Diálogos da Fé

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Diálogos da Fé

Sobre a trama do poder de evangélicos no Ministério da Educação

Ao mesmo tempo que se estabeleceu uma aliança de conveniência, as disputas de poder e a fragmentação próprias do mundo evangélico se potencializaram e se evidenciaram

O presbiteriano Milton Ribeiro deixou o Ministério da Educação
O presbiteriano Milton Ribeiro deixou o Ministério da Educação
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O escândalo da corrupção no Ministério da Educação, que envolve o ex-ministro Milton Ribeiro e pastores da Assembleia de Deus ligados à pasta, segue comentado e noticiado. Temos aí uma trama com muitos fios que precisam ser puxados e articulados. Optei por expor neste artigo os fios que considero fundamentais: o imaginário e o ideológico.

Um dos grandes assuntos, certamente, é a posição da Igreja Presbiteriana do Brasil (denominação tradicional, não pentecostal!) e do pastor Milton Ribeiro, no MEC, pasta estratégica para os objetivos do atual governo.

Ainda em campanha, Jair Bolsonaro defendeu ser necessário mexer nos currículos escolares. Segundo ele, “para que as crianças aprendam matemática e português, e não sexo”. Também prometeu banir “os esquerdismos da cartilha”. Por isso, o MEC foi amplamente ocupado pela ala ideológica. O MEC teve quatro ministros, cujas passagens foram todas marcadas por polêmicas e irregularidades. Apesar do troca-troca, contudo, a perspectiva ideológica perdurou. 

O controle da presidência da Capes, responsável pela formação de recursos humanos e fomento para a pesquisa científica, por exemplo, teve três presidentes, dois dos quais evangélicos, um batista e um presbiteriano). Em 2021, Milton Ribeiro nomeou como coordenadora de materiais didáticos do MEC a professora da Universidade Federal do Piauí Sandra Lima de Vasconcelos Ramos. Ramos é da Igreja Batista, ligada ao movimento Escola Sem Partido. Em novembro de 2018, ela assinou documento defendendo uma revisão da Base Nacional Comum Curricular, a BNCC, sob a “perspectiva cristã” e a introdução da teoria criacionista para o estudo da Biologia.

Ungida. Bolsonaro decidiu lançar Damares Alves ao Senado pelo estado de São Paulo – Imagem: Marcos Corrêa/PR

O lugar ocupado por Milton Ribeiro seguiu a trilha histórica deixada por evangélicos que apoiaram governos autoritários. A ditadura contou com vários quadros presbiterianos e batistas, com governadores e prefeitos biônicos, juristas, oficiais militares, agentes torturadores e delatores, pastores propagadores do regime. 

O outro fio envolve o imaginário evangélico que sustenta este tipo de participação no poder político. Pouco importa se este poder representa o autoritarismo, promove a morte, da retirada de direitos com aumento da pobreza, da destruição do meio ambiente. O que importa é que “O Brasil do Senhor Jesus” (o que quer isso queira dizer) esteja nas mãos de pessoas que dizem agir em nome de Jesus. 

Como parte de meus trabalhos de pesquisa acadêmica e produção jornalística, acompanho espaços de manifestações públicas de grupos e lideranças evangélicas. Desde 2018, é possível identificar muito regozijo e celebração pela ocupação de cargos públicos por evangélicos. Nunca houve um poder público em nível nacional que proporcionasse tanto protagonismo à minoria religiosa chamada evangélica no país. 

Sim, Jair Bolsonaro, cumpriu fielmente sua parte na aliança firmada desde 2016. Naquele ano, ele se filiou ao PSC, loteado pelas Assembleias de Deus, e, mantendo-se católico, participou de um rito de passagem: o batismo nas águas do Rio Jordão em Israel, pelo próprio presidente do partido Pastor Everaldo (que esteve preso por desvios na Saúde no Rio de Janeiro e foi solto, em julho de 2021, com pagamento de fiança). 

Mesmo tendo concorrido em 2018 pelo PSL, o apelo ao apoio da população evangélica reacionária estava mantido, com o discurso moralista de salvação da “família tradicional”, a construção de uma aparência de fiel evangélico (orações em eventos públicos, citações bíblicas), o uso do atentado à faca como imagem de doação e martírio.

Com o sucesso do governo, a expressiva parcela do segmento cristão evangélico que garantiu os votos ao ex-capitão ganhou espaço e cargos. O Ministério de Direitos Humanos foi esvaziado para dividir espaço com Mulher e Família, e passou a ser dirigido pela pastora batista Damares Alves. Junto com o Ministério da Educação, é o que tem mais religiosos do segmento na ocupação de cargos-chave. 

Outros seis evangélicos ocuparam ministérios: o luterano Onyx Lorenzoni (Casa Civil, Cidadania e Trabalho e Previdência); o pentecostal da Igreja Maranata Marcelo Álvaro Antônio (Turismo); o pastor presbiteriano André Luiz Mendonça (Advocacia Geral da União/AGU, Justiça); o batista general Luiz Eduardo Ramos (Secretaria de Governo e Casa Civil); o batista Fábio Faria (Comunicações); o pentecostal da Igreja Sara Nossa Terra Bruno Bianco Leal (AGU).

