Como a transparência na cadeia da moda pode ajudar os trabalhadores do setor?

Foto: @designativista / @trunabonial

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Fashion Revolution

Por Eloisa Artuso*

Não é de hoje que grandes empresas de moda se beneficiam com a falta de transparência do setor ao redor do mundo. O modelo de produção em grande escala instaurado com a globalização das cadeias de valor, que há décadas rege o sistema de produção da indústria têxtil e de confecção, invisibiliza (intencionalmente?) as trabalhadoras e trabalhadores, colocando-os em situação de grande vulnerabilidade e risco ao mesmo tempo em que o lucro das marcas e varejistas cresce.

A falta de transparência aliada a práticas de compra e padrões de relacionamento com fornecedores obscuros e, por vezes, pouco éticos, possibilita que empresas se esquivem de suas responsabilidades por suas cadeias produtivas. Muitas vezes, enfrentando condições de trabalho bastante precárias e recebendo salários baixíssimos, os trabalhadores não são capazes de garantir uma qualidade de vida básica para suas famílias.

Esse cenário certamente foi/está sendo potencializado pela pandemia e vemos milhões de trabalhadores da indústria perderem seus empregos ou renda, enquanto outros tiveram (ainda têm) que trabalhar apesar dos riscos, com pouca ou nenhuma proteção à saúde ou garantia de pagamentos justos.

O Índice de Transparência da Moda Brasil (ITMB) lançado pelo Fashion Revolution Brasil no final de 2020 mostra que mais da metade das marcas e varejistas analisadas são pouco – ou nada – transparentes em relação às questões sociais e ambientais. Entre as 40 empresas analisadas, 21 (53%) tiveram pontuação média abaixo de 15%. No total, 13 marcas não pontuaram.

 

O que são práticas de compra responsáveis?

Práticas de compra responsáveis estabelecem os acordos que irão guiar o relacionamento entre empresas e seus fornecedores e caminham lado a lado com a capacidade dos fornecedores de pagarem salários justos aos seus trabalhadores. Mas na indústria da moda ainda há pouca transparência, responsabilização e prestação de contas por parte de marcas e varejistas em relação às políticas que implementam para garantir um bom relacionamento de negócio com seus parceiros, que seja realmente saudável para as 2 partes e garanta condições dignas e bem-estar ao longo da cadeia de produção.

O ITMB apontou que a grande maioria das marcas analisadas não divulga informações sobre suas relações de negócio com seus fornecedores. Somente 2 de 40 empresas informam o método que utilizam para calcular e isolar os custos de mão de obra de seus pedidos (incluindo salários, horas extras, encargos sociais, licença médica, férias e licenças, bem como o custo da mão de obra indireta e aumentos salariais) e apenas 5 divulgam suas políticas de pagamento de fornecedores com prazos máximos estipulados.

Esta é a primeira edição do ITMB em que uma marca ultrapassou a casa do 70%, com a C&A atingindo 74% de pontuação média geral. No entanto, apesar de as empresas estarem melhorando seu nível de transparência a cada ano, sabemos que ainda há muito a ser feito. Por exemplo, logo no começo da pandemia, ainda em março, a C&A e outras grandes varejistas globais cancelaram pedidos em fornecedores de países asiáticos, afetando principalmente a Birmânia, Camboja e Bangladesh¹. Junto com outras 34 marcas, a C&A faz parte do grupo de empresas revisadas pelo ITMB que não divulga sua política de pagamento de fornecedores com prazos estabelecidos. Mas é extremamente necessário que informações estejam visíveis para que, em casos como esse, as empresas sejam responsabilizadas e as questões sejam resolvidas de forma mais rápida e eficaz.

Somente no final de outubro de 2020, a C&A decidiu pagar integralmente todos os pedidos restantes que estavam em produção ou concluídos no início da crise, o que resulta em dezenas de milhões de dólares em pagamentos aos fornecedores. Mas o atraso em atingir 100% do pagamento sem dúvidas custou muito caro para seus fornecedores².

 

Salário justo para viver

Indo além, é importante levar em consideração se o valor negociado para as produções é, de fato, o suficiente para cobrir custos de vida básicos. Um salário capaz de cobrir os custos de vida básicos ou “salário justo para viver” é aquele que permite um padrão de vida decente para o trabalhador e sua família. Ele é tipicamente maior que o salário mínimo e visa garantir as condições e recursos necessários para viver dignamente, como moradia, alimentação, educação, saúde, transporte, etc. A estimativa de um salário justo para viver varia de acordo com a região, e a orientação sobre esse respeito é oferecida por agências governamentais e internacionais, organizações acadêmicas e/ou ONGs.

A pesquisa do ITMB identificou que, assim como em suas edições anteriores, quase nenhuma empresa publica seus esforços e estratégias para melhorar a remuneração e assegurar salários dignos em sua cadeia de fornecimento. Somente 4 marcas (10%) divulgam seu compromisso de garantir um salário capaz de cobrir os custos de vida básicos dos trabalhadores de toda sua cadeia de fornecimento. Apenas 1 marca entre 40 relata, de forma mensurável, seu progresso anual para cumprir com esse compromisso. Nenhuma empresa divulga uma estratégia mensurável, e com prazo determinado, sobre como fará para garantir o salário justo para viver em sua cadeia.

