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Bolsonaro sequestra a Independência e mídia serve como palanque

Apesar das críticas, a mídia comercial mais uma vez deu amplo espaço ao presidente em atos ilegais durante as comemorações do bicentenário da Independência

Pouco (ou nada) se tratou das manifestações contrárias ao presidente como o tradicional Grito dos Excluídos (Foto: Alan Santos/Presidência da República)
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Por Gyssele Mendes, Iara Moura, Olívia Bandeira, Ramênia Vieira e Sheley Gomes

Era uma profecia já há alguns meses anunciada: o candidato à reeleição Jair Bolsonaro usaria o simbolismo das comemorações do bicentenário da Independência para chamar atenção para si próprio, a despeito da importância histórica da data. Ele mesmo vinha convocando sua base eleitoral para tomar as ruas no dia 7 de setembro e participar do sequestro da agenda, transformando o evento cívico em palanque político. E foi como esperado. O problema, uma vez mais, foi que a estratégia de criar um caos informacional, espalhar mentiras e se autopromover encontrou eco na mídia comercial e ampla visibilidade na mídia pública

Parte da mídia comercial, dentre eles o Estadão, O Globo e a Folha, embarcou num enquadramento de notícias que deu grande visibilidade aos atos de campanha no Rio, em São Paulo e em Brasília, ao mesmo tempo em que criticavam o uso da estrutura pública e o esvaziamento da agenda do bicentenário levada a cabo por Jair e seus asseclas num ato de desespero rumo à corrida eleitoral. Enquanto isso, a 28ª edição do Grito dos Excluídos, menor em expressão, encontrou novamente pouco espaço na cobertura. Seria possível à mídia comercial não cair na armadilha ilegal de Bolsonaro? Para tentar responder a esta pergunta, abaixo destacamos o caminho editorial escolhido por cada veículo neste momento vital para a democracia brasileira.

Mídia acossada

 O Estadão realizou uma ampla cobertura dos atos cívicos militares e também dos comícios realizados no dia 7 de setembro. Através de vídeos, podcasts, rádio, transmissões ao vivo, artigos de colunistas, fórum de leitores e monitoramento de mídias sociais, o jornal buscou cobrir todos os detalhes que cercaram o evento nas cidades de Brasília, Rio de Janeiro e São Paulo.

De maneira geral, o veículo ressaltou o caráter problemático e golpista dos posicionamentos de Bolsonaro tanto nos atos oficiais, como presidente, quanto nos atos eleitorais, como presidenciável. O jornal apontou, entretanto, que em relação ao ano passado, esse viés golpista foi amenizado, ainda que tenham sido identificados ataques diretos às instituições democráticas.

A percepção geral da cobertura feita pelo Estadão é a de que os discursos mais problemáticos partiram dos apoiadores. Sobre o comportamento de Bolsonaro, o ponto mais criticado pelo Estadão foi o tom de campanha utilizando-se da estrutura pública montada para a celebração da Independência.

O jornal também levantou as opiniões publicadas por alguns dos presidenciáveis no Twitter, como Lula, Ciro e o próprio Bolsonaro, assim como de Simone Tebet e Soraya Thronicke (ex- apoiadora de Bolsonaro). Dentre as diversas matérias, houve menção também às publicações de Rodrigo Pacheco (presidente do Senado) e Sergio Moro, que não possui nenhuma relação com as eleições presidenciais atuais.

Na cobertura do evento, o Estadão ressaltou as principais pautas manifestadas pelos apoiadores de Bolsonaro, como ataques ao ministro Alexandre de Moraes, ao STF, ao ex-presidente e candidato Lula, assim como ataques diretos à democracia, solicitando intervenção militar. Além disso, a presença de candidatos apoiadores do presidente, distribuindo santinhos, intensificou a opinião do jornal ao considerar um evento demasiadamente eleitoreiro. O Estadão relembrou também o caso em que diversos empresários sugerem um golpe de Estado em um grupo de mensagem, caso Lula fosse vitorioso nas eleições e apontou que diversos deles compareceram às ruas no dia 7, como Luciano Hang.

Por fim, pouco (ou nada) se tratou das manifestações contrárias ao presidente como o tradicional Grito dos Excluídos. Apesar de manifestações terem ocorrido em diversas capitais, o Estadão destacou apenas a tradicional missa da romaria do grupo Grito dos Excluídos com falas do arcebispo de Aparecida, Dom Orlando Brandes em defesa da democracia. O veículo também publicou imagens do Grito dos Excluídos na Praça da Sé. Com a capa do dia 8 de setembro estampando o comício realizado por Bolsonaro em Copacabana e a manchete destacando “Bolsonaro faz pesquisa para multidões, fustiga pesquisas e ignora bicentenário”, o veículo ajuda a cravar a impressão de que, apesar de ilegal, os atos de campanha do presidente foram um sucesso.

