O mundo acabando e a gente falando sobre moda?

Diante de um cenário de caos e desalento para o planeta, qual será o papel do designer de moda?

Imagem: iStock

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Fashion Revolution

Segundo dados compartilhados pela Agenda 2030, os próximos 10 anos serão decisivos para a nossa sobrevivência. De acordo com um estudo de grande relevância, compartilhado em meio a pandemia do novo coronavírus por um dos mais importantes veículos de comunicação – a Nature Magazine – poderemos estar diante de um considerável avanço de nossa extinção. Segundo o report Deforestation and world population sustainability – A quantitative analysis:

Com base nas taxas atuais de consumo de recursos e na melhor estimativa de crescimento da taxa tecnológica, nosso estudo mostra que temos uma probabilidade muito baixa, menos de 10% na estimativa mais otimista, de sobrevivermos sem enfrentarmos um colapso catastrófico”.

Crescimento populacional, desigualdade social, sistema corruptivo e ausência de atuações mais satisfatórias (para todos) são combustível para esse progresso. 

Submetidos a um sistema exploratório, que vislumbra crescimento infinito num planeta finito e é subsidiado pelo privilégio de apenas um pequeno e seleto grupo de pessoas, percebemos que a maneira com que cultivamos, produzimos, consumimos e descartamos nossos bens de consumo é responsável por desencadear um cenário desastroso. O aquecimento global, a alta quantidade de emissão de gases de efeito estufa, o aumento do desmatamento e a falta de políticas direcionadas para conter tais desastres, nos encaminha para um futuro (presente) de poucas possibilidades. 

 

 

A indústria da moda

Tendo suas produções alocadas, preferencialmente, em territórios precarizados, distantes de legislações trabalhistas vigentes e marcados por profundas desigualdades sociais – desencadeadas por, entre outros motivos, deslocamentos permeados pelas mudanças climáticas, se faz responsável pelo desemprego de pessoas desamparadas por qualquer tipo de assistência social e econômica. Locais como: Bangladesh, Índia, Camboja, Honduras e Etiópia, reconhecidos como uma rede de “fornecimento barato”, estão entre os mais afetados ao longo dos últimos anos. Regiões onde a pobreza e a vulnerabilidade se tornaram moeda de troca para importantes e reconhecidas corporações que, além de responsáveis por grande parte da poluição do planeta, também são parte do problema que condiciona e explora as pessoas vitimizadas por tal situação. 

A fim de nortear tais apontamentos, destacamos alguns dados e reflexos desse formato produtivo:

  • Em 2018, 2,1 bilhões de toneladas de gases de efeito estufa foram emitidos pela indústria – algo em torno de 4% das emissões globais. Sendo importante destacar que 70% desse valor pode estar atribuído a processamento de materiais e produção [Fashion Climate Global Fashion Agenda];
  • Em 2018, a produção têxtil chegou a 107 milhões de toneladas, sendo: 62,3% de materiais sintéticos, 31,5% de naturais e 6,2% de artificiais [Textile Exchange];
  • Foram aproximadamente 55,1 milhões de toneladas de poliéster e 26 milhões de toneladas de algodão [Textile Exchange];
  • Estima-se que cerca de 8% do petróleo seja destinado à produção de fibras sintéticas [Oceana];
  • 25% dos produtos químicos produzidos em todo o mundo, são destinados à indústria têxtil [AFIRM, 2014];
  • O consumo de roupas deve aumentar em torno de 63% até 2030 [Global Fashion Agenda];

 

A tendência de 2022

O report The State of Fashion, divulgado pelo escritório de consultoria McKinsey & Company, em parceria com o Business of Fashion, aponta que fatores críticos como: adequação, enforcamento (ainda maiores) de elos frágeis do setor – como mão de obra e redução de custos, tendem a emergir em horizontes próximos. Bem como a busca por “sustentabilidade” e novas possibilidades para criarmos e trabalharmos com moda, também se farão emergenciais. Ainda não sabemos ao certo se serão por um profundo consenso de necessidade (clara para nossa sobrevivência) ou para a sobrevivência financeira daqueles que se viram acometidos por falta de produtos e viabilizações comerciais durante a pandemia. 

