Fashion Revolution

Por que a transparência é fundamental para a construção de uma moda justa

Na Europa ou Brasil, marcas se aproveitam da influência e poder de barganha para pagar valores baixos à confecção

(Foto: Unsplash)
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Um novo relatório divulgado em abril pelas organizações Fair Trade Advocacy Office e a Clean Clothes Campaign Europe demonstrou a importância da transparência para a construção da moda justa. Apesar de tomar como base entrevistas com fornecedores europeus de diversas marcas, inclusive de luxo, os achados da pesquisa se assemelham a práticas desleais que encontramos também no Brasil. A pesquisa revelou que, amparadas pela influência e poder de barganha, grandes marcas tendem a pagar valores baixos à confecção. Mais uma vez, falamos da transparência – tecla que o Fashion Revolution bate insistentemente – para lembrar que, sem ela, não existe moda sustentável, responsável e justa. 

A pesquisa tomou dois pólos (clusters) importantes da indústria de vestuário europeia: Itália e Europa Oriental. Foram entrevistados fornecedores, especialistas e representantes sindicais em seis estados membros da União Europeia – Bulgária, Romênia, Croácia, República Tcheca, Itália e Alemanha. Na região, a indústria do vestuário é dominada por pequenas e médias empresas. A Itália possui cerca de 55 mil empresas cadastradas, tendo 473 mil pessoas empregadas no setor têxtil, de vestuário e calçados. Já os países da Europa Oriental, Central e do Sudeste são caracterizados por possuírem baixos custos trabalhistas e comerciais e, em 2019, empregavam 700 mil pessoas na indústria – valor aproximado da população de Osasco (SP) e Uberlândia (MG).

A Itália é mundialmente reconhecida por abrigar marcas de luxo, com uma rede produtiva com alto valor agregado, mas que se utiliza, muitas vezes, de mão de obra menos qualificada e migrante na sua periferia. Condições de subcontratação, trabalho irregular e abusos de direitos trabalhistas são registrados, inclusive, em documentários. Os países do segundo cluster também exportam roupas e têxteis para economias ricas como Alemanha, Reino Unido e Itália. Esses trabalhadores são empregados por fornecedores de primeira linha (tier 1) que atendem à direção da marca e, conforme evidenciado pela pesquisa, “há pouca ou nenhuma diferença entre os hábitos de compra de marcas populares e marcas premium ou de luxo”. 

Para o Fashion Revolution, transparência significa a divulgação pública de dados confiáveis, detalhados e comparáveis

As entregas são feitas por caminhões que, diferente de navios e contêineres, podem entregar os produtos em questão de dias. Além disso, em grande parte da Europa não existem taxas alfandegárias graças a acordos de livre comércio na região e com países vizinhos. Apesar destas condições que contribuiriam uma indústria mais horizontal e justa, as relações comerciais são voláteis, arriscadas e desequilibradas. Fabricantes entrevistados afirmam que, em qualquer negociação com as marcas, é uma “causa perdida” em todas as frentes, mas principalmente na de preços. 

Produção rápida e barata

Mesmo após a crise econômica gerada pela pandemia da Covid-19 no mundo, permanece a tendência geral de redução de preços, encurtamento de prazos de entrega, aumento de alterações de pedidos, alongamento de prazos de pagamento, entre outras práticas que enfraquecem fornecedores e dificultam sua capacidade de investimento e de pagar salários. Um gerente búlgaro de uma fabricante de roupas chegou a relatar que “as marcas querem os produtos muito rápido e muito barato” – os prazos, às vezes, chegam a ser de apenas duas semanas.

Outra problemática encontrada é que as relações contratuais são, em muitos casos, informais e baseadas em acordos verbais, confiança e conexões pessoais. Essa condição prevaleceu em todos os países entrevistados. O efeito é mais pronunciado na Itália, onde essa relação é feita dentro do país – uma prática altamente regulamentada em favor das marcas. “Os ‘contratos’ das marcas são para dizer que o fornecedor deve respeitar a qualidade e os prazos de entrega, porque se não o fizer, são aplicadas penalidades. Cláusulas de salvaguarda ‘salvaguardando os interesses do fornecedor’ nunca são colocadas em prática”, afirmou um fornecedor italiano.

Na produção em massa, existem casos em que fornecedores concordam com os preços baixos apenas para manter o relacionamento ou sobrevivem, resultando em nenhum lucro. Outro gerente de uma fábrica búlgara relatou que “os compradores estão muito preparados, eles sabem o preço mínimo que nós seremos obrigados a aceitar, por isso, às vezes, trabalhamos apenas por alguns centavos”. E ainda acrescentou: “recebemos encomendas apenas por prestígio, por fama, não por lucros”. 

A pandemia apenas amplificou essa dinâmica de poder desequilibrado. Assim como no Brasil, muitas marcas chegaram a cancelar pedidos que já estavam em produção ou prontos para entrega, sem executar o pagamento da encomenda. Um fabricante romeno, que produzia para uma marca há mais de uma década, contou a experiência, mas a decisão de não processar a empresa. Outro proprietário de fábrica conta que marcas do Reino Unido se recusaram a renegociar contratos para obter melhores preços depois que o Brexit causou uma queda de 20% na libra. 

O que a transparência tem a ver com isso

Os exemplos de práticas desleais e insalubres são recolhidos aos montes pelo relatório, deixando claro que a única saída para a construção de uma moda justa é a transparência. Seja em países subdesenvolvidos do Sul Global, seja em países ricos do Norte Global, a indústria da moda se mostra precária nas questões trabalhistas, em especial para o vestuário, o setor que mais emprega. 

Para o Fashion Revolution, transparência significa a divulgação pública de dados confiáveis, detalhados e comparáveis sobre políticas, compromissos, práticas e impactos sociais e ambientais de uma empresa em toda a sua cadeia de valor. É por isso que, anualmente, tanto no cenário brasileiro quanto no internacional, realizamos o Índice de Transparência da Moda. Em 2022, o relatório global abarcou 250 das maiores marcas e varejistas de moda do mundo e constatou, mais uma vez, que o progresso na transparência ainda está aquém do necessário. 

Em relação à rastreabilidade, apenas 48% das marcas publicam lista de seus fabricantes de primeira linha, e 98% não publica o número de trabalhadores em sua cadeia de suprimentos que recebem um salário mínimo. A dependência da indústria de mão-de-obra feminina de baixa remuneração continua e apenas 3% das marcas divulgam voluntariamente a disparidade salarial anual entre etnias em suas próprias operações. 

As marcas analisadas pelo índice global possuem faturamento anual superior à US$ 400 milhões (R$ 1.9 bilhões). Muitas delas devem constar no relatório da Fair Trade Advocacy Office e a Clean Clothes Campaign Europe que, para conseguir os dados e relatos, tiveram que omitir seus nomes. As organizações pedem, ao final do documento, que a União Européia adote uma diretiva – um conjunto de instruções para a execução de um plano – que proíba práticas comerciais desleais no setor, como atrasos de pagamento e preços abaixo dos custos de produção. 

É sobre isso que o Índice de Transparência da Moda se refere ao falar que “ainda estamos aquém demais”. No atual cenário de crise climática, com exemplos tangíveis de desgaste ambiental e aumento de vulnerabilidade da população mais pobre, mais do que nunca, práticas sustentáveis para as pessoas e o meio ambiente devem ser implementadas, deixando de lado os lucros bilionários. A luta pela transparência é diária e segue sendo norteadora para as ações do Fashion Revolution – é pela vida de todes que buscamos por práticas mais sustentáveis, responsável e justa na indústria da moda. 

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