A cobertura da Folha de S. Paulo também foi acossada entre o imperativo de noticiar a ilegalidade cometida pelo presidente e acabar cedendo espaço e visibilizando os abusos cometidos. A armadilha fica expressa na capa da edição deste 8 de setembro, que estampou a manchete “Bolsonaro captura 7/9 com ameaça, machismo e comícios”. Esta edição dedicou seis páginas e meia de conteúdo sobre os atos de 7 de setembro com foco nos atos com/pró-Bolsonaro e apenas uma página com a crítica do ex-presidente Lula sobre o uso político da data e citação sobre a compra dos imóveis. O Grito dos Excluídos aparece em apenas uma foto.

No mesmo caminho, O Globo estampa na capa “Bolsonaro faz 7 de Setembro um ato eleitoral; rivais acusam abuso de poder”, com foto do trio elétrico em Copacabana. No miolo da edição que circulou nessa quinta (8), o jornal da família Marinho dedicou quatro páginas e meia aos atos de campanha de Bolsonaro.

Num dos títulos chamou atenção ao machismo: “‘Imbrochável’, presidente reincide em machismo”. Restou apenas meia página para uma matéria com Lula, Ciro e Tebet criticando o uso eleitoral do 7 de setembro. A outra metade da página estampava uma publicidade da VIVO AGRO. Vale lembrar que a edição de 2022 do desfile cívico militar trouxe uma ala inteira em homenagem ao agronegócio, com desfile de tratores e máquinas. Diferentemente do Estadão e da Folha, O Globo delimitou o espaço e dividiu os temas nas páginas com outros assuntos e abordagens. O Globo impresso não fez nenhuma menção ao Grito dos Excluídos.

Globo critica, mas dá palanque

Entre os televisivos, a crítica ao sequestro da pauta da independência com fins eleitorais apareceu com fôlego apenas no Jornal Nacional (JN), da Rede Globo. Logo na abertura do jornal, William Bonner diz que “No ano do bicentenário da Independência, o presidente Jair Bolsonaro usa os desfiles cívico-militares tradicionais para fazer propaganda eleitoral”, destacando a ausência dos presidentes dos demais poderes no desfile de Brasília e os comentários machistas em seu discurso. 

Os dez minutos iniciais do principal jornal televisivo do país foram dedicados à cobertura dos atos pró-Bolsonaro e dos desfiles cívico-militares em Brasília e outras capitais brasileiras. O jornal até tentou separar o candidato do presidente, mas cerca de cinco minutos e meio foram dedicados aos atos políticos de Bolsonaro, incluindo a exibição do discurso em que o presidenciável defendeu que o país está com a “economia pujante”, geração recorde de empregos, inflação em queda e “uma das gasolinas mais baratas do mundo”, sem qualquer contraponto por parte do jornal ou mesmo de analistas políticos e especialistas. Ainda que sob críticas, Bolsonaro conseguiu pautar a cobertura do JN. 

O jornal enfatizou ainda as faixas carregadas por apoiadores de Bolsonaro, muitas delas pedindo intervenção militar e a destituição do STF, e marcou um posicionamento contrário aos dizeres anti-democráticos. O JN comparou o discurso de Bolsonaro deste 7 de setembro com o discurso de 2021 e pontuou que, desta vez, o presidente evitou críticas diretas ao STF e amenizou o tom golpista, assim como observado na cobertura do Estadão. 

Em seguida, o jornal dedicou cerca de 2min40seg ao vídeo de Lula com críticas ao uso político e eleitoral do 7 de setembro por Bolsonaro. Os candidatos Ciro Gomes e Simone Tebet também tiveram espaço. No caso de Tebet, o jornal anunciou que houve um erro no VT e exibiu novamente a matéria sobre sua agenda de campanha pelo interior de São Paulo. O JN também destacou as publicações em redes sociais de Rodrigo Pacheco, presidente do Senado; Arthur Lira, presidente da Câmara dos Deputados; e Alexandre de Moraes, presidente do TSE. 

Cerca de 90 segundos foram dedicados à cobertura do Grito dos Excluídos, mencionando a pauta principal da 28ª edição do ato, “Independência pra quem?”. Além disso, o jornal deu um breve panorama dos atos em capitais brasileiras, com foco nas ações de combate à fome, mas sem dar voz a manifestantes ou representantes da organização dos atos. 