A urgência por transitar de um modus operandi propagador de tantos problemas e desigualdades, precisa se fazer presente na busca por melhores práticas, no impulsionamento de políticas públicas e no anseio de uma sociedade mais equitativa para todos. E isso só poderá ser possível, segundo a socióloga argentina Maristella Svampa, quando assumirmos a emergência climática como um dos maiores desafios da humanidade e a colocarmos no epicentro de discussões políticas por meio de um grande pacto ecossocial e econômico.

Diante de um cenário de caos e desalento para o planeta, qual será o papel do designer de moda?

 

A busca por novas habilidades

Em busca de melhorias e implementações mais eficazes diante de um setor de tantas fragilidades, o projeto FashionSEEDS (Fashion Societal, Economic & Environmental Design-led Sustainability) elaborou um importante relatório que incentiva a implementação de práticas inovadoras para a educação de designers de moda sob a lente da sustentabilidade.

O projeto é uma espécie de rede colaborativa articulada entre universidades européias de moda, que utiliza de abordagens radicais orientadas para o design. Prevê um sistema de educação de moda que estimule os graduandos por meio de habilidades, capacidades e conhecimentos para a sustentabilidade. 

O documento, que pode ser acessado de forma digital e gratuita, prevê 6 caminhos essenciais para que a indústria possa (re)ssignificar seus fazeres:

1)Expandir a colaboração entre instituições: Através de redes conectadas e que operacionalizam suas atividades de maneira coordenada. Num futuro onde cada expertise poderá ser otimizada em concomitância, agregando saberes e práticas ao invés de competindo; 

2)Aprofundar o conhecimento para a sustentabilidade: Expandindo o aprendizado para além dos currículos tradicionais e pautados apenas em um senso criativo demasiado sem pouca resolução de problemas reais enfrentados pela sociedade;

3)Facilitar encontros entre instituições e a indústria: Aproximando e favorecendo que os dois lados possam pensar soluções mais práticas e objetivas. Provocando a ruptura do status quo;

4)Compreender a sustentabilidade de maneira compartilhada: Por meio da percepção de que nenhuma estratégia poderá caminhar isoladamente. Sendo imprescindível que todos os atores envolvidos caminhem em comum acordo em prol de um ganho coletivo;

5)Reformular os espaços de aprendizagem: Na abordagem baseada em valores e trocas mais genuínas e resgate de conhecimentos ancestrais;

6)Encorajar formas viáveis rumo à sustentabilidade: Fomentando novos modelos de negócio que se propõem a uma transformação sistêmica.

O mesmo relatório ressalta que o “novo” designer de moda, não será mais aquele submetido à competitividade, baseada em exploração criativa pura e simples. Mas sim, aquele que retoma o cerne de sua profissão, onde a entrega está baseada na mais pura verdade de resolver questões. De encontrar respostas para os problemas vigentes. Competências como: reconhecimento socioeconômico, pensamento sistêmico, abrangência de percepções para além do produto, cadeia de abastecimento, expertise para outros formatos de negócios, facilidade de relacionamento entre equipe, maior conhecimento quanto à materiais utilizados – bem como certificações e outras possibilidades, transparência, habilidades quanto à recursos digitais, fortalecimento do que é local, responsabilidade social, maior intimidade com legislações que contemplam o setor e tudo mais que possa estar relacionado à circularidade serão os fios que modelam esse profissional. 

Se a moda é um reflexo de seu tempo, ela precisa, mais do que nunca, ser agente de transformação e provocadora de mudanças sistêmicas mais significativas. 

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Julia Codogno é comunicadora de moda e sustentabilidade. Desenvolve seu trabalho por meio de mentorias, palestras e conteúdos educativos. É criadora de um guia digital que reúne mais de 200 marcas com iniciativas de impacto positivo. Acompanhe @juliacodogno

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