Fashion Revolution

‘Por amor e com amor’: costureiras voluntárias mantêm viva a tradição do Maracatu

Com pouca ou nenhuma bonificação, elas dedicam semanas, e até meses, aos brilhos e detalhes das fantasias do Maracatu, que chegam a pesar 30 quilos

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Considerado em estados como Pernambuco e Ceará uma tradição cultural que resgata a história e cultura regional, o Maracatu é uma festividade que encanta não só pelas músicas, mas também pelas fantasias brilhantes e cheias de detalhes. Por trás de apresentações que duram alguns dias, está um trabalho de um ano inteiro feito por costureiras voluntárias. São elas que mantêm viva a tradição, “por amor e com amor” ao Maracatu, pois diferente das escolas de samba do Rio de Janeiro e São Paulo, os grupos recebem pouco aporte municipal.

Os primeiros registros do Maracatu aparecem no início do século XVIII e é uma representação simbólica da vida do Brasil Colônia. Quando os senhores de engenho saiam para as festas, os escravos ficavam na senzala, imitando como era a casa grande. Quando a família real saia, havia sempre uma dama que os acompanhava com uma sombrinha grande para os tapar do sol ou da chuva. Todas essas personagens existem no Maracatu, que se divide em dois tipos, conforme o baque: Maracatu Nação (Baque Virado) e Maracatu Rural (Baque Solto).

No Maracatu Rural, presente na Zona da Mata Pernambucana, os caboclos de lança fazem um desfile que lembra uma batalha. Correndo de um lado para o outro, são eles que puxam o cordão. O centro do cortejo é rodeado por baianas, damas-de-buquê, calunga – uma boneca de pano ou plástico – e os caboclos de pena.

A secretaria estadual de cultural de Pernambuco destaca que a religião também está envolta no Maracatu, com mistura indígena e afro-brasileira. Há homenagens a Zé Pilintra, entidade da umbanda, e galhos de arruda atrás da orelha dos caboclos de lança, junto de um cravo ou rosa branca na boca para manter o corpo “fechado”. Os detalhes são diversos e fica até sem graça discorrê-los aqui sem imagens, por isso, você pode conferir a galeria de fotos da FUNDARPE (Fundação do Patrimônio Histórico e Artístico de Pernambuco) ao final da matéria.

A costura

A personagem costureira não aparece nos desfiles, mas ela está presente em cada fantasia. São dias, semanas e até mesmo meses costurando, bordando – muitas partes a mão – lavando e revitalizando as fantasias. Um Ceroula chega a pesar 30 quilos, as baianas usam aro de ferro por debaixo das roupas e quanto mais bordado, mais brilho, melhor. “Na bandeira, a gente faz as letrinhas, o bordado, uma por uma, com lantejoulas número 6mm”, conta Marinalva de Freitas, costureira do Maracatu Feminino de Baque Solto Coração Nazareno.

Para que os vestidos fiquem com mangas bem bufantes, as costureiras compram 10 metros de tecido. São penas, palha, búzios, miçangas, lantejoulas, rendas, costuradas às vezes a mãos, às vezes na máquina. “Quando acaba o Carnaval, a gente já pega pra ver como vai ser o outro ano”, explica.

Por isso, o valor de cada fantasia chega a passar dos mil reais. Mas ninguém paga esse valor. “São questões que se uma costureira for cobrar, o Maracatu não tem condições de arcar, por isso muitas vezes a gente faz de forma voluntária, faz por amor à cultura”, relata Rita Costa, costureira do Maracatu Obalomi, de Fortaleza.

Rita calcula que uma fantasia de baiana custe de R$ 1.000 a R$ 1.200, já no caso de uma rainha, que é mais detalhada, com trabalho de pedraria, R$ 3 mil. Como são apenas quatro costureiras no Maracatu Obalomi, elas começaram a trabalhar três meses antes, por conta da demanda e pouco financiamento que entra no caixa do grupo via prefeitura. “As costureiras param outras atividades na época do Carnaval. Mas a verdade é que o Maracatu passa o ano todo em andamento e tudo isso requer uma atenção da gente. Sem uma costureira, ele não sai”, completa.

Eliane Rodrigues, Coordenadora Executiva da AMUNAM (Associação das Mulheres de Nazaré da Mata), que criou o projeto Maracatu Feminino Coração Nazareno, afirma que o Maracatu ainda é muito desvalorizado, apesar de sua importância histórico-cultural e do destaque dado por prefeituras e estados. “O município paga para um cantor de brega se apresentar no Carnaval uma média de R$ 100 mil. Para o Maracatu, eles querem pagar R$ 400”, expõe, “às vezes, esse cantor tem uma produção de 10 pessoas. O Maracatu tem 70, às vezes 200 pessoas. Então, são 200 indumentárias também”.

O Maracatu Feminino Coração Nazareno fica em Nazaré da Mata, cidade considerada capital Estadual do Maracatu, com 23 grupos. Mesmo sendo reconhecido como uma forma de expressão e patrimônio Cultural do Brasil pelo IPHAN (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional) a condição financeira faz com que a maioria das pessoas que estão à frente do Maracatu, seja na diretoria, seja os brincantes, botem a mão na massa (e no bolso) para manter essa cultura viva.

Eliane, Marinalva e Rita não dividem apenas o carinho pela festividade, mas também o reconhecimento da importância de manter a história viva. Desde 2015, Fortaleza reconhece o Maracatu como patrimônio imaterial, sinal da resistência e de sua dimensão cultural gigantesca. “Muita gente não conhece, não dá importância para essa cultura que é tão rica porque é uma cultura que vem dos escravos e as pessoas são preconceituosas”, explica Rita.

O Maracatu não traz apenas a história do Brasil Colônia, mas também histórias regionais, importantes para a ligação do indivíduo com o espaço que ele habita. “A juventude, as crianças, não sabem o que é essa história. Elas precisam saber que ninguém chegou aqui do nada, que muitos negros foram escravizados e a gente está aqui hoje contando essa história”, destaca Eliane, “se a gente não reconhece o nosso passado, como é que vamos viver o presente e o futuro?”.

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