SBT e Record favorecem Bolsonaro e amenizam tom golpista do 7 de setembro

Monitoramento mostra que maior parte da mídia comercial se posicionou contra a aventura golpista de Bolsonaro

Foto: Alan Santos/PR.

Foto: Alan Santos/PR.

Intervozes

Os atos antidemocráticos convocados pelo presidente Jair Bolsonaro (sem partido) no dia 7 de setembro podem até ter sido menores do que os bolsonaristas esperavam. Mas não deixaram dúvidas quanto à capacidade de mobilização e financiamento da extrema-direita para promover a instabilidade política no país. Bolsonaro parece isolado, mas segue com fôlego na disputa pelos rumos do Brasil.

O antagonismo com o Supremo Tribunal Federal, em especial o ministro Alexandre de Moraes, deu o tom das demandas bolsonaristas. No levantamento realizado pelo Monitor do Debate Político no Meio Digital, da Universidade de São Paulo, 59% das pessoas presentes na manifestação realizada na capital paulista declararam que o STF é o principal inimigo do presidente, seguido pela esquerda (17%) e a imprensa (15%).

Nos dias 6 e 7 de setembro, o Intervozes – Coletivo Brasil de Comunicação Social monitorou os principais jornais impressos e televisivos do país para analisar o comportamento da mídia comercial e pública diante dos atos. Se por um lado a mídia é quase uníssona contra um golpe de Estado, por outro observa-se que a relação do presidente com o SBT e a RecordTV segue firme e forte, garantindo coberturas benevolentes com os arroubos autoritários do chefe da nação.

Cobertura amena

A cobertura das manifestações pró e contra Bolsonaro foi destaque em todos os principais jornais noturnos da Globo, SBT e RecordTV. Mas o SBT foi além.

Às manifestações pró-governo, foram dedicados mais de três minutos elencando suas principais demandas, como o impeachment dos ministros do STF, e trechos do discurso de Bolsonaro em Brasília e São Paulo. Ao abordar os atos do Grito dos Excluídos, promovidos anualmente por movimentos e organizações sociais, o jornal dedicou cerca de um minuto, com foco na presença da polícia e exibindo imagens da PM revistando manifestantes. Em nenhum momento foram mencionadas as pautas do protesto.

O silenciamento das manifestações convocadas pela esquerda não é novidade. Em maio, os maiores protestos contra o governo Bolsonaro desde o início da pandemia foram invisibilizados pela imprensa tradicional.

O último bloco do SBT Brasil foi dedicado à exibição, na íntegra, do discurso proferido pelo presidente em São Paulo, com duração de cerca de 20 minutos. Segundo apurou o Notícias da TV, o pedido veio do próprio Silvio Santos, aliado declarado de Bolsonaro.

 

 

Desde o início do governo, o presidente e a emissora mantiveram uma relação de apoio mútuo, com o canal oferecendo espaço para ministros em troca de boas fatias das verbas destinadas à publicidade oficial. Outro indicativo dessa proximidade é o genro de Silvio Santos, o deputado federal Fábio Faria (PSD-RN), assumir o Ministério das Comunicações.

O Jornal da Record dedicou menos tempo à cobertura das manifestações, mas com um viés nítido de apoio aos bolsonaristas. Se havia dúvidas sobre a solidez da relação entre Bolsonaro e a RecordTV, após o episódio em que Edir Macedo pediu o apoio do governo federal na interlocução com o governo angolano e não teve sua demanda resolvida, a cobertura do 7 de setembro indica que seus interesses estão mais alinhados do que nunca.

Ao mencionarem o discurso de Bolsonaro, os jornalistas disseram que ele “citou” o STF, deixando de lado as ameaças diretas à Suprema Corte. Chamaram atenção ainda aos números do protesto, dizendo que haviam 125 mil manifestantes em mais de 70 cidades enquanto nas manifestações contrárias esse número não passava de 15 mil. Apesar de mostrar um trecho longo do discurso proferido em São Paulo, o maior destaque foi para a dinâmica do evento, com a apresentação de paraquedistas e Bolsonaro chegando em um Rolls Royce dirigido por Nelson Piquet.

Contudo, o que mais saltou aos olhos foi a participação do jornalista Augusto Nunes, colunista do jornal. Nunes diz que o ocorrido foi um atestado da força de Bolsonaro, forte candidato à reeleição em “uma paisagem deformada por pesquisas eleitorais estranhas e ativismo antibolsonarista de parte do cenário jornalístico”. Para ele, a magnitude das manifestações “contrastou com o raquitismo dos atos contra o presidente”. Nunes também fez referência ao ex-presidente Lula afirmando que “não faz sentido acreditar num favoritismo de um ex-presidente presidiário que será confrontado com delinquências que transformam currículo em prontuário”.

O comentarista não reconheceu o caráter golpista no discurso de Bolsonaro, mas recomendou que as ameaças “recíprocas” fiquem nos palanques e que os Poderes da República tratem de cumprir as normas da Constituição. Por fim, afirma que “venha de onde vier, golpe é coisa de cabeça estacionada no tempo das cavernas, que triunfem a liberdade e a democracia”. O jornal também apresentou a repercussão negativa entre atores políticos, como outros jornais fizeram, mas ressaltaram os tuítes de apoio de Fábio Faria, Onyx Lorenzoni (DEM-RS) e Major Vitor Hugo (PSL-GO).