SBT e Record se convertem em assessorias de Bolsonaro

O SBT Brasil esteve alinhado à estratégia de Jair Bolsonaro. Dos 45 minutos de jornal, 6min10seg foram dedicados ao Dia da Independência sem diferenciar o desfile oficial da agenda de campanha de Bolsonaro. Ao espectador, pareciam fazer parte de uma mesma coisa. O que chama atenção é que logo após todo um bloco dedicado às comemorações do bicentenário, vem um bloco dedicado às agendas dos presidenciáveis. Neste momento, o candidato Bolsonaro tem direito a mais dois minutos de cobertura ampla sobre a motociata no Rio de Janeiro, discurso em Brasília e atos em São Paulo. 

Ainda no último bloco do jornal são dedicados mais um minuto e meio às manifestações pró-Bolsonaro em Goiânia, Florianópolis e outras capitais. Soma-se, portanto, cerca de 10 minutos, ou um terço do do jornal dedicado ao candidato. A nota da coligação de Lula, seguida da declaração de Ciro, ambas criticando o uso eleitoreiro da data, somaram um minuto e meio. O SBT Brasil repercutiu o Grito dos Excluídos com imagens de capitais que realizaram a manifestação e reportagem direto da Praça da Sé, no centro de São Paulo. A matéria deu voz a fontes de movimentos sindicais e da igreja católica que denunciaram a fome somando dois minutos de cobertura.

A Record TV transformou o 7 de Setembro em palanque eleitoral para Bolsonaro durante todo o dia, ao destacar trechos dos discursos proferidos em Brasília e no Rio de Janeiro em que o presidente falou das ações do Executivo. Deu espaço também para os trechos em que Bolsonaro fez críticas aos outros poderes, sobretudo ao STF. Por outro lado, não mostrou trechos dos discursos que foram criticados por outros veículos de mídia nem as críticas que o presidente sofreu por usar o 7 de Setembro para fins eleitoreiros.

A cobertura construiu uma narrativa de que milhares de pessoas foram às ruas em todo o país para apoiar o presidente. Os jornais escolheram mostrar a presença de famílias com crianças e deram voz às mulheres presentes, a fatia do eleitorado que tem mais resistência em votar em Bolsonaro. A cobertura também destacou o uso de camisas verdes e amarelas por parte dos apoiadores do presidente e o fato de não haver violência nas manifestações. Em nenhum momento a TV mostrou manifestações contrárias ao presidente ou críticas ao significado hegemônico do 7 de Setembro, como o Grito dos Excluídos que aconteceu em diversas cidades do país.

O 7 de Setembro foi narrado como “um dia de festa”, como falou a âncora Mariana Godoy do Fala Brasil, o jornal das 8h40 da manhã. A base de sustentação do governo Bolsonaro foi exaltada. Além do foco nas famílias, que estão no centro do discurso cristão, os jornais destacam os militares e as polícias que desfilaram em cidades como Brasília, São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte e Belém. Em São Paulo, os jornais da emissora destacaram também a reinauguração do Museu da Independência, que estava fechado há nove anos, e citaram que haveria mais de 50 atividades em toda a cidade, sem, no entanto, mostrar essas atividades. O desfile dos tratores do agronegócio em Brasília também foi mostrado no jornal da noite.

Com uma entrada no meio da tarde, o Jornal da Record enfatizou a participação do público nos atos de Brasília e São Paulo, chegando a afirmar que mais de um milhão de pessoas acompanharam o desfile na capital federal, ainda que nenhum dado oficial sobre o público tenha sido divulgado pela Polícia Militar do Distrito Federal. 

A cobertura do 7 de setembro confirma um posicionamento, já destacado anteriormente pelo Intervozes, que Record e SBT vêm atuando como assessorias de comunicação do governo Bolsonaro. Resta saber até quando seguirão no barco. Apesar de demonstrar alguma força de mobilização a menos de um mês das eleições, o que as pesquisas eleitorais evidenciam é que os ventos não estão nada favoráveis a Bolsonaro. Não podemos cravar que o candidato à reeleição da extrema-direita saiu vitorioso dos atos, mas sua estratégia de produzir um ambiente de desordem informacional e se manter presente na mídia, pautando as coberturas, segue dando certo. 

Gyssele, Iara, Olívia, Ramênia e Sheley são associadas do Intervozes – Coletivo Brasil de Comunicação Social. 

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