Globo e Moro retomam dobradinha em vazamento e construção como herói

Renúncia permitiu à Globo manter-se crítica a Bolsonaro, reaproximando o político que ajudou a construir e que pode ser saída da burguesia

Pronunciamento do ministro Sergio Moro anunciando sua saída do governo Bolsonaro - Foto: Marcello Casal Jr/Agência Brasil

Pronunciamento do ministro Sergio Moro anunciando sua saída do governo Bolsonaro - Foto: Marcello Casal Jr/Agência Brasil

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Por Helena Martins*

A saída de Sergio Moro do Ministério da Justiça elevou o tom da crise política que permeia o governo de Jair Bolsonaro, com potencial para se tornar definidora do apoio político deste junto à população e, quiçá, de sua capacidade de seguir governando neste momento em que a pandemia  do coronavírus também se torna mais dramática em todo o país.

Moro, que desde o início do mandato foi tratado como “superministro” e serviu de fiador de um governante acusado de fascista por muitos, não apenas fez uma coletiva para explicar a saída, mas quase antecipou uma delação premiada, revelando crimes que o ex-patrão teria cometido. Este, por sua vez, saiu a campo em defesa própria, buscando também diante das câmeras e ladeado pelos ministros que seguem no barco amenizar a crítica e manter seu público cativo.

Em momentos como este, a mídia pode cumprir papel importante na promoção de determinadas visões. Por isso a importância de analisar seu posicionamento, que expressa parte do posicionamento da burguesia, a qual integra. A análise dos principais telejornais evidencia inclinações distintas diante de tal contexto.

O Grupo Globo, principal oligopólio midiático do país, que já vinha há meses em rota de colisão com o governo que ajudou a eleger, reencontrou o personagem que alçou nos últimos anos como herói, por meio de sua longa e sempre parcial cobertura da operação da Lava Jato.

Agora, usa a situação para promovê-lo e reabilitá-lo, enquanto simultaneamente contribui para o desagaste do governo, por meio de cobertura ampla sobre a renúncia ao cargo. Emissoras mais próximas a Bolsonaro, como a Record, e mesmo a pública TV Brasil, que tem sido fragilizada e ocupada por ele, amenizaram o tom, ainda que as circunstâncias e seus impactos as tenham impedido de dar relevância aos fatos.

É sempre importante lembrar que a posição dos meios de comunicação é, em geral, perceptível nos detalhes, pois as regras do jornalismo orientam práticas de seus profissionais e constroem sua relação com o público, não podendo ser descartadas simplesmente, sob pena de uma cobertura abertamente tendenciosa ser desmascarada por narrativas das concorrentes ou por aquelas que, de forma mais diversa, circulam na internet. A um olhar atento, todavia, não podem escapar suas inclinações.

O Jornal Nacional, principal telejornal do país, não mediu esforços para mostrar a relevância do caso. Em edição que se estendeu além do horário que é resguardado a ele na grade de programação da Globo, este assunto foi abordado por pouco mais de uma hora. O jornal teve início com texto que  destacava as diferenças entre os momentos de ingresso de Moro no ministério e o atual.

“Abril de 2020” – leu a apresentação, deixando entrever trata-se de um momento histórico –, deu-se a renúncia “contra a vontade de Sérgio Moro”, acrescentando que este apresentou “denúncias graves contra o presidente”. Logo em seguida, anunciou que Moro teria respondido pedidos de esclarecimento da emissora e enviado a ela “provas” dos crimes. A partir de então, dez trechos da coletiva do ministro foram apresentados.

Humanizando-o e conferindo-lhe preocupação com a situação do Brasil no contexto da pandemia, em trecho escolhido para o início da sequência, Moro afirmou: “Durante essa pandemia, tendo que realizar esse evento, busquei ao máximo evitar que isso acontecesse, mas foi inevitável”.

Depois, na sequência de falas abordou aspectos como a tentativa de interferência política na Polícia Federal, seu afirmado compromisso com a lei e o fato de ação semelhante não ter acontecido “nem durante a Lava Jato, a despeito de todos os problemas de corrupção dos governos anteriores”, que por tantas vezes a Globo explorou.

Mostrando-o como incorruptível, destacou falas em que dizia: “Não tenho como persistir com o compromisso que eu assumi, sem que tenha condições de trabalho” e que não teria como “sinalizar uma concordância com uma interferência política na Polícia Federal”, para concluir afirmando que “não enriqueci no serviço público” e que “sempre vou estar à disposição do país para ajudar no que quer que seja”.

Na sequência, reportagem tratou dos 512 dias de Moro a frente do ministério. Nela, trouxe histórico de sua atuação na Lava Jato e já no governo, destacando o amplo apoio popular registrado nas pesquisas e, depois, os “atritos com o presidente”, como em torno do Pacote Anticrime e do Conselho de Controle de Atividade Financeira (COAF), principal órgão de combate à corrupção no país.

Citou ainda a troca da superintendência na PF no Rio de Janeiro, trazendo imagem em que Bolsonaro manifestava: “se eu não posso trocar o superintende, vou trocar o diretor-geral”. A matéria terminou com carta dos servidores destacando papel de Moro.

Eram 20h55 quando o Presidente falou pela primeira vez, mais de vinte minutos depois do início do jornal. Bolsonaro teve até mais inserções de trechos do que Moro: foram 13 ao todo. Em outros momentos, a Globo já se furtou de dar espaço para o outro lado, regra básica do jornalismo. Aqui, ela foi mais cuidadosa.