Essa é uma questão urgente para muitos trabalhadores que lutam para suprir suas necessidades básicas. Embora seja uma questão complexa de resolver, sem a promoção de ações coletivas e maior transparência por parte de marcas e varejistas, demorará muito tempo para que essas pessoas recebam salários realmente dignos.

 

O risco de trabalho escravo contemporâneo aumenta com a pandemia

Um relatório apresentado entre os meses de setembro e outubro de 2020, na 45ª sessão do Conselho de Direitos Humanos da ONU, aponta que as consequências econômicas da crise gerada pela pandemia do coronavírus afetam diversos segmentos da população e que serão piores para os grupos que já estavam vulnerabilizados antes da pandemia. Assim, se elevarão os grandes níveis de pobreza e desigualdade social, aumentando ainda mais a probabilidade de casos de trabalho escravo contemporâneo³.

Nesse contexto, os resultados do ITMB mostram que somente 6 marcas (15%) publicam dados sobre a existência de violações relacionadas ao trabalho escravo contemporâneo nas instalações dos fornecedores, como, por exemplo, liberdade de movimento restrita, retenção de passaportes ou outros documentos dos trabalhadores, horas extras forçadas, salários retidos, servidão por dívidas ou queixas e reclamações relacionadas às práticas de recrutamento.

 

A pandemia prova por que transparência é tão vital

A falta de transparência também não fará bem para os negócios. Para o diretor de sustentabilidade da Fundação Dom Cabral, Heiko Spitzeck, as empresas que não apresentarem transparência nos temas sociais e ambientais ficarão em desvantagem para obter financiamento internacional. Outros especialistas também apontam a importância que questões socioambientais adquiriram diante da crise e que as empresas mais engajadas nesse processo serão as que sobreviverão e ganharão relevância a médio prazo4.

Ainda, de acordo com dirigentes empresariais e investidores internacionais, a estratégia das empresas em um cenário pós-pandemia tende a acelerar a busca por certificações voltadas à sustentabilidade, destacando o aumento do interesse nos últimos meses por empresas que colocam o desenvolvimento social e ambiental como definição de sucesso para seus modelos de negócio5.

Com isso, espera-se mais do nível de transparência das empresas e da qualidade de suas informações públicas. Apesar do contexto atual e das expectativas para o futuro, de maneira geral, as marcas ainda não apresentam grandes progressos desde a primeira edição do Índice no Brasil, em 2018. A edição de 2020 revela que somente 6 marcas (15%) publicam um relatório anual de sustentabilidade ou de responsabilidade social corporativa auditado ou verificado por uma terceira parte independente.

À medida que o mundo tenta sair desta crise, é essencial que os governos e empresas busquem construir novos e melhores sistemas, colocando economias em um caminho sustentável, de modo a reduzir a vulnerabilidade humana e as ameaças à saúde e bem-estar das pessoas e do meio ambiente. Negócios justos e sustentáveis são extremamente importantes para gerar renda e condições decentes de trabalho, garantindo dignidade e acesso a serviços básicos como moradia, alimentação, saúde e educação para os trabalhadores e suas famílias.

É essencial que essas empresas compartilhem mais informações sobre suas práticas, para que então possam ser responsabilizadas e cumpram com seus compromissos, a fim de evitar que trabalhadores e suas famílias sejam prejudicados. Publicar informações sobre suas relações de negócio com seus fornecedores permite que prestem contas pela segurança, saúde e bem-estar das pessoas em suas cadeias, inclusive em momentos como o que estamos vivendo agora. Para que todos se beneficiem, a indústria da moda precisa urgentemente adotar uma abordagem holística e transparente, considerando todos ao longo da cadeia de valor.

Clique aqui para baixar o Índice de Transparência da Moda Brasil 2020 para um mergulho mais profundo nos resultados.

 

Eloisa Artuso é designer, diretora educacional e cofundadora do Instituto Fashion Revolution Brasil e professora de Design Sustentável do IED-SP. Com um trabalho que se encontra no espaço entre sustentabilidade, design e educação, lidera projetos que incentivam profundas transformações na indústria da moda. Siga @eloartuso

 

Notas

¹ https://www.courrierinternational.com/article/pret-porter-au-bangladesh-cest-lapocalypse-pour-les-ouvrieres-du-textile e https://www.workersrights.org/updates-and-analysis/#May27CA

² https://www.workersrights.org/updates-and-analysis/#Oct30CA

³ https://inpacto.org.br/segundo-relatorio-da-onu-covid-19-pode-intensificar-a-escravidao-no-mundo/

https://valor.globo.com/live/noticia/2020/06/18/nao-podemos-deixar-temas-sociais-e-ambientais-perderem-relevancia-diz-presidente-da-gerdau.ghtml

https://valor.globo.com/live/noticia/2020/06/18/nao-podemos-deixar-temas-sociais-e-ambientais-perderem-relevancia-diz-presidente-da-gerdau.ghtml


 

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