugar, comunicadores e especialistas apontaram que é fundamental a busca por outros formatos e conteúdos comunicativos, que possam responder à conjuntura em rápida e constante transformação e dialogar com diferentes públicos a partir das diferentes problemáticas que os mobilizam. Em segundo lugar, apontou-se que uma rede de comunicação alternativa não pode estar apenas na internet, mas precisa considerar a atuação nas ruas e nos territórios, dialogando com as vozes e corpos excluídos socialmente e estigmatizados pela grande mídia e política institucional.

Enfrentar os monopólios tradicionais e digitais e construir novos imaginários

Como lembraram Renata Mielli, representante do Fórum Nacional pela Democratização da Comunicação (FNDC), e Haroldo Ceravolo Sereza, do Opera Mundi, a internet, a partir dos anos 2000, permitiu uma nova fase de desenvolvimento da mídia alternativa, que havia representado um papel fundamental nos anos 1970 no combate à Ditadura Militar, por meio da atuação de diferentes segmentos, como a imprensa negra, a feminista, a partidária e a sindical. A rede possibilitou o surgimento de uma série de sites e blogs que foram fundamentais para a visibilização de temas silenciados pela grande mídia. As Blogueiras Negras, por exemplo, foram essenciais para a denúncia do caso de Cláudia Ferreira, assassinada e arrastada por uma viatura da Polícia Militar no Rio de Janeiro em março de 2014, como lembrou a blogueira e historiadora Lívia Teodoro.

No entanto, a evolução da internet e das comunicações nos últimos anos traz novos desafios. Ao mesmo tempo em que a quantidade de veículos multimídia cresce exponencialmente e que as novas tecnologias e as redes sociais trazem facilidades para que um número maior de pessoas produza e publique conteúdos, a distribuição dessa informação é cada vez mais restrita. Isso porque, apesar de as tecnologias aumentarem o acesso aos meios de comunicação, aprofunda-se a concentração da propriedade e da audiência também na internet, como mostram as pesquisas Monitoramento da Propriedade da Mídia (MOM-Brasil) e Monopólios Digitais, realizadas pelo Intervozes.

A partir do desenvolvimento das tecnologias da informação, há em curso no mundo um processo de digitalização e convergência técnico-midiática. Elevam-se as capacidades de armazenamento, tratamento e distribuição de dados, fenômeno denominado “big-data”. A mídia alternativa, historicamente produtora de um jornalismo muito relevante para a sociedade brasileira, se vê enfraquecida em meio à convergência e concentração da mídia, apesar da importância atual de sua atuação e de a internet viabilizar uma série de iniciativas populares, comunitárias e independentes em comunicação.

A concentração do fluxo de informações pelas grandes plataformas gera dificuldades econômicas e de alcance. Nesse sentido, Cynara Menezes, do blog Socialista Morena, falou sobre as dificuldades de gerar recursos para a mídia alternativa e denunciou o controle da distribuição de recursos por plataformas como o Youtube, que determina como e a partir de que critérios os vídeos postados recebem recursos, além de prejudicar canais quando decide por conta própria, por meio de seus algoritmos, remover determinados conteúdos.

Para enfrentar esses desafios, foram apresentadas no FIMA algumas dicas de como lidar com os algoritmos. Mariana Tamari, da Coding Rights, falou sobre a importância de escolher bem as palavras destacadas nos títulos e nos textos publicados, pois elas ajudam tanto a atrair os públicos que devem ser atingidos pela mensagens quanto a evitar robôs que eventualmente possam promover ataques e discursos de ódio.

Krishma Carreira, da Fapcom, destacou a importância de os comunicadores entenderem como as tecnologias funcionam. Os algoritmos, por exemplo, são desenhados, em geral, por homens, de classe média/alta e brancos, o que acaba impondo uma ideologia branca e masculinista no seu modo de funcionamento. A professora também chamou a atenção para a importância de explorar diferentes nichos de público a partir das características das diferentes ferramentas.

Mas os presentes também apontaram que o fortalecimento da mídia alternativa vai muito além da internet. Sérgio Lírio, da Carta Capital, destacou a importância de preservar a qualidade da apuração jornalística, sem ceder a estratégias que possam deixar o debate público superficial e promover desinformação. Lívia Teodoro, autora do blog Na Veia da Nega, e Paulo Talarico, da Agência Mural, chamaram a atenção para a forma de disseminar esse conteúdo, que precisa ser rápida, simples e direta, enfocando também as questões que afetam as populações em seu dia a dia.

Pedro Borges, do Alma Preta, falou da importância do trabalho de base realizado pelas mídias que atuam no território e da formação para a multiplicação de comunicadores nesses territórios. Também sugeriu a realização de coberturas em rede, para construir novos imaginários. Essas ideias foram bem sintetizadas por Marta Dillon, jornalista e fundadora do Movimento Ni Uma Menos, da Argentina, quando disse que “a única maneira de fazer mídia alternativa é estar nas ruas, colocarmos nossos corpos e sentimentos”.

Sobre o FIMA

O I Fórum Internacional de Mídia Alternativa foi organizado pelo coletivo Jornalistas Livres, com o apoio do Centro de Estudos de Mídia Barão de Itararé, do Coletivo Intervozes e dos Departamentos de Jornalismo e História da USP. Durante três dias, reuniu mais de 20 veículos, coletivos e comunicadores. Além dos já citados, o FIMA contou com as pioneiras Rádio Favela, de Belo Horizonte, Rádio Heliópolis, de São Paulo, e a Rádio Brasil Atual; outros veículos de mídia alternativa como Revista Fórum e Outras Palavras; comunicadoras que trabalham com a perspectiva de gênero, como a representante do Portal Catarinas (SC); e coletivos descentralizados que se organizam pela internet, como o Mídia Ninja e a Mídia Índia, este trazendo a perspectiva das populações indígenas para o debate.

O evento reuniu também organizações que trabalham pela democratização da mídia e da internet, como a Coalizão Direitos na Rede, o Internet Lab e a Maria Lab. O jornalismo tradicional esteve presente por meio de Mônica Bergamo, jornalista da Folha de S. Paulo. O diálogo contou também com acadêmicos como Laurindo Leal Filho e Antonio Carlos Mazzeo, da USP.

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