Soma-se a isto o poder de articulação da Bancada Evangélica no Congresso e a visibilidade que os evangélicos alcançaram no Judiciário, alavancada pelo messianismo criado em torno da Lava Jato – alimentado pelas figuras do procurador batista Deltan Dallagnol e do juiz federal do Rio de Janeiro, o pentecostal Marcelo Bretas.

Elementos simbólicos construídos durante os mais de três anos de governo têm dado vazão ao regozijo dos sustentadores evangélicos de Jair Bolsonaro e, consequentemente, mantendo esse apoio. Entre eles, destaco a primeira participação de um presidente da República na massiva Marcha para Jesus de São Paulo (2019), a abertura de espaço na disputada agenda para participação do presidente em eventos de igrejas e em reuniões com líderes das corporações evangélicas apoiadoras, concessões de benefícios fiscais e a culminante nomeação do ministro “terrivelmente evangélico”, André Mendonça, para o STF.

Este imaginário estimula e dá cobertura e sustentação a abusos de poder, como no episódio das Bíblias impressas com fotos do ministro Milton Ribeiro, dos pastores “apócrifos” da Assembleia de Deus no MEC e do prefeito que forneceu as edições nas negociatas que envolviam o repasse de recursos da pasta. Na lógica imaginária a que apoiadores do governo insistem recorrer (ainda que sem sucesso entre fiéis das igrejas escandalizados com o caso), os fins justificam os meios – a Palavra de Deus estava sendo espalhada. 

É possível estabelecer aqui também conexão com a ditadura militar, na figura do pastor batista Nilson Fanini, ex-aluno da Escola Superior de Guerra, apoiador do regime de exceção. Amigo dos militares, Fanini ganhou espaço na programação da TV Educativa com seu programa Reencontro, e, depois, alcançou a concessão de um canal inteiro de TV, a TV Rio, hoje nas mãos da Igreja Universal do Reino de Deus. Uma das concentrações do programa Reencontro no estádio do Maracanã, contou com uma distribuição de Novos Testamentos da Bíblia com mensagem assinada pelo presidente general João Batista Figueiredo, presente no evento.

O apoio de Silas Malafaia é uma das poucas certezas de Bolsonaro no segmento evangélico.
Foto: Isac Nóbrega/PR

Um terceiro fio é um paradoxo: a coesão de conveniência entre alas distintas do fragmentado segmento evangélico em nome do acesso ao poder político, versus a disputa entre eles pelo desfrute de espaços de poder. 

Em nome do poder oferecido por Jair Bolsonaro, evangélicos tradicionais, em especial presbiterianos e batistas, e evangélicos pentecostais, em especial os das Assembleias de Deus e da Igreja Universal do Reino de Deus, foram colocados no mesmo grupo em torno da Presidência. 

Curiosamente, os cargos no governo foram ocupados, predominantemente, pela ala tradicional, fornecedora de quadros evangélicos mais qualificados para os ministérios. Daí o equívoco de críticos do governo seguirem apontando que (neo)pentecostais tomaram o poder no governo Bolsonaro. É fato que a Bancada Evangélica no Congresso tem outro perfil. Ali, os pentecostais lideram com força.

E aí emerge o paradoxo: ao mesmo tempo que se estabeleceu uma coesão de conveniência, as disputas de poder e a fragmentação próprias do mundo evangélico se potencializaram e se evidenciaram durante os três anos de governo Bolsonaro. 

No próprio MEC, Milton Ribeiro, ao assumir a pasta, demitiu o presidente da Capes, seu irmão da Presbiteriana e ex-reitor da Universidade Presbiteriana Mackenzie Benedito Guimarães Aguiar Neto, expondo possíveis disputas internas. Também, o fato de que houvesse dois pastores pentecostais, das Assembleias de Deus, com amplos poderes de negociação de verbas no MEC para troca de benefícios, provocou reações nada amistosas de seus pares na política. 

Os dois pastores que protagonizaram o escândalo com Milton Ribeiro não atuavam em nome das alas que concorrem na Bancada Evangélica (sim, ela não é homogênea!), nem do grupo das corporações religiosas em torno do presidente da República, com frequente acesso ao Palácio Planalto. Todos estes grupos de poder evangélico no Legislativo e no entorno bolsonarista, que não participaram destas articulações empreendidas por Milton Ribeiro, condenaram o trio e pressionaram pela demissão do ministro.

Como podemos ver, a trama é complexa e certamente há mais fios que dão forma à intrincada aliança entre evangélicos e  o governo Bolsonaro. Aguardemos os próximos capítulos.

Magali Cunha

Magali Cunha
Jornalista e doutora em Ciências da Comunicação. É pesquisadora do Instituto de Estudos da Religião (ISER) e colaboradora do Conselho Mundial de Igrejas. Escreve neste espaço às quartas-feiras.

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