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Você seria capaz de suportar minha dor?

Diálogos da Fé

A simples capacidade de se colocar no lugar do outro tem se tornado cada vez mais rara. Atualmente, poucos tentam compreender as emoções e os sentimentos do próximo e isso compromete a construção de afetos e de laços de reciprocidade. Como cantou lindamente Vander Lee: “a vida anda louca, as pessoas andam tristes, meus amigos são amigos de ninguém.”

Falta empatia, solidariedade, altruísmo e isso acirra sentimentos adversos, que alimentam práticas desumanas, como intolerância, racismo, machismo, xenofobia, homofobia e fundamentalismo. Saber ouvir, criar identidade, acolher, respeitar, amar são vocações humanas que vêm se perdendo e dando um espaço ainda maior a atitudes preconceituosas e discriminatórias.

No entanto, há grupos que sofrem historicamente com a falta de empatia e solidariedade. Isso demanda toda sorte de exclusão e acarreta índices de violência assustadores.

Afirmo categoricamente que no Brasil todo negro é um sobrevivente e o faço com base em dados estatísticos que comprovam não só um tratamento desigual ao nosso povo, mas um projeto de extermínio implementado pelo Estado desde o fim da escravidão que segue até os dias de hoje com a conivência da sociedade.

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Há um genocídio em curso, denunciado com todas as evidências e sentido na pele por mais da metade da população brasileira. Nas periferias, comunidades e territórios de resistência, todos sabem que a lei é outra e que o Estado segue de costas, legitimando ações de seus agentes que estão dizimando principalmente mulheres e jovens negros. Não me refiro apenas à atuação policial. A violência contra negros e negras avança em outras esferas: educação, saúde, saneamento básico, cultura.

Falta de investimento e oportunidades, acessos negados, evasão, discriminação, intolerância, perseguição e repressão. Tudo isso faz parte do cotidiano da população negra e quando denunciamos, reclamamos ou reivindicamos dizem que estamos nos “vitimizando”, que não galgamos melhores posições porque somos indolentes, não nos esforçamos. Ser negro no Brasil é um desafio, uma luta constante pelo direito de existir, de viver.

Minha experiência pessoal inscreve-se na lógica de uma memória coletiva, pois traz dados recorrentes e muito semelhantes aos de outras pessoas da minha geração. Venho de uma família marcada pela resistência, na qual todas as estatísticas impostas pelo racismo estão presentes e foram tristemente vivenciadas: mulheres vitimadas por abortos malsucedidos, jovens assassinados pela polícia antes de completar a maioridade, crianças com sequelas cerebrais por negligência no parto, evasão escolar, envolvimento com tráfico, encarceramento, doenças crônicas, entre tantas outras.

Para que eu pudesse estudar, foi um sacrifício imenso pessoal e de toda a família. Minha mãe seguiu os passos de minha avó e de todas as mulheres que as antecederam. Sempre foi empregada doméstica, mas definiu muito cedo que os filhos teriam outro caminho. E não mediu esforços. Deixava de almoçar no serviço e fazia uma marmita para quando eu chegasse da faculdade à noite.

Conciliar trabalho e estudo, voltar algumas vezes de Perdizes à Casa Verde a pé por não ter o dinheiro da condução, negociar os débitos com a universidade, brigar por uma bolsa. Nunca foi fácil, mas consegui. Graduação, mestrado e agora o doutorado. E pensar que só não larguei a escola no primeiro grau porque o medo do meu pai era maior do que todas as situações de discriminação que enfrentei.

Um dia, um coleguinha de classe me chamou de “negrinho fedido”. A professora simplesmente disse a ele que não falasse daquele jeito comigo porque eu não tinha culpa de ser assim. Lembrar dessas coisas é um exercício difícil, doloroso. Mas gostaria de narrar um fato que levei anos pra elaborar dentro de mim e pra recordar sem sofrer tanto.