Permitiu que Bolsonaro aparecesse diante dos telespectadores falando que “o senhor diz que tem uma biografia a zelar, pois eu digo que tenho uma pátria a zelar”, além de outros conteúdos para justificar sua postura, a exemplo de quando afirmou: “nunca pedi para ele informações sobre o andamento de qualquer processo”. Até espaço para sua crítica à mídia, que o teria colocado “de cabeça para baixo” em busca de infrações, foi conferido.

O furo da noite

O trunfo da Globo foi apresentado no momento seguinte, quando apresentou “provas” que teriam sido entregues exclusivamente para ela por Moro. Então, o Jornal Nacional exibiu a imagem que seria de uma troca de mensagem entre Bolsonaro e Moro. Aquele teria enviado link de matéria do site O Antagonista que apontava que a PF estava “na cola” de pelo menos 10 deputados bolsonaristas, seguido de mensagem em que teria dito “mais um motivo para a troca”.

Moro teria detalhado que os inquéritos seriam de responsabilidade do Supremo Tribunal Federal (sem criticar o Presidente pelo pedido). Depois, outra mensagem foi apresentada. Seria da deputada Carla Zambelli (PSL), pedindo “por favor” para o ministro aceitar “Ramagem”, um possível substituto de Maurício Valeixo no comando da PF.

Moro, que bem caberia em um desses personagens como herói sem caráter, teria dito, segundo o print: “Prezada, não estou à venda”. A emissora informou que a deputada não quis comentar o caso.

A origem e a veracidade das mensagens, a integralidade delas, a forma de sua obtenção e o possível contexto em que estavam inseridas não foram questionados – o que a Globo fez à exaustão diante do escândalo da “Vaza Jato”.

Como ocorreu quando a Lava Jato vazou áudios da então presidenta Dilma Rousseff em conversas privadas com o ex-presidente Lula, desta vez o vazamento serviu e não foi criticado pela emissora, o que mostra que seus critérios jornalísticos dependem sobremaneira do quão eles estão de acordo com seus objetivos.

Da mesma forma, não foi problematizada, sequer mencionada, afirmação de Moro de que teria negociado uma pensão para sua família junto a Bolsonaro como critério para assumir o Ministério. Esse trecho da coletiva, aliás, embora não se sustente em regra alguma do ordenamento jurídico brasileiro, não foi abordado por nenhuma emissora do “mainstream” midiático nacional.

Impeachment em pauta

Na sequência, uma longa matéria apresentou a repercussão dos fatos em meio às instituições e junto aos políticos. Manifestações da Frente Parlamentar de Segurança Pública e da Associação dos Magistrados Brasileiros enaltecendo Moro foram algumas das apresentadas.

Também a posição da Ordem dos Advogados do Brasil, indicando possíveis crimes por parte do Presidente da República, e da Associação Brasileira de Imprensa, anunciando que ingressaria com pedido de impeachment, foram projetadas. No caso desta, destacou que o pedido se baseia nos “sucessivos crimes e atentados à saúda pública” e que os “fatos de hoje tornam a situação mais grave e insustentável”.

Pedidos de impeachment dos partidos Rede e PSB foram detalhados. Do meio político, tiveram destaque os governadores do Rio de Janeiro e de São Paulo, Wilson Wiztel e João Dória, que apareceram em vídeo criticando Bolsonaro. Tuítes de vários governadores e políticos como Fernando Henrique Cardoso se somaram na crítica.

Como líder da oposição, o deputado Alessandro Molon também teve vídeo veiculado, no qual disse que, “considerando os crimes que o Presidente vem cometendo, a nossa omissão seria imperdoável”. Ainda sobre o Congresso, foi anunciado que uma Comissão Parlamentar de Inquérito estava sendo articulada para averiguar as denúncias contra Bolsonaro.

Nem Lula nem Fernando Haddad, que ficou em segundo lugar na disputa eleitoral contra Bolsonaro, foram mencionados. A repercussão de ministros do Supremo Tribunal Federal e a posição da senadora Simone Tebet (MDB), presidente da Comissão de Constituição e Justiça do Senado, reforçaram a ilegalidade dos posicionamentos de Bolsonaro.

A repercussão na imprensa internacional e os impactos no “mercado”, com a queda das bolsas e aumento do dólar, também foram apresentados. Por fim, o pedido de investigação da Procuradoria Geral da República foi detalhado. Depois, imagens mostraram “panelaços” contra Bolsonaro em todo o Brasil.

A Globo parece ter reencontrado não só o herói que, seguindo o caminho típico da indústria cultural, busca apresentar em narrativas tão polarizadas quanto simplistas, mas possivelmente também o candidato que espera ter nas próximas eleições.

Não é de hoje que sabemos que Bolsonaro foi a opção possível de parte da burguesia brasileira, diante de outros que não lograram êxito. Agora, ela tem a chance de alçar Moro ao posto – e dá indícios de que não medirá esforços para fazê-lo.

Nessa toada, a crise política do governo Bolsonaro e, ainda mais geral e profunda, da covid-19, poderá culminar no “mito do eterno retorno”: no fortalecimento da direita como falsa saída para problemas que ela ajudou a criar – e Moro não poderia ser mais ilustrativo disso, dado o papel que cumpriu para o golpe contra Dilma e para a eleição de Bolsonaro.

*Helena Martins é jornalista e integrante do Intervozes.

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