Cisma entre Record e governo angolano expõe disputas e contradições

Suspensão do sinal da RecordTV no país africano é mais um capítulo da novela envolvendo a Universal, que chegou a pedir apoio de Bolsonaro

 Edir Macedo e Bolsonaro, acompanhados de Renato Cardoso
ao fundo. Cardoso cobrou publicamente que Bolsonaro agisse no caso da
deportação de bispos brasileiros da IURD, provocando rumores de racha do
apoio da IURD ao governo (Alan Santos/PR)

Edir Macedo e Bolsonaro, acompanhados de Renato Cardoso ao fundo. Cardoso cobrou publicamente que Bolsonaro agisse no caso da deportação de bispos brasileiros da IURD, provocando rumores de racha do apoio da IURD ao governo (Alan Santos/PR)

Intervozes

*Por Alex Hercog, Iury Batistta, Olívia Bandeira, Réia Sílvia Pereira

Transmitido pela RecordTV África, A Hora do Faro é o programa brasileiro mais visto em Angola. Assim como a atração apresentada por Rodrigo Faro, a programação da emissora conta com expressivo êxito no país africano, superando a TV Globo em audiência. No dia 21 de abril, porém, o sinal da Record foi sumariamente interrompido. A medida marca um dos pontos altos de um enredo cuja trama supera em muito os folhetins da emissora e revela as tensões entre a mídia brasileira, o governo angolano e a Igreja Universal do Reino de Deus.

A interrupção da Record teve gerência direta do governo de Angola, país presidido por João Lourenço (MPLA) desde 2017. Foi o Ministério de Telecomunicações, Tecnologias de Informação e Comunicação Social (MINTTICS) que ordenou diretamente a suspensão, sob alegação de infrações às leis de telecomunicações do país, que adotou uma série de novas regras em 2017. Na mesma ocasião, outros dois canais de TV foram suspensos. No caso da Record, uma das violações, de acordo com o ministério, era que o diretor executivo da emissora não era angolano e que os jornalistas brasileiros não estavam credenciados para o exercício da profissão no país africano.

Uma semana após a interrupção do sinal da Record, em 30 de abril, Fernando Teixeira deixou o comando da emissora. Com a saída de Teixeira, a nova direção declarou só contar com a atuação de trabalhadores angolanos no canal. Ainda assim, quase um mês depois, a emissora continuava fora do ar.

A suspensão do sinal da Record em Angola não representa pouco. A emissora é o canal estrangeiro mais assistido. De acordo com o instituto MarkTest, que corresponderia ao Ibope no Brasil, a Record África, com média de 35% de audiência, vence a Globo com 32%. No jornalismo, a predileção dos angolanos também se confirma: o Jornal da Record vence o Jornal Nacional, sendo visto por 11%, contra 3%. Inaugurada em Angola em 2005, a chegada da emissora coincidiu com dois movimentos: a expansão internacional da mídia brasileira e o estreitamento das relações comerciais e diplomáticas entre Brasil e Angola vivenciado nos anos 2000.

Contudo, a revolta da IURD e a suspensão da Record parecem expressar o enfraquecimento dessas relações. Em entrevista ao portal do Committee to Protect Journalists, o secretário-geral do Sindicato dos Jornalistas Angolanos, Teixeira Cândido, questionou a competência do Ministério para tomar tal medida, alegando que a decisão deveria ser fundamentada a partir do que determina o Estatuto do Jornalista. Observando o conflito envolvendo a Igreja Universal em Angola, fica difícil acreditar que a decisão do governo foi baseada em critérios técnicos e não políticos.

Disputa na Igreja

A suspensão da Record se dá em um contexto de profundas mudanças no comando da Igreja Universal em Angola, após o movimento “reformista”. É necessário ponderar que a lei angolana determina que as instituições religiosas necessitam de personalidade jurídica e de autorização governamental para que possam funcionar. A cientista social Camila Machado Sampaio, que fez pesquisa em Angola sobre a IURD na segunda década dos anos 2000, destaca que a Universal chegou ao país em 1991, num contexto de abertura religiosa e econômica vividos no país, que foi governado por José Eduardo dos Santos de 1979 a 2017. 

Ela explica que, mesmo com a abertura, a institucionalização das religiões é um processo complexo no país: “a IURD chegou em Angola em um momento de abertura econômica, no final da guerra fria. Mas lá as igrejas precisam ser regulamentadas pelo Estado. Necessitam de um número específico de integrantes e de terem filiais em todas as províncias. Só as grandes instituições conseguem se regulamentar”, informa Sampaio.

Ainda de acordo com a pesquisadora, a Universal contribuiu para o processo conhecido como “reconstrução” nacional de Angola após a guerra civil, oficialmente terminada em 2002. Ela enumera alguns feitos da IURD no país: o primeiro deles foram as ações assistenciais promovidas pela igreja. O segundo foi o intenso movimento de construção das grandes catedrais. “A IURD chegou com uma organização bem empresarial. Mesmo na década de 1990, eles já tinham um conhecimento para se institucionalizarem no país. Também se colocaram no espaço público por suas obras filantrópicas. Fizeram campanha para testagem de HIV, campanha para arrecadar alimentos. Além disso, a IURD contava com um centro profissionalizante, que foi bastante importante no processo de legitimidade da instituição”. Sampaio destaca também o que chama de “pedagogia do cotidiano”, que seria a postura da igreja em estimular o empreendedorismo entre os fiéis, tal como ocorre no Brasil.

Sobre a relação com o governo angolano, Sampaio destaca que a igreja evitava se colocar em disputas abertas e que, inclusive, alguns personagens políticos do país eram integrantes da denominação religiosa. 