No dia 7 de julho de 2004 fui baleado numa tentativa de assalto. Tudo muito rápido, alguns segundos, mas pra mim ainda é uma eternidade. Um rapaz branco, visivelmente alterado veio na minha direção assim que estacionei. Na hora ainda pensei: “Exu me proteja”. Quando me apontou a arma pedi a Ogum que não o deixasse atirar. Logo vieram outros parceiros e um gritou: “atira nele, atira nele”. Vidas negras valem menos. Ele atirou. Senti o impacto da bala e pedi: “meu pai Oxóssi, se eu morrer, cuida da minha família”.

Sangue em profusão tem um cheiro horrível, que até hoje me atormenta, deve ser o cheiro da morte. Eu me joguei dentro do carro, apertei a buzina com força e os ladrões fugiram. O tiro doeu, mas nada comparado a todas as dores que se seguiram.

As pessoas passavam, eu pedia ajuda, elas me viam sangrando e apertavam o passo. Chegavam até os portões e não saíam pra me socorrer. Fui andando até a casa das pessoas que visitaria e me levaram para o hospital.

Mesmo chegando baleado, não trouxeram uma maca nem uma cadeira de rodas e tive que andar até o atendimento. Pra minha infelicidade, um rapaz branco também havia sido baleado numa outra tentativa de assalto, mas ele era o assaltante e eu, a vítima. Embora não houvesse nenhuma relação entre os casos, não demorou muito para se formar uma confusão e acharem que eu era o bandido.

Passei horas sendo interrogado por policiais militares e se não fosse minha relação pessoal com um advogado influente que na época presidia a Comissão de Direitos Humanos da OAB nem sei qual seria o desfecho.

Passei uma noite no corredor daquele hospital até que uma tia valeu-se dos conhecimentos que tinha e conseguiu uma UTI móvel para me transferir para o Hospital das Clínicas, onde constataram que nenhum vaso fora lesionado e me deram alta recomendando que comemorasse o meu novo aniversário.

Foi um milagre ser atingido no tórax, a poucos milímetros da clavícula e não ter sofrido absolutamente nenhum dano físico. Restou-me no corpo uma pequena cicatriz, praticamente imperceptível, e uma marca profunda na alma. Não morri, mas aquele tiro matou alguma coisa dentro de mim.

Às vezes penso que ser negro é um crime, pelo qual temos de pagar desde o nascimento até morte. Se sobrevivermos, precisamos estar preparados, pois não nos pouparão. Seremos humilhados, vilipendiados, aviltados de todo jeito. Devemos nos manter no nosso “devido lugar”, sem ousar ascender.

Nem todos os diplomas do mundo nos livrarão do estigma. Somos negros e, por infelicidade, nascemos num lugar no qual, em tese, ninguém é racista. Estamos condenados, vamos pagar. E ainda vão nos dizer que racismo não existe, que é coisa de nossa cabeça complexada. Nascemos no Brasil, aqui ninguém conhece o racismo na teoria, mas praticam-no cotidianamente, sem constrangimento, sem vergonha, sem pena. “Quem mandou ser negro?”

Lembram-se da Claudia? Trabalhadora, pobre, mulher, negra. Uma mãe de família que foi arrastada pela polícia, morta qual um bicho, com os mesmos requintes de crueldade com os quais a escravidão até hoje nos marca. Fui morto e sangrei com ela. Toda minha gente sangrou, toda minha gente chorou. Todos morremos com ela. Morremos de uma dor que só acomete os negros.

Um negro morre inúmeras vezes ao longo de sua vida. As mulheres negras das periferias do Brasil, que lutam por igualdade social, por reconhecimento e representatividade, morrem com seus filhos assassinados por um Estado omisso e homicida, que não respeita sequer um uniforme escolar.

Resistir é nosso dom. Quem não traz no corpo essa marca talvez nunca entenda esse sofrimento que nos transforma, que nos faz superar e seguir pela glória de nossos ancestrais. Com fé nos Orixás, acima de tudo e apesar de tudo, porque nenhuma dor supera a honra de pertencer ao povo mais guerreiro do mundo.

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Pai Rodney de Oxóssi é antropólogo, escritor e babalorixá. Doutor em Ciências Sociais pela PUC-SP. Há mais de 20 anos pesquisa relações raciais, racismo e religiões de matriz africana. É sacerdote do Ilê Obá Ketu Axé Omi Nlá. Escreve neste espaço às sextas-feiras.

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