Já a TV Brasil se utilizou de uma aparente e frágil “imparcialidade”. O noticiário Repórter Brasil Tarde exibiu uma reportagem focada nas “festividades do Dia da Independência” no Palácio da Alvorada, com extensa exploração da figura do presidente e dos desfiles militares do 7 de setembro. Em seguida, apresentou uma nota curta sobre protestos pró e contra o governo na capital federal. Na edição noturna do jornalístico, foi ao ar uma matéria de cerca de dois minutos com registros dos atos bolsonaristas e contrários ao governo em Brasília, São Paulo e Salvador. Apesar do equilíbrio em relação ao tempo e enquadramento, em um dos quadros do noticiário foi entrevistado o analista político Ricardo Caldas, que afirmou que os atos mostraram a legitimação do governo e que eram uma demonstração da “vitalidade da democracia”.

Já na Agência Brasil, outro braço da comunicação pública, foram produzidas quatro matérias relativamente equilibradas para cada manifestação. Sobre o Grito dos Excluídos em São Paulo, chama a atenção os dois últimos (e maiores) parágrafos, dedicados e comparar os números entre as duas mobilizações e ocorrências policiais – com destaque para a prisão de uma pessoa que teria confeccionado um coquetel molotov no ato do Anhangabaú.

No dia 6, contudo, a Agência publicou matéria que reproduzia a convocatória de Bolsonaro aos atos, com a chamada “Presidente Bolsonaro convida população a ir às ruas amanhã – Ele destacou que Constituição garante o direito à manifestação”. Ameaçada de privatização pelo governo, a Empresa Brasil de Comunicação está refém do governo federal e vem sofrendo com a censura e perseguição a jornalistas.

Críticas ao tom golpista

Às vésperas das manifestações do dia 7 de setembro, os portais da Folha de S.Paulo e do Estadão publicaram editoriais sobre a tentativa de instabilidade política provocada por Bolsonaro. Ambos os jornais acompanharam os atos com colunas especiais, uma espécie de diário de campo.

Do ponto de vista da cobertura jornalística das manifestações em todo o país, o Estadão se preocupou em trazer as manifestações nos estados, com atos pró e contra Bolsonaro, já a Folha se concentrou nos atos de Brasília, São Paulo e Rio de Janeiro. A cobertura dos jornais paulistas teve como foco o comportamento das manifestações, e, sobretudo, os discursos de Bolsonaro. Também foram destaque a tietagem com Fabrício Queiroz no ato em Copacabana, os youtubers alvos de investigação no Tribunal Superior Eleitoral (TSE), o discurso do Ministro das Comunicações e a presença de líderes evangélicos nos atos.

No jornal O Globo, o foco das matérias foi a estrutura por trás dos atos, trazendo o questionamento sobre quem havia financiado essas ações. A maior parte da cobertura e análise jornalística dos três portais monitorados deram ênfase nas falas de Bolsonaro e suas consequências, com amplo uso da palavra “golpista”. Discurso golpista, ações golpistas e atos anti-democráticos foram alguns termos mencionados.

Na TV, o Jornal Nacional trouxe as críticas mais diretas ao caráter golpista das manifestações pró-Bolsonaro e o discurso inflamado do presidente. Na abertura do jornal, os apresentadores dizem que “em diversas cidades brasileiras, bolsonaristas insuflados pelo presidente da República usam verde e amarelo, mas atacam pilares da Constituição. Faixas pedem intervenção militar e a destituição de ministros do Supremo. Em tom golpista, o presidente discursa diante de manifestantes em Brasília e São Paulo. Diz que respeita a Constituição, mas na mesma frase volta a ameaçar o STF”. Ao longo da transmissão, os repórteres chamam atenção, diversas vezes, ao tom golpista das manifestações. Os especialistas convidados ressaltaram que o presidente inflama uma crise institucional criada por ele mesmo.

Entre os televisivos, o JN foi o que deu maior destaque às manifestações contrárias a Bolsonaro, com cerca de três minutos de reportagem, mencionando algumas das pautas e registrando o panelaço ocorrido na noite do dia 7.

Se as manifestações foram um tiro no pé ou não, somente os próximos dias poderão responder. Apoiadores de Bolsonaro seguem tentando inflar a população. No dia seguinte aos atos, caminhoneiros passaram a bloquear rodovias federais em apoio ao governo e têm divulgado que conseguiram instaurar um “estado de sítio” no Brasil, além de depor os 11 ministros do STF. Na realidade paralela dos bolsonaristas, financiada por empresários do agronegócio e de transporte, não há espaço para a democracia. Mas enquanto houver um golpista no poder, haverá resistência.

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Ana Carolina é integrante do Intervozes

Gyssele Mendes é mestra em Comunicação pela UFF e integrante da Coordenação Executiva do Intervozes

Jornalista e mestra em Comunicação e coordenadoras do Intervozes

Cientista política e consultora de incidência do Intervozes

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