O cisma

Mesmo com uma relação de início promissora, alguns conflitos já se apresentavam no decorrer dos anos. Ainda de acordo com Camila Machado Sampaio, o ingresso de pastores angolanos no seio da Universal foi um processo vagaroso e paulatino, levando décadas para que sacerdotes angolanos chegassem aos cargos de liderança. Além disso, ela identifica a inabilidade dos sacerdotes brasileiros em relação à diversidade cultural em Angola. “Era uma questão nítida no plano micro. Uma vez participei de uma casamento coletivo em Luanda e o pastor foi bastante ríspido com as noivas por estarem atrasadas. Esse é um exemplo de como a lógica empresarial da igreja se mostrava, por vezes, incompatível com a cultura das pessoas”, pondera.

A pesquisadora analisa também um exemplo das relações conflitivas entre a IURD e os angolanos: a desconsideração dos religiosos brasileiros para com as línguas nativas. “Muitas vezes eu presenciei um desmerecimento das línguas maternas nos cultos”. Além da capital, apenas em algumas outras províncias o português é a língua corrente. Em algumas províncias, além do português, os angolanos se comunicam também em outras línguas maternas, como o kikongo e o kimbundo, e mesmo em  inglês, comum na região sul do país, devido à fronteira com a Namíbia. “Alguns pastores chamavam as línguas nativas de selvagens. Isso é uma questão muito séria, que reproduz  uma lógica colonial que remete ao domínio português. Possivelmente, essa postura foi um fator que causou antipatia aos angolanos”, revela Sampaio.

Com o acirramento das controvérsias, o divórcio entre brasileiros e angolanos na IURD se tornou público em 2019, quando religiosos angolanos divulgaram uma carta contendo acusações graves que iam desde lavagem de dinheiro, enriquecimento ilícito e até esterilização forçada.

Os anos seguintes foram de grande disputa pelo comando da igreja em Angola. Do lado brasileiro, partiram acusações de que os rebeldes estariam vandalizando cultos e ameaçando pastores. O líder máximo da Universal, bispo Edir Macedo, chegou a amaldiçoar os reformistas. “A boca do inferno vai se abrir e eles todos vão descer junto com as suas famílias, seus filhos. Todos serão amaldiçoados. Eles vão deixar uma maldição para as suas gerações. Se deixarem gerações”, afirmou o pastor brasileiro

Em meio a essa disputa, a Record África também foi acusada de usar seu aparato midiático para atacar os dissidentes angolanos. A Entidade Reguladora da Comunicação Social Angolana (ERCA) chegou a se posicionar, afirmando que os espaços comerciais da emissora cedidos à Igreja Universal constituíam “um claro abuso da liberdade de imprensa” por não respeitar o princípio do contraditório e incitar ao ódio. Pastores angolanos também denunciaram estar sofrendo uma intensa “campanha de difamação” e que a emissora tentava “manchar a imagem do governo na arena nacional e internacional”. Um dado interessante e que precisa ser melhor investigado à luz das mudanças na legislação é que o Jornal da Record África, um dos poucos programas da Record produzido localmente no país, só passou a ser exibido em 2018.

Com o apoio do governo, os reformistas venceram a batalha. Em dezembro de 2020, o Ministério da Cultura, Turismo e Ambiente, por meio do Instituto Nacional para Assuntos Religiosos, comunicou à IURD que reconhecia o bispo angolano Valente Bizerra Luís como representante da igreja em Angola. O religioso teve o nome indicado meses antes, após uma assembleia comandada pelos dissidentes.

Na semana anterior à interrupção do sinal da Record, cerca de 50 bispos brasileiros não tiveram os vistos renovados e foram obrigados a deixar o país. O governo angolano também indiciou o ex-diretor da emissora na África, Fernando Henrique Teixeira, por lavagem de dinheiro e associação criminosa em processo aberto pelo Serviço de Investigação Criminal (SIC), que envolve outros três integrantes da ala brasileira da Igreja Universal em Angola, incluindo o ex-representante, Honorilton da Costa.

 

Rede de contradições

Se, em Angola, o governo intercedeu a favor dos reformistas, no Brasil a Universal também buscou apoio oficial. Aliada de Jair Bolsonaro, a igreja recorreu ao presidente que, em 2020, chegou a enviar uma carta ao governante angolano. No entanto, diante da série de derrotas em Angola, passou a pressionar ainda mais o presidente brasileiro.

Nas últimas semanas, em sua programação na RecordTV Brasil, apresentadores de telejornais e líderes religiosos criticaram a “omissão” e “passividade” do governo federal. Genro de Edir Macedo, o bispo Renato Cardoso chegou a cobrar o presidente pelos acordos feitos diante “do povo cristão, católico, evangélico, que apoiou esse governo, faz parte da base do governo”.

Ao que parece, nessa novela da Record envolvendo a Igreja Universal, governos angolanos e brasileiros, não há mocinhos. Como ficará a relação da IURD com Bolsonaro e do Brasil com Angola quando a RecordTV África voltar a ser exibida, e como será seu discurso daqui em diante, são cenas dos próximos capítulos.

*Os autores integram a equipe da pesquisa Christian churches, religious media, and the management of Covid-19 in Brazil. Esta pesquisa recebeu o auxílio do Social Science Research Council’s Rapid-Response Grants on Covid-19 and the Social Sciences, com fundos fornecidos por SSRC, Henry Luce Foundation, William and Flora Hewlett Foundation, Wenner-Gren Foundation, e MacArthur Foundation.

 

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